À procura de Louis Armstrong

Um documentário para pôr uma das maiores lendas do jazz em perspetiva. Mais do que a música, <em>Louis Armstrong"s Black & Blues</em>, de Sacha Jenkins, persegue a essência do homem por trás do sorriso caloroso.
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Depois de Sidney, o documentário de Reginald Hudlin sobre Sidney Poitier, a Apple TV+ lança agora Louis Armstrong"s Black & Blues, um olhar sobre outra figura capital da história dos artistas negros nos Estados Unidos. E um pouco à semelhança do caso de Poitier, esse ator que se fez respeitar em Hollywood, mas cuja grande proximidade com os brancos não caiu bem a alguns membros da comunidade negra, também o filme de Sacha Jenkins observa a complexidade do homem que se elevou acima do contexto racial, fazendo a luta através da afirmação da sua música, sem conseguir, porém, evitar a imagem equívoca de um Uncle Tom vendido ao público branco em plena época do Movimento dos Direitos Civis... É muito sobre essa aparente contradição que se firma o novo documentário, à procura de quem foi Louis Armstrong para além do sorriso, da "alegria transcendente" (palavras de Wynton Marsalis), da voz e da arte do trompetista.

Com uma vivacidade que se sente desde o primeiro minuto, Jenkins trabalha um imenso arquivo visual e sonoro, que tanto nos atrai na energia musical de Satchmo como põe em conflito as ideias à volta da sua personalidade. Entre fotografias, excertos de filmes, talk shows, entrevistas do próprio e - muito importante - anotações pessoais em estilo de diário, Louis Armstrong"s Black & Blues faz tudo menos seguir os trâmites bem-comportados de uma biografia documental. De resto, nesses apontamentos íntimos, gravados em bobinas ou lidos por outros em voz off, estão os desvios mais deliciosos deste percurso rítmico e desordenado. São vestígios de uma mente atenta ao sistema, pequenas histórias como aquela de um marinheiro branco que lhe apertou a mão para dizer "Sabe, não gosto de negros mas sou louco por si", obtendo como resposta "Admiro a sua maldita sinceridade" - isto num ácido relato escrito de Armstrong com as palavras fortes de quem, percebendo melhor do que ninguém a realidade, soube habitá-la no seu próprio regime de subsistência, sem nunca abdicar de viver como queria e fazer o que amava.

A abordagem vigorosa de Jenkins chega a ser um pouco dispersa, tentando apanhar bocadinhos de uma série de detalhes biográficos da lenda do jazz e ficando-se pela rama no que à música diz respeito. Mas ao longo da montagem há um retrato humano que vai ganhando forma e, no final, emerge por entre a diversidade de pontos de vista. Algo que atravessa as referidas anotações de Armstrong, assim como outros momentos menos vigiados. Um desses momentos reveladores é contado em tom solene pelo ator Ossie Davis, que um dia, apanhando-o desprevenido, diz que vislumbrou na sua expressão a tristeza de gerações e gerações de negros na luta pela sobrevivência. Aquela era a sua.

Louis Armstrong"s Black & Blues não faz figura de tese nem orienta uma visão única sobre a prodigiosa voz de What a Wonderful World. Ao assumir um plano aberto, carregado de contexto histórico, Jenkins convida o espetador a definir o seu próprio perfil de uma das personagens mais vitais da América do século XX. Já a presença abundante de Satchmo nos materiais de arquivo constitui um regalo sem fim.

dnot@dn.pt

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