Pardal Monteiro: A ode triunfal à Arquitetura Moderna

A história da sua vida cruza-se com a do próprio DN, já que Porfírio Pardal Monteiro é o autor do histórico edifício do jornal na Avenida da Liberdade, Prémio Valmor de Arquitetura, em 1940. A obra do arquiteto está a ser recordada numa mostra no MUSA - Museu de Artes de Sintra, até 7 de janeiro.
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A 24 de Abril de 1940, o Diário de Notícias e o arquiteto Pardal Monteiro estavam em festa: inaugurava-se na Avenida da Liberdade aquela que seria, por muitos anos, a casa deste título, construída de raiz para acolher as várias fases de produção de um jornal, da redação à rotativa. Olhamos as fotos a preto e branco da ocasião e vemos o filme todo: há uma fita prestes a ser cortada, à esquerda está uma menina de vestido vaporoso a segurar a bandeja de prata com a tesoura, ao centro o Presidente da República, general Óscar Carmona, o diretor do jornal, Augusto de Castro, e o arquiteto. Segue-os, expectante, uma pequena multidão, quase toda composta por homens que dir-se-ia usarem todos o mesmo fato e chapéu, como num quadro de Magritte.

A Empresa Nacional de Publicidade, então proprietária do DN, sentindo necessidade de expandir as instalações para área mais desafogada do que o Bairro Alto, decerto não olhara a despesas ao contratar os serviços daquele que era já um dos mais conceituados arquitetos portugueses, vencedor à data de quatro Prémios Valmor (1923, 1928, 1929, 1938, a que se somaria o quinto, precisamente com este edifício).

Não olhara a despesas nem hesitara em aprovar um projeto vanguardista e da maior modernidade, que, em declarações ao jornal nesse primeiro dia na nova sede, Pardal Monteiro definiria assim: "Um jornal moderno tem de ser produzido dentro de instalações dum tal rendimento que seja possível atingir este objetivo: fornecer um jornal completo que contenha as notícias de factos passados momentos antes."

O percurso pessoal e a obra deste homem de horizontes amplos está a ser recordado no Museu de Artes de Sintra até 7 de janeiro, na exposição Porfírio Pardal Monteiro - Vida e Obra, comissariada por Ana Tostões e João Pardal Monteiro, descendente do evocado. Ao facto não é estranha a circunstância de Porfírio ser natural do concelho. já que nasceu a 16 de Fevereiro de 1897, em Pero Pinheiro, filho de um empresário de cantaria.

Assumidamente influenciado por um dos principais clientes da empresa familiar, o arquiteto Miguel Ventura Terra (1866-1919), o jovem Porfírio inscreve-se no Curso Geral de Desenho da Escola de Belas-Artes de Lisboa, que começa a frequentar poucos dias após a implantação da República, em 1910.

Ainda a estudar, começa a trabalhar no atelier de Ventura Terra e daí, após a morte precoce do mentor, passará para a repartição das Construções Escolares do Ministério da Instrução. No mesmo ano - 1919 - virá a casar-se com Maria Luísa Vásquez Kopke, com quem terá quatro filhos.

Ainda na "casa" dos 20 anos, Pardal Monteiro assinará dois projetos marcantes: em 1923, o edifício-sede da Caixa Geral de Depósitos, na Avenida dos Aliados, Porto, e a estação ferroviária do Cais do Sodré, em Lisboa, concebida para ser provisória, mas que circunstâncias históricas do país e da cidade acabaram por tornar definitiva.

Neste período entre as duas guerras, a estética modernista, de linhas arrojadas, tomava de assalto a literatura, as artes plásticas, o grafismo de jornais e revistas, a nova fisionomia das cidades. Na prancheta, os arquitetos traçavam como se os animasse o ímpeto da Ode Triunfal, de Álvaro de Campos ("E outra vez a fúria de estar indo ao mesmo tempo dentro de todos os comboios/De todas as partes do mundo,/De estar dizendo adeus de bordo de todos os navios,/Que a estas horas estão levantando ferro ou afastando-se das docas.").

Apesar dos solavancos da Primeira República, Portugal não será exceção a esta ânsia de novidade que domina o Ocidente. No caso da Arquitetura, caberá a homens como Pardal Monteiro, mas também Cottinelli Telmo, Jorge Segurado, Carlos Ramos, Luís Cristino da Silva ou Keil do Amaral protagonizar esse movimento. Como escreve na obra dedicada ao atelier Pardal Monteiro (edição Caleidoscópio, 2013) o arquiteto José Manuel Fernandes: "A sua vasta e importante obra, no quadro do Portugal urbano e arquitetónico da primeira metade do século XX, permite atribuir, no melhor sentido do termo, o valor duplo de um arquiteto-engenheiro - na aceção em que sempre assumiu apurado rigor e sentido técnico nas suas obras, para além de uma característica e segura expressividade gráfica."

A década de 1930, com o Estado Novo ainda a hesitar entre a estética modernista e o impulso paroquial, assinalará também o apogeu da obra de Pardal Monteiro. Em 1930 torna-se correspondente da recém-criada Architecture d"Aujoud"hui, que trará visibilidade internacional à sua obra entre 1934 e 1938 (durante a 2ª Guerra Mundial a revista fica mesmo secretamente sediada no seu atelier). Esta é a época em que projeta o edifício do Instituto Superior Técnico (trabalho desenvolvido entre 1927 e 1935), em Lisboa, a que se seguem o edifício do Instituto Nacional de Estatística (1931-1935), o monumento ao antigo Presidente da República, António José de Almeida (1933-1927), a Igreja de Nossa Senhora de Fátima (1938) e, finalmente o edifício do DN, na Avenida da Liberdade.

Pardal Monteiro não estava sozinho neste afã de modernizar a cidade, que ainda há pouco acabava na Rotunda do Marquês, a partir da qual se espraiava um mar de hortas e retiros afadistados onde a pequena burguesia urbana corria a refrescar-se no Verão. Cottinelli Telmo assina o projeto da Estação Sul-Sueste, Jorge Segurado desenha a Casa da Moeda e o Liceu Filipa de Lencastre, e Carlos Ramos o Pavilhão do Rádio do Instituto Português de Oncologia.

A todos eles, mas sobretudo a Pardal Monteiro, move um espírito cosmopolita de que os políticos, como veremos, não partilhavam. Em 1932, quando a ditadura ainda está a produzir os instrumentos institucionais e jurídicos que a sustentarão até ao 25 de Abril (1933 será o ano da nova Constituição e do Ato Colonial), Pardal Monteiro parte numa viagem de estudo à União Soviética. Esse cosmopolitismo, essa ânsia de conhecer o que de mais vanguardista se fazia na sua área, por esse mundo fora, é uma das suas maiores inspirações.

Mas se o arquiteto tinha sede de mundo, o poder nem tanto. No princípio da década de 1930, quando começa a projetar a Igreja de Nossa Senhora de Fátima, em Lisboa, Pardal Monteiro conhecerá a oposição (e até os insultos) de alguns setores esteticamente mais conservadores. Na revista Arquitetura Portuguesa, Tomás Ribeiro Colaço escreverá: "A Igreja nova é muito feia. Está longe de uma realidade portuguesa e um sentido anti-português que ali parece colher-nos."

Em defesa do trabalho do arquiteto viria, no entanto, o Cardeal Cerejeira, patriarca de Lisboa, que comentará "Quanto a ser moderna, não compreendemos que pudesse ser outra coisa. Todas as formas artísticas do passado foram modernas em relação ao seu tempo." Para este projeto, o arquiteto solicita a colaboração de um grupo de nove artistas plásticos, entre os quais Almada Negreiros, com quem voltará a trabalhar no edifício do DN e nas gares marítimas de Lisboa.

Mas se, neste caso particular, conta com o apoio da alta hierarquia da Igreja portuguesa, uma zanga com o todo-poderoso ministro das Obras Públicas de Salazar, Duarte Pacheco, há de causar-lhe não poucos dissabores. Os dois conheciam-se desde a época da construção do IST (de que o futuro ministro foi diretor) e ter-se-ão mantido em boas relações até ao final da década de 1930, a ponto de terem feito juntos várias viagens de estudo, nomeadamente a Itália e à Argélia, em 1937.

Na origem do desagrado do ministro, fatal num país pobre em que as grandes encomendas aos ateliers tinham quase sempre o selo estatal, poderá ter estado a relutância do arquiteto em aderir ao estilo Português Suave, conforme à política do espírito concebida pelo Secretariado Nacional de Propaganda, dirigido por António Ferro. Mas há também quem fale de uma antipatia pessoal nascida de um episódio em que os espíritos fortes de arquiteto e ministro terão chocado de frente.

Tudo terá acontecido na preparação dos trabalhos das comemorações do duplo centenário de 1940 (fundação da nacionalidade e restauração da independência) em Vila Viçosa. Irritado com o hábito de riscar e emendar os projetos dos arquitetos mantidos por Duarte Pacheco, Pardal Monteiro terá entregue as suas propostas para a vila alentejana já encaixilhadas e protegidas por vidro. O caso parece ter caído tão mal que o episódio seguinte desta "novela" será um ostracismo que durará até ao final da vida do ministro, três anos depois num acidente de viação.

Sem contratos públicos e afastado da Comissão dos Centenários, o arquiteto conhece sérias dificuldades financeiras para manter o seu atelier. Começa por confessar a sua situação a um colega e amigo, Cottinelli Telmo, numa carta em que diz: "Conheces como poucos o meu drama e as causas das minhas atitudes e os desgostos que me levaram a afastar-me pouco a pouco." Mas em desespero de causa, apelará mesmo à boa vontade de Salazar: "(...) Condenado ao suicídio profissional, apelo a Vossa Excelência como última esperança de salvação (...). Encontro-me atualmente na situação de ter que fechar o meu atelier, que foi durante muitos anos o mais completo de Portugal e dos mais completos da Europa (...)."

Não consta que Sua Excelência se tenha dignado responder e o desfavor oficial incentivaram outros, como o engenheiro Cid Perestrelo, a desrespeitar o arquiteto, quando reduziu, em obra, as dimensões das gares marítimas de Alcântara e Rocha Conde de Óbidos, sem pedir aval ou opinião ao seu autor.

Mantendo-se graças a projetos privados (prédios de arrendamento e moradias) e às aulas como professor de Arquitetura no Instituto Superior Técnico, Pardal Monteiro voltará a conhecer um período de ouro na década de 1950, quando assina grandes obras públicas e privadas como o Laboratório Nacional de Engenharia Civil, Hotéis Tivoli, Mundial e Ritz, em Lisboa, a Cidade Universitária e a Biblioteca Nacional, que iniciará, mas não concluirá já que sofrerá dois acidentes cardiovasculares que o deixarão incapacitado para trabalhar. O desespero causado por tal situação levá-lo-á ao suicídio, a 16 de Janeiro de 1957. No necessário obituário da manhã seguinte o DN salientava o cosmopolitismo de um homem para quem o conhecimento nunca teve fronteiras.

dnot@dn.pt

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