De refugiado da guerra em Angola para o topo europeu

Eduardo Mbengani vive em Portugal desde os seis anos. Sofreu na pele a guerra de  Angola, de onde fugiu com a família. Refugiado em Portugal, obteve a nacionalidade portuguesa. Hoje, com 24 anos, é o melhor fundista da sua geração.
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Eduardo Mbengani tinha apenas dois anos, mas na sua memória ficaram gravados os gritos da mãe pedindo para se esconderem quando os tiros e os rebentamentos de bombas os surpreendiam na guerra do Norte de Angola, entre o MPLA e a UNITA. "Acho estranho, era ainda bebé, mas lembro- -me perfeitamente de ouvir a minha mãe, aflita, gritar para eu e o meu irmão mais velho nos escondermos quando tivemos de fugir, apenas com a roupa que tínhamos no corpo, da nossa terra, a Makela do Zombo, na província do Uíje", recorda Mbengani, o jovem de 24 anos considerado a grande revelação da nova geração de fundistas portugueses, e um dos favoritos na São Silvestre da Amadora.

Resistência de fundista que consolidou com o espírito de sacrifício e a herança genética de pai e mãe. "Os meus pais, quando fugiram da guerra, passaram grandes dificuldades. Quando a guerra começou a aproximar-se da nossa terra, tivemos de fugir a pé cerca de 150 km por uma zona completamente deserta, até ao local onde havia transporte para Luanda", afirma. " Sofremos até chegarmos a Portugal, onde acabámos por beneficiar do estatuto de refugiados políticos, recebendo apoio escolar e alimentar", já que o seu pais congolês, casado com uma angolana, quis que o filho também tivesse a sua nacionalidade.

Em Portugal, descobriu o atletismo na escola em Algés. "Tinha colegas que gostavam de correr . Um dia, com 17 anos, fui com eles e fiz um teste no Desportivo de Monte Real. Fiquei. Muitos desistiram, mas eu fui gostando cada vez mais de correr. Treinava todos os dias. Ganhei o crosse de juniores, mas como era estrangeiro não era considerado campeão de Portugal". A nacionalidade portuguesa obteve-a apenas após os 20 anos, depois de conseguir os papéis necessários na República do Con-go. "Foi complicado. A minha mãe teve de lá ir. Estive para desistir várias vezes. Estava no 12.º ano e a tirar um curso de técnico de electrónica e telecomunicações. Pensei seriamente abandonar o atletismo. A luz ao fundo do túnel só surgiu quando o Grupo Confor-limpa decidiu apostar em mim", assume. Sob orientação técnica de Eduardo Henriques, os resultados começaram a surgir: 12.º, 11.º e 3.º nos nacionais de crosse nos últimos três anos. Há poucas semanas, "perturbou" o campeão do mundo, o etíope Gebre Gebremariam, no Crosse de Oeiras. Perdeu apenas na recta da meta, ao sprint. Quinze dias depois, no Europeu de crosse, no dia 13 em Dublim, voltou a surpreender a concorrência para ser o segundo português, com um sétimo lugar. Para Mbengani "não há segredos, mas é muito difícil chegar ao topo. Temos bons atletas, mas muitos ficaram pelo caminho. Somos abandonados. O sucesso só se atinge com capacidades físicas, psicológicas e muita perseverança".

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