Defesa: à procura da reserva perdida

Publicado a
Atualizado a

Confrontados com sérias restrições de efectivos militares, os quatro chefes dos estados-maiores elaboraram um memorando em conformidade destinado à tutela - MDN. Como usual no país, logo surge na imprensa o que devia ser um documento reservado, uma nova cultura na administração pública!

Como e porquê, que consequências, décadas depois do reinício pós-ultramarino: fase de crescimento com visionários como Lemos Ferreira e Heitor Almendra na FA e noutros ramos, sustentada no mundo europeu até 1991; terminado o conflito leste-oeste, o final do serviço militar obrigatório e o ajustamento operacional iniciado nos Balcãs em 1996 com um novo modelo de forças, menos volumosas; fase turbulenta com associações de militares na rua e aumento salarial - Guterres; fase de coexistência político-militar até à crise de 2009, com as consequências advindas da troika experience, ainda presente e para ficar.

Nos diversos sectores do Estado, sujeitos a restrições persistentes, domina o desencanto das "corporações" perante perdas de qualidade de vida pessoal e profissional; no topo, parlamento e governo, domina a defesa do regime tentando não "abusar" das restrições.

A questão dos efectivos e o dilema "reservista" comprova o desajustamento conceptual nesta matéria como noutras. Ou a superficialidade política sobre o mesmo: reserva dos anos 1980 ou pré-reforma dos anos posteriores seguindo a realidade económica?

Aqui chegados, como conjugar um sólido conceito de tradição, modernidade e futuro?

Resistindo indefinidamente à mudança ou avançando em conjugação com um poder que assuma na política a "vocação" em vez da "profissão"? (Joaquim Aguiar, ainda.)

No Portugal militar, tem igualmente aplicação a dualidade profissão-vocação, se for possível visionar como Missão, o interesse do conjunto nacional. Como teria actuado um general MDN, no momento pós-2009?

Com a Defesa/FA cristalizada no passado, anquilosada por políticos profissionais mais dados a governar por simpatia do que pela realidade, mantém-se assim a deriva descendente vinda dos anos 1990!

Um novo conceito e práxis de "reservistas", cultivados nas tropas pára-quedistas da FA, desaparecido assim que mudaram de ramo, quando deviam ter sido melhorados!

Uma nova Academia Militar comum, ensaiada no início da década de 1990, logo posta de lado com o MDN rendido ao poder militar!

Um prolífico autor militar, com livro alusivo ao conceito holístico - Lemos Pires - deixou no arquivo do IAEM um trabalho do seu curso de Estado-Maior sob o significativo título "...uma estratégia militar estrutural..." com o exemplo Canadá-Estado-Maior da Defesa-1999.

Se no Portugal europeu o EMFA de Alfragide ainda seria aceitável no mundo da Guerra Fria e do SMO, o megalómano projecto COSEX na Amadora - anos 1990 - mais não era do que o confirmar da deriva dos ramos, com um elefante branco na Amadora.

Efectivos, procuram-se, onde pára a Reserva?

* Coronel paraquedista na reforma

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt