A janela do meu quarto dá para um vale cheio de árvores, um riacho e muito sossego. É claro que o «muito sossego» refere-se a actividades humanas, já que, sobretudo na Primavera, o chilrear da passarada é ensurdecedor. Contradição? Não, são apenas sons que divergem no efeito que produzem no nosso cérebro e na nossa tranquilidade.Ultimamente, entre o piar dos mochos-galegos, o grasnar das gralhas e a melodia dos diversos melros que competem pelas fêmeas, ouço o tal matraquear. Os responsáveis, um casal de pica-paus, avistei-os ontem a esvoaçar entre um choupo e uma oliveira, mas mesmo sem os ver ou sequer ouvir sabia que eles rondavam o meu jardim porque o poste incumbido de trazer o fio de telefone para minha casa tem sido visitado diversas vezes por estas aves e apresenta profundos buracos a comprová-lo. Aliás, o picotado no velho poste é tal que estou convencido de que uma conversa um pouco mais áspera ao telefone é capaz de o derrubar de vez. Apesar de poder vir a sofrer com esta falta de respeito pela propriedade alheia, é com imensa alegria que ouço a ecoar ao longo do meu vale as batidelas frenéticas da família de pica-paus. O orgulho é tanto que proponho hoje desvendar mais alguns pormenores desta ave tão peculiar.Os pica-paus estão espalhados pelo mundo com excepção de Madagáscar, Nova Zelândia e Austrália (e obviamente da Antárctida). Todos os membros pertencem à família Picidae, que inclui ainda umas aves chamadas torcicolos (ou papa-formigas). Em Portugal temos três espécies relativamente abundantes, o verde e dois malhados, e uma mais rara, o pica-pau preto, que tem sido observada nas florestas no Norte do país. No entanto, aquela que foi hoje chamada ao protagonismo chama-se pica-pau-malhado-grande ou Dendrocopus major. Esta espécie, do tamanho de um melro, veste uma plumagem branca na parte ventral e preta malhada de branco na dorsal. Além disso, mostra uma vistosa mancha vermelha na zona ventral da base da cauda e outra na cabeça. São aves tímidas que são mais ouvidas (o tal matraquear) do que vistas. O voo ondulante entre árvores, muito típico dos pica-paus, permite identificá-los à distância.Feitas as apresentações, segue-se uma descrição de algumas das características mais interessantes do elemento da família que me acorda todos os dias. Todos estes atributos resultaram de uma só coisa: da necessidade de explorar e tirar partido de uma fonte de alimento que se encontrava protegida do resto das aves – os invertebrados escondidos debaixo de casca dura ou no fundo de galerias profundas cavadas nos troncos das árvores. A necessidade e o gosto por fazer buracos na madeira é portanto a mania mais conhecida, tendo obrigado a Evolução a montar uma série de extras na estrutura anatómica dos pica-paus. Para já, era preciso garantir pancadas poderosas capazes de abrir buracos nas madeiras mais obstinadas. Para isso, foi encomendado um bico cónico, curto mais forte que nem aço, e uma musculatura da cabeça e pescoço capaz de abanar a cabeça várias vezes por segundo. Depois era necessário assegurar que a cada pancada seca nos troncos duros o cérebro não chocalhasse até à inconsciência, o que foi conseguido com um reforço da estrutura craniana. E, finalmente, era preciso que a ave se mantivesse firme durante todo o processo de martelar e não caísse desamparada a cada ricochete da pancada. Para isso foram montados dois sistemas extremamente eficazes: dedos para a frente e dois para trás providos de unhas afiadas e resistentes e uma cauda de penas duras que se apoiam no tronco oferecendo estabilidade permanente a quem tem de se manter na vertical enquanto trabalha.Levantou-se então a questão de que forma podia alcançar-se a larva ou o insecto que acordado pela chinfrineira se refugiava no fundo das galerias. E nasceu uma enorme língua que se encaracola no interior do crânio provida de uma espécie de espigão na extremidade. Com ela até o mais recôndito refúgio fica à mercê da ave – depois de retirar a casca e rebater a madeira, a língua penetra até ao fundo trespassando o verme. Um autêntico espeto para o almoço.Como nem sempre estas armas são suficientes para desalojar os vermes mais teimosos, a mãe-natureza proporcionou aos pica-paus uma sabedoria que poderíamos chamar de inteligência. Esta técnica foi descoberta observando pacientemente o pica-pau a caçar. Como o matraquear de um lado do tronco leva a que a presa se desloque para a extremidade oposta, o pica-pau tem o hábito de bater na madeira e depois rapidamente rodear a árvore para apanhar o insecto que tenta escapar pela saída de emergência.Percebem agora porque não me importo de ser acordado pelo matraquear de uma ave tão interessante. Os únicos que parecem não gostar da companhia são as térmites que escolheram para lar o poste do telefone.