Cazaquistão. A invenção do Q-pop

Mala de viagem (37). Um retrato muito pessoal do Cazaquistão.
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Hoje falo-vos de música. Afinal, conhecer um pouco de um país através da música é desafiante, sobretudo quando estamos na presença da contemporaneidade, tal como se passa na nova arquitetura, inclusivamente através de arquitetos portugueses, que surge sobretudo em Astana, a capital, que agora foi oficialmente renomeada como Nursultan, em honra do antigo chefe do Estado, Nursultan Nazarbaiev. Voltando ao nosso tema central, a música, o chamado "Q-pop" provém da junção da letra inicial do "qazaq" com o "pop" e traz uma mescla de influências. Considerado o grupo pioneiro do Q-pop, o Ninety One foi-me dado a conhecer na Internet. O nome tem a ver com a história recente do país, porque foi em 1991 que terminou o seu vínculo à União Soviética. O grupo faz referências à cultura nómada, reinterpretando-a e modernizando-a. Com roupas coloridas, cortes de cabelo arrojados e uso de maquilhagem, eles procuraram criar o primeiro grupo de ídolos do Cazaquistão nos moldes do Q-pop. Cantam sobre o que vivem no país, diferente de qualquer uma outra zona do mundo. Ambicionaram fundar um registo musical com repercussão social, tendo em vista contribuírem para um país mais aberto, livre e cooperante. O grupo aposta no idioma pelo qual comunica, num país que possui dois idiomas oficiais, o cazaque e o russo. Enquanto a maioria da população é composta de cazaques, o russo ainda é considerado o idioma predominante. Para manter a identidade do seu povo originário e divulgá-la junto dos jovens, o grupo canta cazaque. Eles estão cientes de que uma língua "muito flexível, melódica e bela" pode ser algo de novo para as pessoas que desejam aprender novos idiomas. Talvez este projeto do grupo cazaque tenha paralelo com a década de 1960 e com a consolidação do "pop" e do "rock" junto da juventude, também com críticas sobre uma apelidada "perversão". O Ninety One lidera o atual movimento de libertação e de questionamento sobre problemas de género e sexualidade, mas, ao trazer para o país influências da cultura ocidental, o grupo começou a ser alvo de protestos por parte de uma população mais conservadora. Este caldo de tradição e vanguardismo levou a um "caldo entornado" entre os conservadores e os cantores. O mundo, porém, digo eu, só muda assim e, de preferência, para melhor. E porque é que a mudança assusta as pessoas? Esta é uma pergunta que faço a propósito deste grupo musical e de tudo na vida. Na crítica e no debate de ideias, os arrojados ganham maturidade e os outros abrem os espíritos. E os países também.

Jorge Mangorrinha, professor universitário e pós-doutorado em turismo, faz um ensaio de memória através de fragmentos de viagem realizadas por ar, mar e terra e por olhares, leituras e conversas, entre o sonho que se fez realidade e a realidade que se fez sonho. Viagens fascinantes que são descritas pelo único português que até à data colocou em palavras imaginativas o que sente por todos os países do mundo. Uma série para ler aqui, na edição digital do DN.

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