O primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, será esta quinta-feira à noite o convidado de honra num jantar de Estado na Casa Branca, apenas o terceiro do mandato de Joe Biden. Os EUA estendem a passadeira vermelha ao chefe de governo do país mais populoso do mundo na expectativa de ajudar a travar a crescente influência da China na Ásia-Pacífico e no mundo, mas também adoçam a visita com acordos na área da Defesa para tentar afastar Nova Deli do seu maior aliado nesta área, a Rússia..Modi chegou aos EUA ainda na terça-feira, mas a agenda oficial começou apenas nesta quarta, com vários encontros em Nova Iorque, entre eles com o dono do Twitter e da Tesla, Elon Musk, destinado a atrair investimentos estrangeiros para a Índia. Além disso, participou nos eventos dedicados ao Dia Internacional do Ioga nas Nações Unidas, que ajudou a criar em 2014. "É incrível ver o mundo inteiro unido de novo. Para praticar ioga", disse num discurso antes de passar à prática, junto com pessoas de 135 países - um novo recorde do Guinness, segundo esta organização..Depois seguiu para Washington, onde estava previsto um jantar privado com os Biden, mais íntimo do que o pomposo jantar de Estado de quinta-feira na Casa Branca - só o presidente francês Emmanuel Macron e o sul-coreano Yoon Suk Yeol foram recebidos com as mesmas honras na Presidência de Biden. Sendo Modi vegetariano, o menu de três pratos foi pensado com a ajuda da chef Nina Curtis, especialista neste tipo de cozinha..Antes disso, Modi deverá, contudo, discursar para ambas as Câmaras do Congresso - será a segunda vez em nove anos, desde que tomou posse em 2014, tendo visitado os EUA já em cinco ocasiões. Dezenas de congressistas democratas escreveram uma carta a Biden pedindo-lhe que aborde as questões das violações dos Direitos Humanos na Índia - a preocupação prende-se com a intolerância religiosa, a perseguição a alguns grupos da sociedade civil, a liberdade de imprensa ou o acesso à internet. O conselheiro de Segurança da Casa Branca, Jake Sullivan, disse aos jornalistas na terça-feira que o presidente norte-americano deverá expressar a sua opinião sobre o tema, mas sem querer dar lições a Modi..A visita do primeiro-ministro indiano termina na sexta-feira, estando previsto um almoço no Departamento de Estado com a vice-presidente Kamala Harris, cuja mãe era de origem indiana, e o secretário de Estado, Antony Blinken. O dia termina com um discurso junto da diáspora indiana, no Centro Ronald Reagan..Mas é no jantar de Estado que Biden estenderá a passadeira vermelha a Modi, dirigente do país que, este ano, se tornou no mais populoso do mundo (1,4 mil milhões de pessoas), ultrapassando a China. É precisamente para reforçar os laços com Nova Deli face à ameaça de Pequim, não só a nível regional, mas também global, que serve esta viagem. Biden considera a Índia um parceiro vital para travar a expansão da influência chinesa em todo o mundo e reforçar a segurança na região do Indo-Pacífico, coincidindo nesses interesses com os próprios indianos - que não são alheios aos problemas fronteiriços com os chineses..A nível diplomático Washington aposta na reabertura do diálogo e no aliviar das tensões com a China, como prova o encontro de segunda-feira do secretário de Estado norte-americano com o presidente chinês, Xi Jinping. Mas, ao mesmo tempo, os EUA consideram que este país representa a "maior ameaça" contra a sua segurança nacional e querem construir e reforçar alianças para fazer face a Pequim. Até porque o mais recente apaziguamento não durou muito..Biden voltou a irritar a China depois de, num evento de angariação de fundos na terça-feira à noite, na Califórnia, ter comparado Xi Jinping a "ditadores". O presidente norte-americano falava do caso do balão espião (os chineses disseram que era um aparelho meteorológico civil que saiu do rumo) que foi abatido após sobrevoar os EUA, alegando que o homólogo ficou "envergonhado" porque não sabia que o balão estava lá. "Essa é a vergonha dos ditadores, quando não sabem que algo acontece", afirmou. Pequim classificou as declarações como "ridículas" e uma "provocação política"..A visita de Modi a Washington serve ainda para tentar desviar a Índia da influência da Rússia, mas essa missão é mais difícil devido à dependência dos indianos das armas de Moscovo. Nova Deli não condenou a invasão da Ucrânia e absteve-se nas votações das Nações Unidas, aproveitando também os preços mais baixos do petróleo russo para aumentar as importações de ouro negro. "Não somos neutrais, estamos do lado da paz", disse Modi numa entrevista ao Wall Street Journal antes de partir para os EUA..Um dos acordos esperados durante a visita, que Nova Deli considera uma oportunidade "histórica" de "expandir e consolidar os laços" entre os dois países, deverá ser a nível de tecnologia estratégica, incluindo um acordo para a produção conjunta de motores de caças e o levantamento de obstáculos para o acesso a tecnologia de ponta. No início do mês, durante uma visita à Índia, o secretário da Defesa norte-americano, Lloyd Austin, já tinha anunciado um plano "ambicioso" em matéria de cooperação na indústria de Defesa. A ideia é que a Índia produza mais armas e equipamento não apenas para o seu Exército, mas também para exportação, tornando o país menos dependente da Rússia..susana.f.salvador@dn.pt