Como era a voz de Nossa Senhora?

«Penetrava-nos no íntimo», terá descrito um dia, já no fim da sua vida, a irmã Lúcia, uma das três crianças que diz ter falado com a Virgem Maria em 1917. Será que foi a necessidade de "ouvir a voz de Nossa Senhora" que levou, em 2016, mais de 5,3 milhões de fiéis às celebrações no Santuário de Fátima? O que motiva os peregrinos?
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Todos os anos em Maio há quem percorra mais de 200 quilómetros a pé para assistir à procissão das velas, fazer pedidos e agradecer a Nossa Senhora na Cova da Iria, em Fátima. Uns pedem pela saúde da família ou pelo seu próprio bem-estar. Outros agradecem ter conseguido um novo emprego ou um bom resultado na escola. Cumprem-se promessas através do sacrifício, como percorrer de joelhos ou arrastar-se de barriga para baixo por uma passadeira construída para o efeito em direção à Capelinha das Aparições, local onde muitos acreditam que Nossa Senhora apareceu a três pastorinhos.

Todos conhecemos alguém que foi a Fátima a pé. Nas televisões, as imagens mostram milhares de peregrinos reunidos no Santuário de Fátima, no concelho de Ourém, que hoje se estende entre a nova Basílica da Santíssima Trindade, inaugurada em 2007, e a de Nossa Senhora do Rosário, cuja torre sineira, com 65 metros, domina aquela paisagem desde a década de 1950. Mas, entre a multidão, quem são e o que pretendem os peregrinos?

O que motiva algumas pessoas a caminharem dezenas de quilómetros - às vezes com os pés em ferida para rezar na Capelinha? Por que deixam o conforto de casa e partem? Foram estas questões que levaram duas jornalistas, Ana Catarina André e Sara Capelo, a recolher várias histórias de peregrinos de Fátima. Uma é agnóstica, nunca tinha ido à Cova da Iria, e a outra católica com experiência em peregrinação. As duas foram movidas pela curiosidade e juntas escreveram o livro "Peregrinos", publicado em abril de 2017 pela Fundação Francisco Manuel dos Santos, organização que, desde 2009, estuda a sociedade portuguesa.

Com base nestas perguntas construíram um livro, composto por histórias de homens e mulheres que procuram no Santuário de Fátima alento e conselho. "Tal como Lúcia [morreu em 2005 e encontra-se em processo de beatificação e canonização], a única dos três pastorinhos a ter uma vida longa e que ali foi, tempos depois da primeira Aparição, cumprir uma promessa pela saúde da mãe", lê-se nesta edição da coleção Retratos da Fundação. Um dia, já no fim da vida - contam as autoras - Lúcia terá descrito à sua médica pessoal, Branca Paúl, como era a voz de Nossa Senhora. «Penetrava-nos no íntimo». Uma voz interior que inspira os peregrinos a sair das suas casas para agradecer uma dádiva ou pedir pelos que amam.

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