As dúvidas que deixa o encontro secreto entre Putin e Prigozhin

Reunião entre o presidente e o líder do Grupo Wagner ocorreu cinco dias após rebelião. Porque só foi revelada agora e em que ponto está o acordo negociado com apoio de Lukashenko?
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No dia em que o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, considerou que o presidente russo tinha saído "enfraquecido" da rebelião do Grupo Wagner e por isso era "ainda mais perigoso", Vladimir Putin estava a encontrar-se em Moscovo com o líder dos mercenários, Yevgeny Prigozhin, e três dezenas dos seus comandantes, que lhe terão jurado lealdade, segundo o Kremlin. O encontro de três horas, que só agora foi revelado, aconteceu a 29 de junho, cinco dias após a breve rebelião que ficou a 200 quilómetros da capital russa.

O facto de Prigozhin se ter reunido com Putin logo cinco dias depois da marcha para Moscovo deixa contudo muitas perguntas. Desde logo, se é verdade que lhe juraram lealdade, porque é que o encontro não foi anunciado logo na altura? Depois, porque é que os media russos mantêm uma campanha negativa contra o líder do Grupo Wagner se, aparentemente, tudo estaria bem com o Kremlin? Finalmente, em que ponto está o acordo que foi negociado com a ajuda do presidente bielorrusso, Alexander Lukashenko?

Segundo o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, no encontro o presidente fez uma avaliação das ações do Grupo Wagner na Ucrânia e também dos eventos do dia em que os mercenários marcharam para Moscovo. "Os próprios comandantes apresentaram a sua versão do que aconteceu. Sublinharam serem partidários leais e soldados do chefe de Estado e do comandante-em-chefe, e também disseram que estão prontos para continuar a lutar pela sua pátria", explicou ontem Peskov.

No dia da rebelião, Prigozhin aceitou um acordo negociado com o apoio de Lukashenko, segundo o qual as acusações contra si eram retiradas e ele teria a porta aberta para ir viver na Bielorrússia com os seus homens. Em duas mensagens áudio divulgadas desde então, Prigozhin disse que o seu alvo nunca foi derrubar Putin - que o chegou a apelidar de "traidor" -, mas defender os seus homens. E pedia uma mudança na liderança militar russa, sendo os seus alvos o ministro da Defesa, Sergei Shoigu, e o chefe das Forças Armadas, Valery Gerasimov - de quem ontem foi divulgado um vídeo, a sua primeira aparição em público desde a rebelião.

O paradeiro de Prigozhin continua a ser desconhecido, tendo Lukashenko dito que estava em Minsk e mais tarde teria voltado a São Petersburgo. Dos seus homens também não há sinal.

Entretanto, no terreno, a Ucrânia diz ter recuperado o controlo de importantes áreas em torno de Bakhmut - conquistada pelos mercenários do Grupo Wagner e entretanto entregue às forças russas. Um ataque russo a um posto de distribuição de ajuda humanitária em Orikhiv, na linha da frente da região de Zaporíjia, causou, no domingo, a morte de cinco pessoas.

susana.f.salvador@dn.pt

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