O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, já sabia antes de chegar ao Japão que sairia da cimeira do G7 com o acesso aos caças norte-americanos F-16 que andava a pedir há meses. Mas o objetivo da sua presença em Hiroxima não se ficava por aqui. "Fórmula para a paz. Atraímos o maior número possível de países e líderes para o bem da Ucrânia. Defesa. Programas de apoio a longo prazo para a Ucrânia. Finanças e economia", explicou ao final de um dia que considerou "muito poderoso"..Zelensky aterrou no Japão pelas 15.30 locais e participou em seis reuniões bilaterais. A mais importante terá sido com o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, outro dos convidados especiais da cimeira do G7 - que, além de reiterar o seu apoio à Ucrânia, queria apostar no chamado Sul Global e procurar formas de conter a China..O encontro entre Zelensky e Modi foi o primeiro desde a invasão, sendo que a Índia mantém relações militares próximas com Moscovo e recusou condenar a invasão. "Percebo a sua dor e a dor dos cidadãos ucranianos muito bem. Posso garantir que, para resolver isto, a Índia e eu pessoalmente, vamos fazer o que pudermos", disse Modi a Zelensky. No Telegram, o líder ucraniano explicou que a conversa foi "séria" e que acredita que "a Índia vai participar na restauração da ordem internacional". .Zelensky reuniu também com a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, antes de ela deixar o Japão - mais cedo que o previsto devido às cheias que já mataram 14 pessoas no norte de Itália. E esteve com o chefe de governo britânico, Rishi Sunak, com o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, e com o chanceler alemão, Olaf Scholz. Zelensky tratou os três pelo primeiro nome no Telegram..O presidente francês, Emmanuel Macron, que também reuniu com Zelensky, considerou que a sua presença no G7 "pode ser um virar do jogo" para a Ucrânia, já que esta é "uma oportunidade única" para defender a sua causa junto dos países do Sul Global - além do líder indiano foram convidados o brasileiro Lula da Silva, o indonésio Joko Widodo, o chefe do governo vietnamita, Pham Minh Chinh, e o australiano Anthony Albanese..Na agenda deste domingo estará não só o discurso de Zelensky, mas também a reunião bilateral com o presidente dos EUA, Joe Biden - que na sexta-feira deu a luz verde para que Kiev possa ter acesso aos caças F16. "Estou muito feliz", repetiu ontem o presidente ucraniano. A Rússia também já reagiu. "Vemos que os países ocidentais continuam na linha da escalada. Isso implica riscos colossais para eles próprios", disse o vice-chefe da diplomacia, Alexander Grushko, segundo a agência de notícias TASS..Moscovo, pela voz do próprio chefe da diplomacia Sergei Lavrov, acusou também os líderes do G7 (Alemanha, Canadá, EUA, França, Itália, Japão e Reino Unido, aos quais se junta a União Europeia) de tomarem decisões "que visam a dupla contenção da Rússia e da República Popular da China". Isto depois de terem sido aprovadas mais sanções contra interesses russos e das inúmeras críticas à China..Pequim manifestou o seu "forte descontentamento" com o comunicado emitido ontem pelo G7. Nele, os líderes pedem à China para que "não realize atividades de ingerência" nos seus países e expressam "preocupação" pelas violações dos direitos humanos. Além disso, ressaltam a importância da "paz e da estabilidade" no estreito de Taiwan. "O G7 está obstinado em manipular as questões relacionadas com a China. Desacredita e ataca a China", lamentou o Ministério de Relações Exteriores chinês..Na frente de combate na Ucrânia, as atenções continuam centradas no leste, em Bakhmut. O líder dos mercenários do Grupo Wagner, Yevgeny Prigozhin, alegou ter finalmente o controlo total da cidade - palco da mais longa (dura há 224 dias) e mais sangrenta (estimativa de pelo menos 20 mil mortos) batalha desde a invasão russa. Mas os ucranianos negam, apesar de admitirem que situação é "crítica".."Por volta do meio-dia, Bakhmut foi tomada completamente", disse Prigozhin num vídeo que partilhou ontem no Telegram. "Até 25 de maio, vamos criar as linhas de defesa necessárias e entregar [a cidade] aos militares", acrescentou, dizendo que as suas tropas iriam recuar para descansar e treinar. Mas o porta-voz militar ucraniano, Serhiy Cherevatyi, disse à Reuters que os combates continuam. Informação reiterada pela vice-ministra da Defesa, Hanna Maliar, que admitiu contudo que "a situação é crítica". .A queda de Bakhmut teria um valor simbólico, uma vez que a antiga cidade mineira (onde viviam 70 mil pessoas antes da guerra) não tem um verdadeiro interesse estratégico - serviu contudo para manter concentradas as forças russas, dando oportunidade para a Ucrânia ganhar tempo para se preparar uma contraofensiva que ainda não aconteceu..susana.f.salvador@dn.pt.Com agências