Ato penitencial

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O desaparecimento de Fidel Castro produziu os juízos sobre a intervenção na vida do seu país e sobre as consequências que respeitam às relações internacionais que são baseadas na inegável importância dos efeitos e marcas deixados na época em que assumiu o poder, e o exerceu longamente, em Cuba. Quando era esperado que na chamada Pequena Cuba, a comunidade de cubanos que habitam, trabalham e encontraram futuro pessoal em Miami, se manifestassem, até com maior excitação do que mostraram quando abandonou o poder, o que os noticiários acentuaram é a moderação dos ajuntamentos de exilados, e dos seus descendentes já americanos, e que estes foram já conhecendo maiores liberdades de ir e voltar à ilha pátria.

A serenidade, com firmeza, é recomendável nas circunstâncias desafiantes de mudança, e a morte de Fidel é sem dúvida, do ponto de vista das emoções, mais desafiante, porque não é sobretudo o passado que se extingue, é o desafio de construir um futuro ocidental que será exigente, requerendo criatividade, ativa política de reconciliação entre as fações, um trabalho que vai exigir generosidade, aos que sentiram a recusa de cidadania e humanidade, e sobretudo aos que assumiram a necessidade de salvaguardar outros valores, que pareceu lembrada na histórica visita de João Paulo II, em que vimos, nos documentários, um Fidel Castro que parecia lembrado da circunstância galega de origem, e da reverência em relação ao pontífice.

Nesse dia, pela herança galega, talvez a muitos ocorrera o ato penitencial que diz: "Perdoa, Senhor, o nosso dia, a ausência de gestos corajosos, a fraqueza dos atos consentidos, a vida nos momentos mal--amados." Isto por muitas razões recolhidas nos brilhantes estudos do professor Moniz Bandeira, da Universidade de Brasília (Formação do Império Americano, 2014), e no recente volume do Prof. Ives Gandra da Silva Martins, professor emérito da Universidade de São Paulo, (Uma Breve Teoria do Poder, São Luís, 2016), não necessariamente pela doutrina, mas pela recolha e seriação dos acontecimentos. Por eles, justamente o originário facto a lembrar é a forma como foi exercida, em relação a Cuba, a doutrina do Big Stick do conceito estratégico originário americano.

No primeiro, é significativo o parágrafo em que lembra que "a América Latina foi uma região particularmente afetada pelas políticas dos Estados Unidos, ao promoverem o liberalismo económico através do autoritarismo político, de governos militares, a serviço da comunidade dos homens de negócios". O antiamericanismo crescente inquietou de tal modo Eisenhower, que, no encontro de 1957, no Panamá, perguntou ao lúcido presidente do Brasil Juscelino Kubitschek se ele acreditava que algum Estado sul--americano poderia adotar o regime soviético, ao que, tal como vem citado, o interrogado respondeu que sim, "se os Estados Unidos persistissem em apoiar e prestigiar as ditaduras de direita e militarismo".

A falta de uma política de recuperação sem Big Stick, quando recuperar uma atitude conciliatória da sociedade civil cubana da época o exigia, o domínio económico extrativo dos EUA e a exploração das atividades de degradação dos costumes tradicionais não encontraram gestos que o permitissem do lado americano e amenizassem os efeitos das ações de privatização, da guerra instalada depois da vitória militar de Fidel, o que impulsionou a inclinação do novo governante para a URSS, um trajeto que conduziu à dramática tensão dos mísseis que levou o infeliz presidente Kennedy a tornar claro que "se as nações do hemisfério falharem na oposição à penetração exterior do comunismo - então desejo que fique claro que este meu governo não hesitará em assumir a sua principal obrigação que é a segurança da nossa nação".

Foram dias de angústia para toda a humanidade, sobretudo porque já era claro que não eram domesticáveis os complexos militares industriais (Eisenhower), e impossível até produzir uma "casta atómica" que impedisse a multiplicação de detentores desse poder, que hoje existem. É certo que, como recorda o professor Ives Gandra da Silva Martins, "não se pode esquecer que a ditadura cubana começou com um dos maiores banhos de sangue no Caribe, ou seja, nos paredões criados por Fidel Castro foram fuzilados, em julgamentos sumários e sem direito de defesa, milhares de cubanos, ao ponto de o líder cubano ter sido chamado, à época, por estudantes de Direito da Universidade de São Paulo, dececionados com os fuzilamentos em massa, de Fidel Paredon Castro...

"A tecnologia moderna, todavia, até nestas ditaduras fechadas, abre brechas, e a população acaba tomando conhecimento do que vai pelo mundo, principalmente via TV, rádio, e internet." A sabedoria dos cabelos grisalhos tornou talvez possível, depois de abandonar o poder, consolidar na imagem, mais de acordo com as oportunidades em que publicamente mostrou a sua herança da cultura galega, os testemunhos de vários líderes políticos de projeção mundial que recordam, dos contactos, sempre a sua alta cultura, afabilidade, preocupação com a situação mundial e amor ao povo que governou. Repetidos depoimentos que parecem ter sido influenciados pela leitura das últimas palavras que Thomas More, elevado a santo protetor de governantes e parlamentares por João Paulo II, tão graciosamente recebido por Fidel Castro, dirigiu ao tribunal que o julgou.

Seria vantajoso que venha a corresponder aos factos a divulgada afirmação que tal morte tornará possível ao irmão, no cargo supremo desde o afastamento de Fidel por razões de saúde, uma atitude mais liberal na vida interna e atenta às exigências da conturbada ordem prometida pela ONU, e com penosos exemplos de inautenticidade no Sul do continente americano. O próprio abade Correia da Serra, tão esperançoso da evolução futura do continente, teria dificuldade em enfrentar o processo em curso, e encaminhá-lo, como é exigido pela justiça e pela paz, para o regresso geral ao aceitamento dos princípios da ONU, em pousio, dos princípios da Declaração Universal de Deveres, nunca aprovada, e para a contenção do complexo militar-industrial, que angustiou o diálogo de Eisenhower com o presidente Juscelino, este que teria hoje outras patrióticas preocupações.

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