Começo com esta frase de Miguel Albuquerque, presidente do Governo Regional da Madeira, no início da campanha eleitoral para o novo Parlamento madeirense: "Penso que não será necessário. Com o Chega tenho muitas dúvidas em fazer qualquer acordo, vai depender do resultado, não há vitórias antecipadas.".O raciocínio, nessa altura, de Miguel Albuquerque implicava que o PSD-Madeira não gostaria de ir por aí, mas, se tivesse essa necessidade para se manter no poder executivo do arquipélago, negociaria um acordo político com o Chega..É verdade, porém, que, ao longo da campanha, à medida que a temperatura política foi aquecendo (e depois de André Ventura ter exigido a Albuquerque que explicasse a origem da sua riqueza pessoal), o dirigente social-democrata negou várias vezes essa possibilidade -, mas a expressão "vai depender do resultado", proferida há um mês, deixava a porta aberta para voltar atrás nas juras políticas dadas ao eleitorado, durante a campanha..Acontece que os resultados eleitorais, que deram uma maioria relativa à coligação PSD/CDS e a possibilidade de resolver a questão da formação de um Governo Regional com o PAN e/ou a IL, tiraram o problema da mesa de trabalho de Albuquerque. .Porém, o líder nacional do partido, Luís Montenegro, foi ao Funchal celebrar a vitória da frustrada maioria absoluta e saiu-se com esta frase: "Não haverá nenhuma solução governativa na Madeira que tenha a contribuição do Chega. E eu quero dizer-vos que aquilo que vai ou pode acontecer na Madeira é aquilo que vai ou pode acontecer no país, que o mesmo é dizer: nós não vamos governar nem a Madeira, nem o país, com o apoio do Chega, porque não precisamos.".Depois de 56 longas palavras a negar acordos com o Chega, Luís Montenegro mata a ideia que queria fazer passar com as três singelas palavras finais daquela frase, "porque não precisamos", glosando o "vai depender do resultado" dito por Albuquerque..A interpretação só pode ser uma: se precisar disso para alcançar o poder, o PSD nacional fará acordos com o Chega, tal como aconteceu nos Açores depois da Regionais de 2020..A Direita portuguesa nunca esteve eleitoralmente tão fragmentada e, mesmo somando mais votos que a Esquerda, pode não conseguir formar Governo, algo que não acontecia há 10 ou 20 anos, quando PSD e CDS monopolizavam esse eleitorado e facilmente se entendiam. E é por isso que esta questão é, para a nossa pequena política, relevante..O eventual votante no Chega nunca deixará de votar nesse partido para votar utilmente no PSD, e assim dar força à possibilidade de fazer cair o Governo PS, enquanto perceber que os sociais-democratas, "se precisarem", aceitarão uma aliança com o Chega..O eventual votante flutuante entre PS e PSD, do chamado "eleitorado do Centro", que esteja desgostoso com a incompetência da maioria absoluta socialista, mais facilmente cairá na abstenção do que votará social-democrata ao perceber que, se Montenegro "tivesse necessidade", viabilizaria a ida de André Ventura para o Governo..E o eventual votante não-ideológico, o que decide em cima da hora onde põe a cruz no boletim eleitoral, dificilmente será seduzido por uma proposta política tão pouco clara, tão dependente de negociatas palacianas e tão difícil de entender..Para a Esquerda isto pode parecer uma coisa muito boa, mas não é..A divisão de votos à Direita e as contradições de Luís Montenegro, como se tem visto, vão enfraquecendo potenciais intenções de voto no PSD e reforçando (pouco) a Iniciativa Liberal e (muito) o Chega. Isto significa que, se à Esquerda não houver capacidade de atrair muito do eleitorado que está desiludido com o PS, o Chega tem cada vez mais condições para ser uma "necessidade" do PSD e de entrar com os sociais-democratas num Governo de Direita..Nestas eleições na Madeira, com o PS a perder metade do eleitorado, CDU e Bloco registaram boas subidas (o Bloco menos do que diziam as sondagens, a CDU bastante mais do que esses estudos - repetidamente errados - indicavam) e o Juntos Pelo Povo (um partido regional, ideologicamente contraditório, mas que a imprensa vai classificando à Esquerda) duplicou a votação, ficando à frente do Chega..Isto prova que, numas futuras eleições, a queda do PS não significa, necessariamente, o enfraquecimento eleitoral da Esquerda e, consequentemente, a chegada da Direita ao poder - para citar Miguel Albuquerque, "vai depender do resultado"..Jornalista