É nas areias de uma praia da baía de Tanger, Marrocos, que Agostinho Neto inicia, no dia 8 de Julho de 1962, o percurso último da sua luta anticolonialista. O que o conduzirá ao dia da independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, e ao mandato como seu primeiro presidente..Então com 40 anos, António Agostinho Neto, chega a Marrocos, acompanhado da família, mulher e dois filhos de tenra idade, num pequeno iate, onde havia embarcado clandestinamente, na doca de Pedrouços, em Lisboa, no final do dia 6 de Julho. O iate pertencia ao "aparelho de ligações marítimas" do Partido Comunista Português, um dos aparelhos de evasão que tinha em Portugal. Uma vez mais, o PCP e a ideologia marxista-leninista eram determinantes na vida do líder independentista. Antes da fuga à polícia política, nesse Verão de 1962, Agostinho Neto participa na luta anti-salazarista e, como outros resistentes, conhece a prisão e a deportação. .Nascido na circunscrição de Icolo e Bengo, a 17 de Setembro de 1922, filho de um pastor da Igreja Metodista e de uma professora primária, Agostinho Neto conclui os estudos secundários aos 22 anos, no Liceu Salvador Correia, em Luanda - onde estudaram, nas décadas de 40 e 50, alguns dos jovens que aderirão, depois, aos movimentos independentistas. Neto virá para Portugal, em 1947, com uma bolsa de estudo dos metodistas americanos, para estudar medicina em Coimbra. Conclui o curso em Lisboa e participa nas actividades da Casa dos Estudantes do Império (organização do regime, onde se cruzará com nacionalistas como o guineense Amílcar Cabral, o angolano Mário Pinto de Andrade e o moçambicano Marcelino dos Santos) - e em cujo boletim publica alguns dos primeiros textos poéticos. .Como muitos outros universitários do seu tempo, será tocado pelo marxismo-leninismo, participando na luta contra Salazar do MUD-Juvenil, o Movimento de Unidade Democrática tutelado pelo PCP. Essa militância vale-lhe duas prisões. Em 1958, terminado o curso de Medicina, casa-se com a portuguesa branca Maria Eugénia e regressa a Luanda. Participa na fundação do MPLA, é de novo preso e enviado para Lisboa, para a prisão do Aljube. Perante a pressão internacional, é libertado e enviado para Cabo Verde, como delegado de saúde - uma tentativa para o "recuperar". Em finais de 1961, é detido e reenviado para Portugal, por posse de propaganda anticolonialista. Em Março de 1962 é posto em prisão domiciliária - até que o PCP organiza a sua fuga..Agostinho Neto inicia um percurso atribulado como dirigente do MPLA, vencendo os seus opositores internos. Afasta, ainda nos anos 60, Viriato Cruz, o verdadeiro ideólogo do movimento e seu co-fundador, de tendência maoísta, e Mário Pinto de Andrade, um intelectual e nacionalista moderado. E, no início dos anos 70, as fracções Revolta Activa, dirigida por Joaquim Pinto de Andrade, e Revolta do Leste, encabeçada por Daniel Chipenda. No campo da luta armada, o MPLA não consegue grande notoriedade. No terreno, enfrenta outras duas forças independentistas (a FLNA e a UNITA, no que constitui já uma primeira guerra civil) e as tropas portuguesas, que desbaratam as frágeis colunas militares do movimento.. Neto dirige o MPLA com mão de ferro, conta Iko Carreira, o primeiro ministro da Defesa de Angola: "Perseguia com virulência todo aquele que se interpusesse nos seus planos." .Será o 25 de Abril de 1974, em Portugal, que mudará o destino do MPLA e do seu líder.