Em junho de 2018 a UNESCO classificou como Património Cultural 12 sítios associados aos "Cristãos Ocultos" localizados na região de Nagasaki, reconhecendo a importância histórica e cultural de um conjunto de edificações, vestígios e vilas. Esta classificação sublinha a particularidade de uma região do arquipélago japonês, situada na mais meridional das suas grandes ilhas, e que durante séculos foi a via de entrada privilegiada do mundo que se estendia para Ocidente e para Sul..Os locais dos cristãos ocultos, nas prefeituras de Nagasaki e Kumamoto, no sudoeste da ilha de Kyushu, compreendem um conjunto de dez aldeias, um castelo e uma catedral, e abarcam um património datável dos séculos XVII ao XIX. São locais associados de forma mais ou menos directa à presença da missão cristã no Japão, que se iniciou em 1549 com a chegada de São Francisco Xavier, e ao que dela perdurou após a expulsão dos missionários em 1614, e à consequente proibição de professar a fé cristã. São, sobretudo, testemunhos ímpares da vivência das comunidades cristãs que formaram pequenas aldeias localizadas ao longo da costa ou em ilhas remotas, dando origem a uma tradição religiosa sincrética que terá mantido, nos seus traços fundamentais, a essência do Cristianismo..Uma parte significativa deste território coincide com a presença de mercadores e missionários europeus no Japão após a chegada dos Portugueses em 1543. Esta orla costeira era deles conhecida, e foi nela que, graças ao apoio de alguns grandes senhores japoneses convertidos ao Cristianismo, encontraram refúgio durante um período que teve tanto de breve (de 1543 a cerca de 1639), como de marcante..Com a expulsão dos missionários, a interdição da religião cristã, e a perseguição que se seguiu, os Cristãos japoneses formaram grupos dispersos e isolados, congregados sobretudo em áreas remotas, e desenvolvendo uma prática cristã que, com o decorrer do tempo, se foi afastando dos cânones, resultando numa fusão complexa de referentes cristãos, budistas, xintoístas e de crenças populares. Estes cristãos ficaram conhecidos como Senpuku Kirishitan, ou "Cristãos Clandestinos", termo aplicado aos cristãos japoneses do período Edo (1603-1867), revelados no século XIX, após a abertura do Japão ao exterior. Distinguem-se dos Kakure Kirishitan, ou "Cristãos Ocultos", designação que se refere àqueles que continuaram a praticar uma forma híbrida de Cristianismo, mesmo quando a necessidade de ocultar a sua fé já havia sido eliminada (em 1873), na medida em que não encontravam correspondência entre o Cristianismo que professavam e aquele que agora se lhes apresentava..Este "Cristianismo japonês", como já foi denominado, não só incorporou traços da cultura religiosa popular nipónica, como o facto de estas comunidades se encontrarem distanciadas originou variações regionais significativas. Ainda que o património classificado pela UNESCO se concentre numa região específica do Japão, a cultura material dos "Cristãos Clandestinos" que sobreviveu ao tempo, ao uso, e às perseguições, estende-se muito para lá de Kyushuū e da área de Nagasaki. Num livro recentemente editado por Ito Genjiro intitulado Hidden Kirishitan of Japan Illustrated (Kamakura: Hidden Kirishitan of Japan Illustrated Project Executive Committee, 2021, 815 pp.), resultado de um ambicioso projeto, não só o levantamento geral abrange uma vasta gama de património material (incluindo sítios; documentos escritos; túmulos e lápides; gravuras e pinturas; estátuas e esculturas; cerâmicas; sinos; crucifixos; rosários, medalhas e outros objetos de devoção), como atesta a disseminação dos Senpuku Kirishitan desde o sul até à ilha mais a norte (Hokkaido). Por outro lado, remete para o património cultural imaterial através da inclusão de uma gravação - Orasho ("Oração") -, realizada em 1965 por Kataoka Yakichi no âmbito da sua pesquisa sobre os Kakure Kirishitan, com orações em que palavras latinas se associam a termos japoneses..Por via da investigação que tenho realizado sobre a presença europeia no Japão nos séculos XVI e XVII, nomeadamente no âmbito do projeto Interações entre Rivais. A Missão Cristã e as Seitas Budistas no Japão durante a Presença Portuguesa (c. 1549-c.1647) e como Conselheira Cultural para o património Nanban de Amakusa, tive a oportunidade de visitar alguns dos sítios classificados, assim como inúmeros museus japoneses que guardam uma parte significativa deste legado. Se Nagasaki constitui um caso de estudo especial por ter sido a base dessa presença, foi em Hirado e em Amakusa, duas ilhas que se situavam à margem do contexto urbano e cosmopolita de Nagasaki, que pude contactar de perto com este património e com descendentes de Kakure Kirishitan que preservam espaços, objetos e memórias destas vivências. Por feliz coincidência, cerca de 5 meses após o anúncio da UNESCO, inaugurou em Lisboa, no Palácio Nacional da Ajuda - Galeria do Rei D. Luís, uma exposição de que fui comissária científica com Ana Fernandes Pinto, em que se expuseram objetos do Hirado City Ikitsuki Folk Museum. O título escolhido foi Uma História de Assombro. Portugal-Japão, séculos XVI-XX. "Assombro" é uma palavra ambivalente, que traduz espanto e surpresa, mas também susto e temor, termos que podemos associar à relação entre Portugal e o Japão nos séculos XVI e XVII e à história fascinante dos cristãos japoneses que prevaleceram até ao final do século XIX..Departamento de História da Arte e Instituto de História da Arte (IHA) Nova FCSH, Lisboa