Michel e OlivierCulináriaA importância da memória«Tinha 9 anos quando comecei a cozinhar...» Michel da Costa, ou simplesmente Michel - como o conhecemos desde há décadas - nasceu com o dom da culinária, a capacidade de criar sabores, de transmitir personalidade à comida. Aos 17, entrava timidamente na cozinha do reputadíssimo Hotel Ritz, de Lisboa, para ser aprendiz. Em 1972, com apenas 25 anos, abria na capital o seu primeiro restaurante. Hoje, aos 64 anos e dono de um currículo impressionante na arte em que se notabilizou, reconhece no filho, Olivier, os traços do empreendedorismo que sempre revelou.«Gosto de olhar para o Olivier e sentir admiração por um rapaz que, ainda jovem, já tem a vida feita, já se afirmou e é reconhecido pelas pessoas que apreciam o seu trabalho. Isso orgulha-me», diz o chef Michel. Trata-se, portanto, de uma sensação de «retribuição», de dever cumprido, própria de quem soube, sem esforço, transmitir ensinamentos e valores firmes que foram determinantes no percurso profissional do filho. «Acho que um dos segredos do sucesso do meu filho é a sua incrível memória gustativa. Eu chamo-lhe a cozinha da memória. Reconheço nos pratos que ele concebe sabores de há vinte ou 25 anos. Melhor do que isso, ele adapta esses sabores, dá-lhes continuidade. E se o Olivier tem, em algum momento, uma lacuna no seu trabalho, é capaz de me perguntar o que fazer, adaptando sempre ao seu estilo», prossegue Michel.Olivier reconhece que sim, que pede conselhos ao pai. E graceja com a situação... «Aprender com o meu pai? Só se for pelas asneiras dele, para eu não fazer igual», diz, entre sorrisos, o jovem chef lisboeta, um dos mais notáveis da sua geração, ele que, aos 35 anos, é proprietário de alguns dos melhores restaurantes da cidade - são três, serão quatro em breve -, a cujas ementas dá um toque que se distingue.«Se me perguntar o que fui eu capaz de transmitir ao meu pai, não serei capaz de lhe responder. Mas quanto aos ensinamentos que ele me deu, tenho de dizer-lhe que são... tudo. Não me ensinou a cozinhar, eu fui aprendendo, mas proporcionou-me experiências a nível profissional muito importantes. Abracei o positivo e o negativo, aprendi com tudo», concluiu.João Vieira Pinto e Tiago PintoFutebolO peso de um nomeJoão Vieira Pinto foi um dos mais notáveis futebolistas da sua geração. Inesquecível a qualidade da finta, o repentismo no remate, a perspicácia na interpretação dos movimentos colectivos, o instinto para o golo. Tiago Pinto, seu filho, trouxe nos genes algumas das características que notabilizaram o pai. Fez-se, também ele, jogador profissional de topo, defesa de boa qualidade, e é hoje, aos 23 anos, um dos valores seguros do Rio Ave.«Numa fase inicial da sua carreira não lhe foi fácil carregar o peso do nome, o peso de ser meu filho e de todos esperarem mundos e fundos do Tiago», reconhece João Vieira Pinto, de 39 anos. Mas o defesa do Rio Ave soube superar essa situação, muito por força dos ensinamentos e valores que recebeu. «Acima de tudo, o meu pai deu-me sempre liberdade de escolha relativamente ao que eu ia fazer da minha vida. Nunca me obrigou a nada, muito menos a ser futebolista. Transmitiu-me confiança, responsabilidade, a força do carácter e a importância da humildade, do trabalho e da lealdade. São factores determinantes e reconheço o mérito do meu pai em tudo isso», diz Tiago Pinto, que afirma igualmente tentar transmitir ao filho os mesmos valores e retribuir ao pai com outros ensinamentos. Quais? «A persistência, por exemplo», prossegue o jogador do Rio Ave. «Tive uma lesão há cerca de dois anos que me impediu de jogar com regularidade. Se não fossem os traços de personalidade que o meu pai me transmitiu, não teria conseguido continuar», sublinha Tiago.O pai concorda... «Recebi do meu filho a sua forma de estar, a sua persistência e convicção. Ele captou tudo o que lhe transmiti, verbalmente ou não», assinala João Vieira Pinto. «No fundo, tentei dar ao Tiago uma educação baseada no melhor que me caracteriza, ou seja, o profissionalismo, o empenho, a honestidade e a humildade. Não tenho dúvidas de que cumpri bem a minha missão e que, hoje, sou eu a receber do Tiago tudo aquilo que ele tem de bom», finaliza. Carlos do Carmo e Gil do CarmoMúsicaTudo pelo públicoGil do Carmo nasceu e cresceu rodeado de música. De alguma da melhor música que se fez em Portugal. O seu pai, Carlos do Carmo, é pura e simplesmente uma das maiores e mais conhecidas vozes do país, referência incontornável do fado. «Ao contrário do meu filho, que recebeu formação específica na área da música, eu sou um autodidacta. Hoje, sou eu que recebo dele essa formação e informação, porque o Gil é um insaciável consumidor de música e não me permite endurecer o ouvido. Com o Gil, estou sempre a crescer», diz Carlos do Carmo, um pai orgulhoso com o filho que tem e com os valores que soube «sempre» transmitir-lhe.«Pai é pai. É sempre paternalista. Mas sempre recomendei ao Gil valores como a honradez e a entrega. Em suma, a paixão. Porque esta é uma profissão que tem de ser vivida com paixão. Essa é a base», prossegue Carlos do Carmo. O filho acrescenta outros traços que foi aprendendo com o pai ao longo dos anos. «Humildemente reconheço que tudo o que possa, porventura, ensinar ao meu pai é fruto da aprendizagem que tive com ele», assinala Gil do Carmo. E que aprendizagem foi essa? A resposta surge pronta. «Acima de tudo, o meu pai ensinou-me a nunca fazer batota. Mostrou-me que a honestidade deve estar à frente de tudo o resto e que a fidelidade para com o público deve estar em primeiro lugar, porque é o público que manda em nós», frisa.Em suma, Gil do Carmo afirma que a relação que tem com o pai lhe permite receber e dar, sempre na mesma medida. «Entre nós, há uma enorme reciprocidade em todas as áreas, mas sobretudo na música. Cresci a ouvir de tudo um pouco em minha casa, e a formação que o meu pai me deu passa por aí. Hoje ainda é assim. Oiço de tudo e estou naturalmente sequioso de uma nova descoberta. Não sou preconceituoso com fusões. Esse é, aliás, o futuro da música», sintetiza.Um futuro para o qual Carlos do Carmo, de 71 anos, está preparado. Porque, como disse, está «sempre a aprender» com o filho...Ruy de Carvalho e João de CarvalhoTeatroOrgulho recíproco«A arte de representar é só uma. Ou se é bom ou se é mau. E não fui eu que ensinei ao meu filho a ser um bom actor». Ruy de Carvalho, 84 anos, figura maior do teatro em Portugal - e isso basta para o descrever... -, fala do filho, João de Carvalho (56), com orgulho.«O que fui eu capaz de transmitir-lhe? É difícil de responder... Acho que, sobretudo, soube dar-lhe apoio nas decisões que tomou. Já ele tinha o sétimo ano de escolaridade completo quando me disse que queria ir para o teatro, que achava ser esta uma profissão muito digna. E eu, lá está, apoiei. Tinha de apoiar. Os anos passaram, ele afirmou-se como actor e hoje sou eu que aprendo com ele. Os mais novos ensinam-nos sempre alguma coisa, não nos deixam ficar parados», afirma Ruy de Carvalho.João de Carvalho diz que sim, que «todos aprendemos uns com os outros». Mas garante que não ensinou nada ao pai - «ele é, simplesmente, um génio do teatro» -, e foi ele a transmitir-lhe tudo.«Adoro tudo no meu pai. Em primeiro lugar, ele foi a verdadeira mola que me lançou para a profissão de actor. Lembro-me da primeira vez que pisei um palco, teria eu dois anos apenas. Tudo era magia. E essa magia ficou, apesar de o teatro estar diferente, mais competitivo», refere João de Carvalho, vereador com o pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Vila Franca de Xira. «Do meu pai recebi tudo. O profissionalismo, a qualidade da representação, a entrega, o gosto em aprender... Ele acha sempre muito bem tudo aquilo que faço. Diz até que eu sou melhor na capacidade de improvisação, mas ele é perfeitamente igual...», prossegue João de Carvalho, que dá tanto valor aos grandes ensinamentos como àqueles que «são quase imperceptíveis».Há em João de Carvalho, sobretudo, um sentimento de «enorme admiração» pelo pai. «Ele nunca se impôs, soube sempre explicar-me o que eu tinha de saber, sempre que eu lhe perguntava algo. Temos uma relação extraordinária. E se hoje eu sou um grande pai, é a ele que o devo», finalizou.