Fui ler as quase seis dezenas de páginas da declaração final da Cimeira do BRICS, (onde China, Rússia, Brasil, Índia mais África do Sul anunciaram a entrada nesse clube de outros seis países) e do documento similar da Cimeira do G20 (que confirmou a entrada da União Africana nesse grupo)..Queria perceber algo mais do que o propagandeado jogo de influências e tensões entre Estados Unidos, China, Rússia, Índia, Brasil, União Europeia e outros. Interessava-me, sobretudo, entender as diferenças e semelhanças entre os dois documentos..Os cinco países que no dia 31 de agosto abriram o BRICS ao ingresso, a partir de 2024, da Argentina, Arábia Saudita (que, como eles, fazem parte do G20) Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia e Irão procederam a um movimento político que, se funcionar, terá contornos históricos: a organização terá metade da população mundial e um PIB em paridade de poder de compra maior que o G7, a associação que junta EUA, Alemanha, Canadá, França, Itália, Japão, Reino Unido e União Europeia..Todos os atuais membros do BRICS e todos os G7 mais México, Coreia do Sul, Indonésia, Turquia e Austrália juntaram-se, há dias, no G20, na Índia, representando qualquer coisa como 85% do PIB mundial..No documento aprovado pelo BRICS a palavra "paz" aparece 16 vezes, mas a palavra "guerra" nunca é escrita, substituída quatro vezes por "conflito". No documento do G20 a "guerra" surge seis vezes e a "paz" sete..No G20 dedica-se algum texto à guerra na Ucrânia, sublinhando que os princípios da Carta das Nações Unidas devem prevalecer para resolver o problema. No BRICS a palavra "Ucrânia" aparece uma única vez, mas escreve-se que há muitos conflitos no mundo, citando-se o Sudão, o Níger, a Líbia, o Sara Ocidental, a Palestina, o Haiti e a tensão à volta da questão nuclear no Irão. No G20 estes temas não existem..Para a solução desses e de outros problemas mundiais, além do respeito pela Carta das Nações Unidas, o BRICS advoga uma intervenção diplomática mais forte da ONU, a reestruturação do Conselho de Segurança e de outras instituições mundiais (incluindo a Organização Mundial do Comércio, o Banco Mundial e o FMI), para dar mais representação aos países em vias de desenvolvimento. O G20 aborda estas mudanças mais "ao de leve", aceitando, porém, os mesmos princípios de reforço de influência do Sul Global, num processo que ambos os documentos designam por "multilateralismo" - palavra que surge seis vezes escrita em cada uma das redações..No BRICS deseja-se abertamente que a negociação entre países seja cada vez mais feita em moedas locais em vez de dólares, no G20 esse tema é também ignorado, mas fala-se numa reforma do Banco Mundial e do FMI para atender às necessidades do mundo menos desenvolvido e advoga-se transações entre países feitas em criptomoedas, de forma regulada..A palavra que aparece mais vezes escrita nos dois documentos é "desenvolvimento" (100 vezes no BRICS, 114 no G20), e em ambos os textos essa palavra surge quase sempre associada à palavra "sustentável"..Outra preocupação comum é manifestada pela expressão "alterações climáticas" (22 vezes no papel do BRICS, 31 no G20), mas enquanto o primeiro documento enfatiza a necessidade de os países mais desenvolvidos cumprirem a promessa de financiarem os países mais pobres na transição energética para fontes mais limpas (caso contrário continuarão a usar combustíveis fósseis para, literalmente, "impedir a fome"), o segundo aceita esse repto, mas realça várias propostas de políticas de financiamento mundial, público e privado, para o hidrogénio verde, para o nuclear dito "limpo" e para outros negócios energéticos alternativos - no G20 fala-se num investimento mundial de 4 biliões de dólares..Todos se comprometem a recuperar o atraso no combate ao aumento da temperatura do planeta, mas os países do BRICS recusam que os estados mais pobres sejam vítimas de políticas que limitam o comércio internacional, impostas pelos países mais desenvolvidos a pretexto da proteção ambiental..A igualdade entre homens e mulheres merece largo espaço nos dois documentos, assim como o combate à fome, a agricultura, a proteção dos migrantes, a banca, a industrialização em países em desenvolvimento, a digitalização, a internet, etc...Há muitas outras diferenças e semelhanças nos dois documentos que mostram como uma visão unilateral do mundo, apesar dos problemas comuns, é, simplesmente, irrealista..Falta-me o espaço para dar outros exemplos, mas fico-me por algumas boas intenções ali escritas: a palavra "liberdade" aparece três vezes no BRICS e cinco no G20; "direitos humanos" sete vezes no BRICS e 4 no G20 e, surpreendentemente, a palavra "democracia" aparece escrita quatro vezes na declaração do BRICS e zero (...zero!) vezes no papel que os líderes do G20 assinaram... Alguém tinha lido? Jornalista