Desenhar animais

Quando na escola alguém nos pedia para desenhar um animal, pegávamos na caneta e lá fazíamos uma cabeça com orelhas, quatro patas e uma cauda mais ou menos farfalhuda. É verdade que às vezes o resultado parecia um cruzamento entre uma girafa, um ouriço e duas raças diferentes de cães, apesar de o objectivo ser o de copiar um dos bichos que víamos no campo ou no jardim zoológico.<br />
Publicado a
Atualizado a

Só que isto era no século passado. Actualmente, embrenhados numa era de acelerado desenvolvimento tecnológico e científico, o desenho da criança do jardim de infância cada vez se confunde menos com a falta de jeito e cada vez mais se aproxima da realidade. Desenhar animais para que possuam características ou funções que a natureza não se tinha lembrado de lhes conferir, passou a ser o divertimento dos cientistas das universidades em vez dos miúdos da escola.
A este exercício de acrescentar faculdades a um animal, através de alterações do seu código genético, chama-se engenharia genética ou biotecnologia. No início estas mudanças restringiam-se aos microrganismos ou a plantas, em parte por causa da imaturidade da tecnologia, mas também por vergonha – parecia menos correcto alterar a nosso bel-prazer os animais e principalmente aqueles que nos são mais próximos, como os mamíferos. No entanto, a ciência é pouco dada a esses momentos de embaraço e por isso, apesar de alguns inquéritos mostrarem que mais de cinquenta por cento da população ainda achar «moralmente inaceitável» fazê-lo, começaram a desenhar novos animais. Alguns desenhos têm tido sucesso suficiente para serem levados a exposições, mas muitos outros provavelmente têm acabado no lixo debaixo das secretárias dos cientistas. No processo, sabe-se lá quantos animais foram sacrificados ou sofreram mais do que o aceitável. Essas questões ficarão para uma próxima abordagem, já que hoje vou limitar-me a apresentar alguns que se tornaram públicos.
EXEMPLO 1 – Certas espécies, designadamente as ruminantes, têm sido seleccionadas para darem enormes quantidades de leite, que é usado como alimento para os humanos. Com uma capacidade tão grande de produção é natural que alguns iluminados começassem a pensar que seria óptimo se conseguíssemos que no leite fosse produzido mais qualquer coisa que não apenas alimento. Uns pensaram em medicamentos (e já há ovelhas que o fazem), mas outros foram mais longe e inseriram em cabras a capacidade de produzir coisas bem mais estranhas – fios de aranha. Devo corrigir aqui a frase anterior – o que as cabras produzem, na verdade, é a proteína que compõe os fios e não autênticas teias de aranha. Tendo em conta que estes fios apresentam uma flexibilidade e resistência a tensão superiores ao aço, é compreensível que a produção em massa se mostre muito interessante. Como não se consegue criar aranhas em cativeiro nem obrigá-las a produzir enormes quantidades da proteína, pegou-se nos genes necessários e… colocaram-se no ADN de quem o faça.
EXEMPLO 2 – As fezes de porco não só cheiram mal como poluem solos e águas. Que o digam os crónicos manifestantes da Ribeira dos Milagres. Um dos componentes mais abundantes e poluentes nos resíduos das suiniculturas é o fósforo que, através de compostos como o fitato, passa o tracto gastrintestinal dos porcos e sai do outro lado sem qualquer alteração. Numa tentativa de reduzir este componente das fezes, a tecnologia resolveu juntar ao alimento dos animais uma enzima, a fitase, que vai reduzir a quantidade de fósforo eliminada. Como este método não se mostrou suficientemente eficaz, alguns desenharam geneticamente porcos que produzem na saliva a dita enzima. Assim, a simples adição de um gene que leva à produção da enzima elimina em 75 por cento a excreção de fósforo.
EXEMPLO 3 – A malária é uma doença causada por um microrganismo parasita e que mata muitos milhares de humanos todos os anos. No ciclo deste protozoário entra o mosquito, que o alberga nas glândulas salivares, permite a sua multiplicação, e depois injecta-o quando pica um ser humano. Durante centenas de anos tem-se tentado controlar a doença matando o mosquito com insecticidas (lembram-se do DDT?), tomando substâncias que evitam a multiplicação do protozoário (quinino e derivados), ou mantendo-o à distância com repelentes. Agora, mexendo nos genes do insecto, foi possível criar machos inférteis que, ao serem colocados em liberdade, poderão competir com os selvagens e reduzir a prolificidade da espécie.
EXEMPLO 4 – No caso dos peixes que brilham não são razões médicas ou comerciais que estão por detrás dos novos desenhos, mas mais motivos de decoração. O que cientistas da Universidade de Singapura fizeram foi retirar a certas alforrecas os genes que produzem uma proteína fluorescente e incluí-la no ADN de peixes de aquário. Desta forma seria agora possível ter no nosso quarto pequenas luzes azuis, amarelas ou verdes a nadar pacificamente, se não fosse o facto de a sua venda ser proibida na União Europeia com receio de que, se escaparem, possam iluminar demais os nossos rios ou afectar a fauna selvagem.
É, portanto, notório, que a ciência está virada para o desenho de animais para cumprirem as mais diversas missões. No entanto, não somos os únicos – algumas descobertas recentes vieram mostrar que a natureza também gosta de experimentar estes desenhos genéticos. A revelação de que certos animais podem incorporar moléculas de outros seres no seu próprio organismo, veio retirar a exclusividade aos bioengenheiros. Com a lesma Elysia chlorotica, que consegue aproveitar os cloroplastos das folhas de que se alimenta para fazer fotossíntese por si, a mãe-natureza provavelmente vem dizer que também é capaz, só que vai experimentando com pouca pressa e com muita precaução. Se calhar, devíamos ouvi-la com mais atenção antes de fazermos alguma asneira da grossa.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt