Perante a morte de Alan Arkin, no passado mês de junho, aos 89 anos, quase todos os títulos de imprensa se referiram ao ator que venceu um Óscar por Little Miss Sunshine. Muito bem. E mais nada? Certamente, esse foi o filme que, em 2006, deu a conhecer às novas gerações a velhice luminosa de um intérprete que teria tido algures uma carreira discreta na Hollywood pós-clássica. O papel de um avô heroinómano e desbocado, cheio de carinho pela neta, que lhe valeu a estatueta dourada à terceira nomeação, numa altura em que já ninguém se lembrava das duas anteriores. E, porém, será que a memória de Arkin fica bem servida apenas com a referência deste filme? Em relação aos prémios, ele sempre se manteve afastado da cena mediática. Consta que brincou com isso uma vez: "Nunca conheci o Oscar Buzz. Já ouvi muito falar sobre ele, mas nunca conheci o indivíduo.".Em jeito de piscadela de olho aos obituários, o ciclo que a Cinemateca dedica a Arkin ao longo do mês de setembro arrancou na última sexta-feira com Little Miss Sunshine, ou, como em português se chamou, Uma Família à Beira de Um Ataque de Nervos. Um sinal de partida a jogar pelo seguro, se comparado com a grande maioria dos filmes do programa, que pouco têm que ver com essa versão adorável q.b. do avô da pequena Olive, apesar de confirmarem - absolutamente - a loucura insinuada pela mesma personagem..Desta fase tardia, nem sequer será exibido Argo, de Ben Affleck, que deu ao veterano a sua derradeira nomeação ao Óscar. E ainda bem que as escolhas recuam no tempo: o que salta à vista no ciclo Alan Arkin, o Comediante Assustado é, afinal, uma vontade de regressar às bases do seu tom, perceber o que definiu uma forma de estar diante da câmara e aquele sobressalto miudinho e permanente nos olhos do ator americano..Hoje, na esplanada da Cinemateca (21.30), revisita-se Eduardo Mãos de Tesoura, o fabuloso clássico moderno de Tim Burton onde Arkin surge como o tranquilo e alheado pai da família adotiva do protagonista, responsável por algumas das situações mais caricatas (quando se esquece que Eduardo tem mãos metálicas e afiadas...). Mas a verdadeira novidade deste ciclo está nos restantes títulos, todos eles inéditos na Cinemateca, que fazem descobrir o conteúdo e a forma de um comediante sem peneiras de estrela. Um rosto esculpido por personagens quase sempre mal acomodadas no mundo, com uma expressão de desamparo à beira do neurótico, por vezes a fazer lembrar um bocadinho Woody Allen..Esse perfil corresponde sobretudo à década de 1970. Ligeiramente antes, em 1967, num filme de Terence Young, Os Olhos da Noite (a passar nos dias 19 e 26), Arkin veste a pele de um vilão que aterroriza Audrey Hepburn. Aqui, ela é uma mulher cega sozinha em casa num dia em que se expõe a demasiadas visitas, depois de o marido ter saído para ir trabalhar... Os criminosos procuram uma boneca que contém heroína - e neste cenário Arkin destaca-se pela carga de pânico que traz ao apartamento onde tudo se passa..Um tipo de personagem malévola pouco conciliável com o estatuto do ator que apenas um ano antes fora nomeado para o Óscar no seu primeiro filme, Vêm Aí os Russos, Vêm Aí os Russos!, de Norman Jewison, e que logo a seguir, em 1968, alcançaria a proeza melodramática como protagonista surdo de The Heart is a Lonely Hunter, adaptação do magnífico romance homónimo de Carson McCullers. Esta obra rara, que representa a sua segunda nomeação aos Prémios da Academia, também poderá ser redescoberta, no dia 14..Mas como comecei por dizer, é nos Anos 1970 que se sente a pulsação da franqueza cómica de Alan Arkin, e o assumir de uma carreira só aparentemente desgovernada, que hoje se recupera com uma sensação de espanto. Nem de propósito, Catch-22 (para ver no dia 20) - o filme maldito de Mike Nichols, que no princípio dessa década ousou levar ao grande ecrã a sátira literária antibélica de Joseph Heller - funciona como tubo de ensaio: toda a insanidade da guerra se reflete no semblante atormentado de Arkin. Um semblante que foi trabalhando pequenas variações desse estado de loucura (recorde-se, por exemplo, a cena em que aparece todo nu à frente do general interpretado por Orson Welles para receber uma medalha), e que vigorou nas comédias mais agressivamente desvairadas, como Freebie and the Bean (dias 12 e 19), de Richard Rush, e Por Favor Não Matem o Dentista (dias 7 e 9), de Arthur Hiller..O primeiro, um buddy cop movie sem freio, que põe Arkin e James Caan ao serviço de um sistema de ação marcadamente burlesco. O segundo, não menos desassisado e delicioso, um feliz encontro com Peter Falk, futuro compadre do dentista do título, Arkin, que o levará numa aventura com o seu quê de suicida....Depois há o Alan Arkin cineasta. Resgatadas neste ciclo, as suas duas longas-metragens, Little Murders (dias 11 e 25) e Fire Sale (dias 13 e 22), são o espelho da comédia desconcertante que praticou enquanto ator no coração desses Anos 70. Fire Sale foi um falhanço à época, que agora em comparação com qualquer comédia contemporânea nos parece uma pérola - a história tresloucada de dois irmãos, interpretados por Arkin e Rob Reiner, com problemas monetários distintos que convergem para uma noite alucinante. Já o primeiro, Little Murders, concentra um espírito cómico muito mais negro, impressionando de sequência em sequência com o seu anti-herói, um nova-iorquino niilista encarnado por Elliott Gould, a lutar contra a própria apatia amorosa numa sociedade endemicamente violenta..Pelo meio, atente-se na extraordinária performance de Donald Sutherland como reverendo de perturbadora eloquência num discurso sobre o matrimónio... De resto, este foi o filme que mereceu um elogio escrito de Jean Renoir, o mestre francês venerado (e meço a palavra) por Alan Arkin..Crente da filosofia oriental, meditação e hábitos alimentares baseados em produtos biológicos, eis o filho de imigrantes, nascido em Brooklyn, que antes de morrer deixou um forte lembrete da sua aura humorística na série The Kominsky Method, ao lado de Michael Douglas..O seu percurso artístico começou na música (alguém se lembra que ele é coautor do famoso tema The Banana Boat Song?), e passou pela Broadway, mas foi no ecrã que imprimiu um discretamente glorioso génio "falhado". Saibamos celebrá-lo, pois, até no mais estrambólico registo, que se pode apanhar por estes dias (14 e 16) num musical australiano chamado The Return of Captain Invincible (1983). Um autêntico delírio (mais um...), com o contributo vilanesco de Christopher Lee..dnot@dn.pt