A festa está brava

A tutela reconheceu há semanas o interesse cultural da tauromaquia, a par das artes, e deu-lhe assento no Conselho Nacional de Cultura. Ao arrepio da crise, as praças voltaram a estar cheias, as receitas aumentaram e os públicos rejuvenescem. O segredo do renascimento da afición poderá estar na observação de um aficionado-entrevistado. «É o único espectáculo a mobilizar tanto as emoções como o futebol.»
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Celeste Barros nunca tinha ido à tourada até há um par de anos. «No meu vocabulário, pegas, lides e corridas eram mais coisas de cozinha», conta. A afición nasceu num artigo de revista, quando viu uma produção fotográfica em Las Ventas (a praça de Madrid) com um toureiro vestido de Armani. «Parecia um totem», diz. «Nunca tinha reparado no espanto daquelas roupas e na estética. Achei que devia haver muito mais para ver para além de homens bem apessoados.» E se o marido, ferrenho de futebol (mas desgarrado dos toiros), a desafia para uma saída, o mais certo é Celeste rabeá-lo. «Mais depressa vou a uma praça do que a um estádio. A praça é mais intensa.»

Dizem que a tourada está na moda, mas o mais certo é nunca ter saído de moda. Para o estilista Dino Alves «a importância dos trajes e dos cortes nunca foi subestimada. É das imagens de marca com mais relevo na história do traje português. Um fato é quase alta- costura». Dino nunca criou um fato para toureio, mas «acharia a experiência desafiante». Filipe Faísca é, de resto, o único estilista português criador assíduo de fatos tauromáquicos, sendo dele parte do guarda-roupa da toureira Isabel Ramos.

Das terras taurinas de Arraiolos chega-nos Carlos Leitão, 30 anos, fadista, um aficionado que chama os bois pelos nomes. «Amo os touros de uma forma inexplicável como é todo o grande amor, mas odeio o pedantismo que está ligado às touradas, aquela coisa da corrida da Caras que é um pouco a sina das praças portuguesas onde se vai porque é bem. Mal comparado, é como quem vai aos fados porque está na moda. Não acho que tenha de se ser de boas famílias ou de famílias tauromáquicas para ter assento nas corridas», diz, para princípio de conversa.
O preço dos bilhetes é outra das suas embirrações, mas esta resolveu-a a partir do momento em que baixaram as entradas nas praças para valores mais próximos do comum dos mortais.

Na Monumental Celestino Graça, em Santarém, a tabela começa agora nos cinco euros, podendo ir até aos cinquenta euros. No Campo Pequeno, praça considerada o «barómetro» da tauromaquia em Portugal,  os preços oscilam entre 22,50 euros e 75 euros. «É uma bela notícia saber que já posso ir às praças e não ter de hipotecar o décimo terceiro mês», ironiza.

Aos 15 anos, o padrinho levou-o ao Campo Pequeno, e «fez-se logo luz, não graças à obra e graça de um espírito santo mas de António Domec, o maior cavaleiro de todos os tempos». Leitão não chegou ao fado pelos touros, e do que menos gosta na sua ligação sentimental é das bravatas do fado marialva que faz deuses dos toureiros e da forcadagem. «Quando se ficam pelo espírito de camaradagem a coisa é mais saudável.

O pior é quando se armam em herdeiros de Nuno Salvação Barreto (um forcado mítico, que chegou a ser duplo numa pega em Hollywood para o filme Quo Vadis; foi marido da fadista Teresa Tarouca e ficou conhecido pelos seus arraiais de pancadaria).» Das touradas, o que mais gosta é da poesia do movimento. «O toureio a pé, à espanhola, é coisa de poetas», diz. Lamenta apenas que para culminar «o épico» o touro não seja morto na arena. «Se morre na mesma quando volta aos curros, porque não o hão-de matar na arena, onde a morte é nobre?», pergunta o fadista.

Joaquim Nunes, ribatejano, 57 anos, aficionado desde «os cueiros» fala sem gaguejar da sua paixão pelos touros. «O famoso “Olé!” foi roubado da tourada para os estádios de futebol. Logo por aí se vê a importância do toureio na cultura de massas. A seguir à bola, continua a não haver espectáculo mais raçudo. E a bola só é mais vista, e falo só ao vivo, porque movimenta mais dinheiro. Na cultura lusitana, o toureio tem a maior tradição», diz, de bochechas ruborescidas, em defesa da sua afición. Estamos na ala norte da Monumental Celestino Graça, uma das praças de touros mais aclamadas do país, na tarde do regresso da temporada, em finais de Março.

As bancadas de Santarém fervilham de entusiastas da festa brava. Casa cheia (sete mil, números redondos), em muitos casos famílias inteiras de devotos da corrida à portuguesa. Ana Isabel, 27 anos, filha de Joaquim Nunes, segue atenta a conversa, e entra de bandarilhas ao alto, taurina, quando se fala do renascimento da tourada. «A tourada é sempre tão ou mais emocionante que um jogo de futebol. Do toureiro ao forcado rabejador, todos se entregam ao momento como se fosse o último dia das suas vidas.» Nem um jogo entre o Sporting e o Benfica (para ela, de preferência com os leões vencedores) levará a melhor sobre uma tourada.

Ainda não saiu um único touro «terrorífico» (como os anunciam os panfletos desta corrida) dos curros e já a electricidade percorre a arena, domina as conversas de bancada, polvilha os ares da lezíria. Longos minutos antes de o corneteiro dar fogo às hostilidades já o nervo do Minotauro se propaga com lastro nas hostes escalabitanas. Entre um estádio ao rubro e uma praça tomada pelo êxtase, a diferença naquela hora é apenas numérica, mas nem isso se nota. «Os espectadores aqui presentes fazem tanto eco como três anéis lotados do Estádio da Luz», inflama-se Joaquim.


Os protagonistas da tarde – João Telles Jr., Duarte Pinto e Francisco Palha – são apresentados e logo surge o comentário entre a família Duarte de como andará o toureio do mais jovem cavaleiro da comitiva, o herdeiro da tradição dos Palha, de quem se dizem e esperam maravilhas. Desde que se mudou para a herdade do sevilhano Diego Ventura – um dos mais exortados cavaleiros da actualidade, que culmina as lides com uma mordidela do cavalo no touro – diz-se que o tímido Palha ganhou outro cabedal. Joaquim está esperançado. «Consta que está mais arrebitado», afiança Joaquim. A tourada espanhola é naturalmente mais efusiva não só pelos touros de morte, mas também porque os espanhóis têm «mais goelas», como diz o ribatejano.

Anunciava-se para a tarde na Monumental Celestino Graça um imponente curro de seis touros «cinquenho», com ferro e divisa do espanhol Guardiola Dominguez, que tinham dado na báscula uma média de 568 quilos. O patriarca Joaquim está apreensivo com os touros Guardiola, embora diga que «um só touro de porte e personalidade faz a festa brava». Neste dia será o quinto bicho a salvar a corrida da mediania, ou como dizem os aficionados, «não há quinto touro mau». No rescaldo, a crítica amaciava as lides apáticas. A emoção da tarde coube aos forcados, em particular ao cabo Diogo Sepúlveda, cabeça dos Amadores de Santarém, cuja pega exímia ao primeiro intento fez o delírio das bancadas. Ou talvez, e para voltar às comparações futebolísticas, como se no lugar do embate decisivo nos cornos do touro estivéssemos diante do apontamento de um goleador fecundo.

UM ASSUNTO DO CORAÇÃO

À parte as críticas a uma tarde morna, sobre o renascimento da tourada em Portugal, nos últimos anos, poucas dúvidas persistem. De resto, os números mais recentes do INE (período entre 2005 e 2007) são elucidativos do crescimento da actividade: um crescimento da ordem dos 181 por cento, que representa um volume de negócios de cinco milhões de euros. Dados da Associação Portuguesa de Criadores de Touros de Lide (APCTL) referem que em 2009 se realizaram 331 espectáculos que levaram às praças 757 mil espectadores, número que é o mais elevado dos últimos anos. Praças cheias que muito agradam a Francisco Palha, o jovem cavaleiro de Pancas que, apesar dos muitos louvores que vai colhendo, se diz ainda próximo da «sensação de quem começa».

No Coliseo de Atarfe, em Granada, onde foi o grande vencedor da Final do Certame de Rejoneio, maravilhou-se com a lotação esgotada do tamanho de um estádio: «É como marcar um golo decisivo.» E os convites sucedem-se – este ano estão previstas já vinte corridas.

Francisco Palha tem inscrita no nome a tradição. Já leva metade dos seus 23 anos nas praças, recebeu uma memorável alternativa das mãos dos ilustres António Telles e Diego Ventura, na Monumental Amadeu Augusto dos Santos, no Montijo, a 31 de Julho de 2009. «Tourear foi uma paixão que nasceu logo comigo», conta. Nascido em Vila Franca de Xira, apresentou-se aos 12 anos, na praça da cidade, e logo deu nas vistas pela sua montada impetuosa e pose alegre, a lembrar João Branco Núncio, também conhecido por «Califa de Alcácer».

Apesar das muitas corridas em Portugal, Palha treina-se com Diego Ventura, o efusivo toureiro espanhol. «Para chegar longe é preciso treinar como o Cristiano Ronaldo. Somos como os atletas de alta competição», diz. Os treinos e as corridas no defeso, em Espanha, tinham-lhe dado já uma ideia das diferenças entre cá e lá. «Em Espanha vive-se tudo mais intensamente, ou pelo menos de uma maneira que eu ainda não conhecia. Toureia-se todos os dias, dentro e fora das praças, e tudo conta. O touro, o cavalo, o tourear, a limpeza do cavalo.» Sobre o rejuvenescimento da tourada portuguesa, Palha volta a buscar paralelo no futebol. «Deve ir-se aos touros da mesma maneira que se vai ao futebol, ou seja, para passar um bom bocado, e ver ferros bem cravados como quem marca grandes golos.»

A IDEOLOGIA DO AFICIONADO
O rejuvenescimento da tourada portuguesa tem paralelo nos seus intérpretes, como mostra o colectivo dos Forcados Amadores de Santarém. «A média de idades anda pelos 25, 30 anos», diz o cabo Sepúlveda, 27, a força motriz do grupo. «A mim o que me trouxe aos touros e me emociona é a arte, a coragem, o cruzamento da força e da inteligência.» A corpulência leva-nos a pensar que podia ter ido para o râguebi ou para a pesca do bacalhau, mas é nas arenas que sente com toda a intensidade a palavra afición», que é o seu mote de vida. «Afición é como uma ideologia. Tem tanto de pensado como de inexplicável. Sei que corro riscos sérios, mas a intensidade do corpo a corpo com o touro nenhuma outra arte me dá.»

Agostinho Borges, o director da corrida de Santarém, é um aficionado que partilha do sentimento optimista de que a tourada em Portugal «está com saúde de ferro e as temporadas que aí vêm são dos jovens da companhia». Sobre a recente polémica espanhola onde um movimento antitourada conquistou um inédito voto favorável no Parlamento da Catalunha [ver texto nas páginas seguintes], Borges é peremptório: «Quem a dirige não é sequer um espanhol (refere-se às origens argentinas do arauto da polémica), por isso o interesse é nulo.»

Ao lado de Agostinho Borges está o ganadeiro de Sevilha Jaime Guardiola, um dos criadores de touros mais prestigiados de Espanha, que veio a Santarém ver como se portam os seus seis bravos animales. Para Guardiola, o assunto «é fanfarra política e extremismo catalão oriundo de uma minoria». O mais importante, por ora, é livrar os ganadeiros do agoiro e dar trabalho aos touros, diz o ganadeiro.

No ano de 2009, ficaram por lidar em Espanha quase quatro mil touros, o que explica, em parte, a exportação de touros para as praças portuguesas. A outra parte deve-se ao Inverno rigoroso. Porém, Guardiola duvida que a salvação da criação de touros esteja em Portugal, onde, mesmo com a concorrência espanhola, as sobras das 95 ganadarias nacionais (contra 1355 espanholas; segundo números de 2008) continuam a ser residuais. O efeito mais imediato da importação de touros espanhóis é a descida dos «preços de aluguer» ([os animais são alugados para as corridas] dos toiros lusitanos, cujo valor médio oscila entre 750 e 2500 euros; em Espanha os preços são mais baixos.

«O futuro da festa não está ameaçado por importarmos touros. Sempre se importaram», resume Agostinho Borges. João Pedro Bolota, da empresa Aplaudir, que organizou o espectáculo da abertura da temporada, vai mais longe na defesa das corridas. «A festa brava tem o futuro garantido em todo o mundo onde já se pratica e tem conquistado novos mercados com grande adesão de público.» Mais: «Há diversos países que nos têm questionado sobre a possibilidade de organizar corridas de touros, como por exemplo a Tunísia ou o Dubai.»

Bolota recorda que já se deram corridas à portuguesa em Macau, na Indonésia e no Canada. E onde já as há habitualmente – Portugal, Espanha, França, Equador, México, Venezuela, Colômbia, Estados Unidos –, a festa está bem e recomenda-se. De resto, acrescenta o empresário, nem só onde há corridas há aficionados. Há tertúlias tauromáquicas em Inglaterra, na Suécia, Noruega, Dinamarca e Holanda, «países desenvolvidos», diz, com ironia. «Dizer que o espectáculo de touros é bárbaro e de assassinos é um atentado à inteligência», atira, e lembra entusiastas da festa brava como Amália, Hemingway, Picasso, Dali ou Raul Solnado, um elenco de ilustres a que se podia juntar o ex-presidente da República Mário Soares, estadista que tinha por hábito oferecer aos correligionários da Internacional Socialista, como Willy Brandt ou Olof Palme, idas épicas às touradas.

Por tudo isto, Bolota encara o futuro da tourada com optimismo, embora o número crescente de espectáculos e espectadores, nos últimos três anos [referentes apenas à corrida à portuguesa], não se tenha traduzido em grandes vantagens financeiras. «Mas compensa pois as praças estão cheias. No nosso caso, a redução do preço dos bilhetes leva a que haja mais gente a ir aos touros, de todos os quadrantes e todas as faixas etárias. Logicamente que se há redução de preços isso implica um menor lucro, mas para mim o importante é ter praças cheias.»

O arranque da temporada na praça de Santarém só com touros espanhóis, mais do que uma rasteira à crise e aos preços concorrenciais, tratou-se de uma forma de contornar os problemas do nosso invulgar Inverno. «Não havia em Portugal touros com peso e apresentação para as corridas de abertura da temporada», explica Bolota. Quanto a outras medidas em curso – como a redução do preço de aluguer dos touros, redução dos preços de bilheteira ou dos honorários dos cavaleiros –, o empresário subscreve a sua importância mas afirma que o preço dos touros não deve ser reduzido porque os ganadeiros são os mais necessitados na nossa festa. «Cá, os apoios são escassos, ao contrário de Espanha, onde são subsidiados pelo Estado.»

Bolota alerta ainda que qualquer toureiro prefere tourear em praça cheia. «Se isso implicar uma redução de cachets durante os anos de crise, acho que toca a todos, e todos devemos contribuir para defender a nossa cultura e as nossas tradições. O público é que nunca pode sair prejudicado.» Os pedidos de apoio sucedem-se. «Dão-se subsídios para filmes que ninguém vê, para livros que ninguém lê, para CD que ninguém ouve, mas para corridas de touros ainda é tabu, salvo as honrosas excepções de algumas câmaras municipais do nosso país. O Estado tem votado ao esquecimento a festa brava.»

Para este ano, e ao arrepio da crise, só a Aplaudir tem programadas cerca de trinta corridas, um número que a coloca no pelotão da frente das empresas do sector tauromáquico. A estratégia para atrair novos públicos passará por manter preços acessíveis a todos. «Cada vez se vêem caras mais jovens nas bancadas. Se for ver as redes sociais, o Facebook e Hi5, todas elas têm jovens ligados aos touros. Cada vez mais ir a uma corrida é um estado de espírito, uma maneira de estar na vida», realça o empresário.

Uma questão de cultura
Desde os anos oitenta que a tauromaquia (juntamente com as artes e os espectáculos) é uma das áreas de competência do Ministério da Cultura (MC), mas só recentemente passou a fazer parte do Conselho Nacional de Cultura. A ministra Gabriela Canavilhas, a quem se deve a reabilitação da actividade, comunicou na altura que «não tem uma posição pessoal sobre a tauromaquia», e que esta medida se deveu apenas a «efeitos de organização ministerial», embora haja vozes da tauromaquia que a dizem aficionada. Recorde-se que Gabriela Canavilhas participou, enquanto directora-geral da Cultura dos Açores, no Fórum Mundial da Cultura Taurina, que decorreu na ilha Terceira em 2009.

A nova secção do MC é presidida pelo inspector-geral das Actividades Culturais e junta representantes do Estado (Direcção-Geral das Artes, da Saúde e de Veterinária), bem como figuras escolhidas por associações do sector, de entre toureiros, forcados, criadores de touros de lide, directores de corrida, veterinários com actividade taurina e empresários tauromáquicos. Na altura do anúncio, Rui Bento Vasques, gestor da principal praça portuguesa (Campo Pequeno), congratulou a ministra por uma medida pelo «golpe no momento mais oportuno» contra os opositores das touradas. Nas bancadas da oposição, o então deputado Paulo Rangel (PSD) fez eco da sua opinião e irmanou-se com a posição da ministra.

«A caça ou as touradas, enquanto tradições com determinadas características e determinados limites, são toleráveis. Fazem parte da cultura», disse Rangel em entrevista ao semanário Sol. Reconheceu ainda que «as touradas são uma crueldade, mas têm limites. Há espécies de touros que não existiriam se não houvesse touradas». Ou como nos dizia o empresário José Pedro Bolota, «pode haver quem não goste mas têm de respeitar quem gosta. Vivemos em democracia e não nos podem impor a vontade de outros. Mesmo que sejamos uma minoria, temos direito a sermos diferentes».

Ou como escreveu o filósofo José Ortega y Gasset no seu ensaio Sobre a Caça e os Touros, a justificar a aproximação de classes. «Uma das causas da Revolução Francesa foi a irritação dos camponeses porque não se lhes permitia caçar, e por isso um dos primeiros privilégios que os nobres se viram obrigados a abandonar foi este. Em todas as revoluções, a primeira coisa que fez sempre o povo foi saltar as cercas das coutadas ou demoli-las e, em nome da justiça social, perseguir a lebre e a perdiz.»

«A tourada nunca saiu de moda»

Rui Bento Vasques, director tauromáquico da Praça de Touros do Campo Pequeno.

Diz-se que a tourada voltou a estar na moda. É assim?
A tourada é um espectáculo tão antigo como a própria nacionalidade portuguesa. Há referências segundo as quais D. Sancho I, o segundo rei de Portugal, alanceava touros a cavalo. Estamos a falar do final do século XII, princípio do século XIII. Por esses tempos, o espectáculo de touros era uma forma de adestramento da nobreza para a guerra. Como facilmente se compreende, nesses tempos não seria um espectáculo de arte como aquele que temos a possibilidade de presenciar nos nossos dias. Evoluiu, atravessou os tempos, teve altos e baixos mas, mais do que sobreviver, revitalizou-se, modificou-se até ser a forma de arte que hoje é. Isto para dizer que nunca saiu verdadeiramente de moda. Teve, como tudo, períodos mais ou menos áureos, crises de crescimento e períodos de afirmação, como aquele que vivemos hoje em dia e que tem uma tradução muito especial e visível em Lisboa, desde a reinauguração da Praça de Touros do Campo Pequeno, em 2006.

No caso particular de quem frequenta a Praça do Campo Pequeno, podemos falar num rejuvenescimento de públicos, no surgimento de novos aficionados e novas aficionadas? 
Sem dúvida. A reabertura do Campo Pequeno trouxe à festa um público novo, jovem, entusiasta, talvez ainda não de todo entendido, segundo o paradigma do aficionado tradicional, mas um público que vibra com o que vê na arena e que, mais tarde ou mais cedo, acabará por se tornar um público conhecedor e tão exigente ou mais que os velhos aficionados.

Diz-se que a Praça do Campo Pequeno é o barómetro da tourada em Portugal. As vossas contas ditam um crescimento de espectáculos e espectadores. Como se explica esta rasteira à crise?
Eu costumo dizer que a sorte tem-se… mas custa muito trabalho até se ter essa sorte. Rasteira-se a crise com trabalho e seriedade. Com imaginação, com qualidade, trazendo ao Campo Pequeno os melhores artistas e as melhores ganadarias, propondo ao público cartéis que sejam ao mesmo tempo um misto de maturidade e juventude, dando oportunidade a que a festa se rejuvenesça. A renovação constante é a principal razão por que este espectáculo tem raízes milenares.

Quantos espectáculos estão previstos para esta temporada e, já agora, qual será o ponto alto?
A temporada de 2010 constará de 14 corridas de touros e uma novilhada de promoção de novos valores (dia 12 de Agosto). Penso que são os cartéis mais rematados desde a reinauguração do Campo Pequeno, para utilizar a expressão taurina que utilizamos quando queremos dizer que achamos os cartéis bem compostos, bem equilibrados, isto é, nivelados por cima. Por isso, posso afirmar que temos uma temporada de alto nível, com variadíssimos motivos de interesse.

Logo na corrida de inauguração da temporada, dia 8 de Abril, despede-se o emblemático cabo do Grupo de Forcados Amadores de Lisboa, José Luís Gomes. Actuam os cavaleiros António Ribeiro Telles, o mais clássico dos cavaleiros portugueses, o triunfador da temporada de 2009, no Campo Pequeno, João Salgueiro e Leonardo Hernández, o mais destacado dos jovens rojoneadores espanhóis. Dá-se a particularidade de Hernández e Salgueiro terem sido os únicos cavaleiros a sair em ombros do Campo Pequeno, na temporada passada. Será lidado um imponente curro de touros da Herdade de Pégoras. A 6 de Maio, tomará alternativa Tiago Carreiras, o cavaleiro praticante triunfador da temporada passada que será apadrinhado por Joaquim Bastinhas, e com a presença da maior figura do toureio a cavalo da actualidade, o rojoneador espanhol Pablo Hermoso de Mendoza.

A 20 de Maio, actua em Lisboa o matador espanhol Miguel Ángel Perera, vencedor do Galardão Campo Pequeno 2009 para a melhor faena, que alternará com o português Luís Vital «Procuna». No dia 2 de Julho, o cavaleiro Paulo Caetano virá ao Campo Pequeno comemorar trinta anos de alternativa. A 17 apresenta-se o mediático matador espanhol Rivera Ordoñez, que alternará com o seu compatriota António Ferrera, um toureiro completo nos três tércios e um autêntico furacão com as bandarilhas. A 1 de Julho estreia-se em Lisboa e confirmará a alternativa outra das grandes figuras do momento do toureio a cavalo, o rojoneador luso-espanhol Diego Ventura e apresenta-se o consagrado Rui Salvador.

Para 15 de Julho está anunciado um cartel-surpresa que constituirá um dos marcos mais significativos da temporada e a 22 voltará ao Campo Pequeno a Ganadaria Murteira Grave, depois do triunfo alcançado a 4 de Junho de 2099 nesta praça onde os seis toiros foram pegados, numa noite absolutamente gloriosa, pelo Grupo de Forcados Amadores de Montemor, que nesta noite figurarão no cartaz como único grupo para pegar seis touros. Digamos que estes são os cartéis da primeira metade da temporada, na qual estão presentes os nomes consagrados do toureio a cavalo de Portugal, bem como as jovens promessas. Os principais grupos de forcados e as principais ganadarias pisarão também a arena de Lisboa.

Manteremos o nível na segunda parte da temporada, nos dias 5, 12, 19 e 26 de Agosto, 2 e 30 de Setembro, em que incluíremos nos cartéis os artistas e ganadarias que melhor conta venham dando ao longo da temporada. Encerraremos, como é já tradicional, com uma corrida de gala à antiga portuguesa, que será outro momento alto da temporada do Campo Pequeno.

A tourada luso-californiana

«As touradas à portuguesa são tão cruéis ou piores do que o estilo clássico praticado em Espanha. O touro sobrevive à arena mas é morto logo depois do evento ou no dia seguinte, por um açougueiro profissional. Ou seja, ele tem de esperar durante horas com os inúmeros ferimentos que sofreu até receber o golpe de misericórdia», afirma Manél Gallemi, activista e director da plataforma antitaurina catalã Prou! (Basta!).

Os defensores das touradas acreditam que, sem a possibilidade de morte do toureiro e sem a certeza de morte do touro, o espectáculo não teria sentido para o público. Segundo explica o filósofo Francis Wolff no livro 50 Razões para Defender as Touradas, esses elementos são necessários para manter o «valor cultural» do evento. A recente variação da tourada portuguesa, baptizada de «luso-californiana» – em que são conservados o estilo e as regras da corrida portuguesa, mas sem que ocorra derramamento de sangue –, não cativou ainda adeptos em Portugal. Nesta variante, o touro é protegido por um colete de velcro.

As bandarilhas, por sua vez, não possuem pontas de metal, e ficam coladas no colete quando são lançadas. A ideia foi apresentada por imigrantes portugueses residentes na Califórnia impedidos de repetir as experiências ibéricas devido às leis de protecção animal americanas.

«A tauromaquia é atacada pelos excessos mediáticos»

José Santos Andrade, presidente da Associação Portuguesa de Criadores de Touros de Lide (APCTL)

Mantém as suas palavras de há meses sobre o futuro da tourada em Portugal: «Nem optimismo, nem pessimismo: expectativa»?
Continuo a acreditar que o espectáculo tauromáquico é bem aceite pela maioria do povo português e por isso não vejo razão para estar preocupado com este aspecto. O público tem variado ao longo dos anos, mas quando aparecem novos toureiros capazes de dinamizar os aficionados, as praças voltam a encher.

O número de touros lidados em 2009 também andou perto da totalidade da produção nacional. Poderá verificar-se aqui um recuo destes valores uma vez que os preços da produção espanhola são mais aliciantes?
Toda a informação de que dispomos nos diz que em Espanha os ganaderos têm reduzido as manadas e estima-se que este ano haja menos quarenta por cento de animais a lidar. Por este motivo, se o número de espectáculos não for reduzido, os animais que sobraram em 2009 irão colmatar as faltas e serem gastos em 2010. No entanto, em 2009 a diferença continuou a ser a nosso favor. Durante o ano passado foram exportados 192 touros para espectáculos formais e 150 para espectáculos menores. Entraram durante essa temporada, vindos de Espanha, 110 touros.

O começo da temporada na praça de Santarém só com touros espanhóis é apenas coincidência ou é já uma medida para responder à crise?
Estamos a contar com a vinda de touros espanhóis e esperamos que não venham mais do que o necessário. Os touros com qualidade são bem- vindos, no entanto o que se tem verificado, salvo raríssimas excepções, é que os empresários andam à procura do mais barato sem as mínimas condições de lide e portanto dando espectáculos miseráveis. O público sabe distinguir o trigo do joio e seguramente que só é enganado uma vez.

Porque é a tauromaquia tão atacada quando o touro é o bovino que mais e melhor vive?
Desde que existem espectáculos tauromáquicos que há apoiantes e detractores. Já no século XVIII se questionava a realização de espectáculos. Os argumentos dos antitaurinos dessa época eram diferentes, privilegiavam a integridade do ser humano e do cavalo em detrimento do touro. Os ataques que a tauromaquia sofre resultam do excesso mediático. Não se compreende o ataque que é feito, pois a criação do touro de lide revaloriza os recursos do pastoreio em virtude da sua maior rusticidade e o seu maneio, necessitando de amplas terras de pastagem, favorece o desenvolvimento de plantas silvestres. A Ganadaria Brava faz um aproveitamento racional dos recursos, mantendo o ecossistema, e contribui para o equilíbrio do meio ambiente, protegendo os campos, pois limita o acesso do animal mais depredador que existe, que é o ser humano.

O último matador

Jairo Miguel Sanchez, o mais jovem toureiro que os espanhóis conheceram, regressou ao seu pais após um exílio no México  para fazer história na praça. Mas, por estes dias, a arte de tourear está a ser posta em causa. A Catalunha vai votar uma lei que proíbe as touradas na região. Os activistas anunciam o princípio do fim das touradas em Espanha.

TEXTO: HUGO COELHO

Da primeira vez que matou um bezerro na plaza, Jairo Miguel Sanchez tinha nove anos e ia abençoado pelo seu pai e encomendado a don Manuel, o Santo dos Ciganos. Foi a 7 de Outubro de 2002, uma segunda-feira, em Alcuescas, como se lê no cartaz da corrida de touros que está pendurado à entrada da casa do matador mais jovem que a Espanha alguma vez conheceu.

Não foi aquela a sua estreia, no entanto. Para ser mais preciso, o primeiro bovino que Jairo Miguel matou não foi um bezerro, foi uma vaca, e o espaço não era o de uma praça pública, mas a arena lamacenta e de paredes vermelhas, na parte de trás do rancho toureiro da família, os Sanchez de Cáceres, durante uma festa de comunhão, no ano de 2001.

Desafiaram-no para tourear com o capote, mas ele achou que tinha de matar com a espada, como faziam os toureiros mais crescidos. Como saiu tudo muito bem e porque todos lhe bateram palmas, continuou assim até ao fim e cortou as duas orelhas e a cauda ao cadáver da vaca, como faziam os toureiros grandes e aplaudidos.

Quando a festa acabou, sentou-se à frente da mãe na mesa redonda da sala de jantar que ainda hoje está no mesmo lugar e disse-lhe o que já tinha falado com o pai: «Quero ser matador.»
Tudo isto não altera em nada o título que lhe dão em Espanha e que está escrito no fundo de um retrato em azulejo que está pendurado no quarto: «O mais jovem matador de sempre.»

O quadro tem pouco tempo, mas o título é que pesa mais do que nunca. A culpa não é de Jairo Miguel nem dos touros, mas dos cidadãos da Catalunha que puseram os deputados do parlamento regional a discutir uma lei que tem como objectivo proibir as touradas nas plazas da região autónoma, na outra ponta do país. O desfecho da votação, que deve acontecer entre Maio e Junho, ainda é incerto, mas os activistas pelos direitos dos animais prometem fazer deste o princípio do fim da tortura dos touros em toda a Espanha.

Jairo Miguel, 17 anos, filho de toureiro, com mais de oitenta touros mortos, não acredita nisso: «Não seriam capazes de proibir os touros porque eles são uma marca deste país.» E remata: «Sou matador, mas não serei o último.»
 
Que não será o último é difícil de contradizer. Mas um matador fora de tempo, talvez seja. Jairo Miguel, o próprio, tem os argumentos para se convencer disso. «Nos anos setenta [quando o seu pai, António Sanchez Cáceres, se fez toureiro], estava todo o mundo pobre e o único interesse social eram os touros. Mas agora já todas as pessoas têm mais dinheiro e outras coisas para fazer. E o touro vai perdendo importância.»

A importância que o touro perde mede-se em desinteresse e indignação. A época de ouro dos matadores foram os anos dez do século passado, com a rivalidade entre Juan Belmonte e Joselito, El Gallo. Mais tarde com o franquismo, dos anos trinta aos anos setenta, a ditadura nacionalista encarregou-se de alimentar a fiesta para seu benefício. Mas a consolidação da democracia cortou com esse passado. Hoje, a maioria dos espanhóis desinteressou-se da faena (ver texto ao lado) e há até um número crescente de pessoas que considera as touradas uma barbárie e uma forma de tortura e querem-na proibir.

A moda antitaurina até contagiou a família real. A rainha Sofia não esconde que não gosta muito de touradas. O rei Juan Carlos é um tímido adepto da tradição. E aficionada só se pode chamar à princesa Elena. Se a Catalunha aprovar a proibição junta-se às Canárias, que fizeram o mesmo em 1991. A Galiza pode ser a comunidade seguinte. Mas é difícil de imaginar ver os touros proibidos na Andaluzia ou na Extremadura, ou em cidades como Madrid ou Sevilha.

Em Cáceres, diz-se que todos são pelos touros e poucos são os que não conhecem ou não ouviram falar de Jairo Miguel. Cármen Frias e Cristina Liberal, sentadas numa mesa ao canto do Manómetro, o café do número 6 da Avenida de Espanha, onde o toureiro é visita habitual, são a prova viva disso mesmo.
As duas espanholas, a entrar nos 20 anos, conhecem Jairo à distância, a comer batatas fritas de pacote. Levantam-se e, sem vergonha, pedem-lhe para posar para uma fotografia com o telemóvel. Cristina, que conheceu Jairo Miguel quando ele foi à plaza do seu pueblo, Aliseda, e ainda era mais pequeno do que o boi, conta que o jovem matador, sem ser um craque da bola, já se tornou numa espécie de estrela da cidade. Mas nem essa fama o salvou de um atribulado exílio no México.
 
Nas Américas, os aficionados das touradas aplaudem o touro que investe destemido e condenado a morrer na praça com as bandarilhas e uma espada espetada nas costas. Em Espanha, o herói da fiesta é o matador. Esta diferença explica porque os mexicanos são melhores com o capote – o lençol rosa e amarelo usado para fintar o toiro – e os espanhóis são melhores com a espada, para o matar. Mas nada disso impediu que muitos toureiros espanhóis emigrassem para as Américas à procura das oportunidades que lhes faltavam no seu país. A história de Jairo Miguel começa por aqui.


O seu pai, António Sanchez Cáceres, nasceu numa família sem tradição toureira e fez-se matador de segunda, por força de vontade. Participou em corridas em Espanha mas também na América Latina, onde, além de toureiro, se tornou o empresário de touradas que é hoje.

No final dos anos 1980 viajou para Cuba, na esperança de levar para a ilha comunista as touradas. Falhou essa missão, mas foi em Havana que conheceu a sua mulher, Célia Alonso.  Corresponderam-se por carta durante três meses e depois foi buscá-la para se casar. «Um amor à antiga», lembra a cubana.
Célia nunca viu o marido tourear. A última vez que Sanchez Cáceres – o seu nome artístico – subiu à arena foi em 1993, numa corrida na Califórnia, organizada por emigrantes açorianos. Nessa altura, Célia estava a recuperar do parto. Jairo era recém-nascido.

Jairo começou a tourear em Espanha, desafiando a lei que proíbe os menores de 16 anos de fazerem a faena no país. Depois de ter sido multado em milhares de euros várias vezes seguidas pela polícia, que acusou de lhe mover uma perseguição, António Cáceres decidiu emigrar com o filho de 12 anos para o México, onde ele podia treinar-se.

«Não era o meu sonho que Jairo fosse toureiro. Não é uma coisa que se deseje a um filho porque é muito perigoso», conta sentado à mesa da sala onde as fotografias de Jairo partilham as paredes com as de Joselito. «Mas não tinha outro remédio senão ajudá-lo a ter a profissão que ele queria.»


A justificação de hoje não lhe serviu de consolo no dia 15 de Abril de 2007, quando viu o peito do filho atravessado pelo corno de um touro de 420 quilos, que não seguiu o capote, na praça de Aguascalientes, no México. O corno perfurou-lhe o pulmão, mesmo ao lado do coração.

A única vez que falou em público sobre isso, em entrevista ao jornal El Mundo, Jairo confessou que arriscou um pouco mais no passo. «Depois só me lembro do golpe no peito. Ficou muito frio e depois vi muitas pessoas à minha volta com uma cara de pânico. Não sei se me doía mais a ferida ou vê-los a eles. Lembro-me de ter olhado para o meu pai e não me saíam as palavras. Apelei a todas as forças e soltei um grito: “Quero morrer, papá.” Foi muito dura a situação que vivi e é verdade que durante alguns momentos desejei morrer.»

A notícia da cornada caiu que nem uma bomba em Espanha. Sanchez Cáceres foi acusado de ser o responsável por ter o filho às portas da morte. Mas Jairo sobreviveu. Hoje volta a falar de tudo aquilo para dizer que esteve «a um centímetro de perder a vida, mas esse é o preço para me tornar toureiro. Sei que isso pode acontecer a qualquer momento mas não penso, logo não sinto medo. É um risco, pois é. Mas eu sinto os touros.»

Quatro meses depois da cornada, Jairo voltou a Aguascalientes, para tomar a alternativa, uma espécie de cerimónia de graduação dos toureiros. Antes da corrida, o seu padrinho Eloy Cabazos entregou-lhe a muleta e a espada, à vista do segundo toureiro, e testemunha no caso, Zotoluco.
Aos 15 anos e com uma cicatriz de 35 centímetros no peito, Jairo Miguel tornara-se um matador.
 
A fama ficou e perseguiu-o. O seu regresso a Espanha e a Cáceres foi notícia de jornal tal como a sua primeira faena no seu pais, após cinco anos. Quem passou despercebido foi António Doncel, o moço de espada do matador.

Hoje, Jairo Miguel é toureiro a tempo inteiro. A mesma ideia que o levou ao México convenceu-o a deixar a escola em segundo plano – só lá vai fazer os exames. Todos os dias treina. Mas o sonho confesso de se tornar o melhor do mundo comanda todos os momentos da sua vida.

Basta vê-lo a andar pela casa a cantarolar flamenco ou a contornar os móveis e tudo o que lhe aparece no caminho como se fintasse um touro imaginário. Tal e qual como uma criança que sonha ser craque de bola anda aos remates pela casa fora.
Doncel é o seu braço direito. É ele quem, durante a corrida, passa a Jairo o capote, a muleta e a espada. É ele também que guarda e trata do traje do toureiro, quem prepara a camisa com rendas no peito, quem lhe dá o nó na gravata e o ajuda a vestir o colete e o casaco bege e prata que juntos pesam mais de oito quilos e custam mais de cinco mil euros.

Mas isso é apenas a parte dos dias de fiesta. António é quem treina a jovem vedeta na pequena plaza vermelha, enlameada e sem bancadas, das traseiras de casa. É ele que empurra um touro de plástico contra o capote de Jairo que se esquiva e na resposta tenta estocar. É neste momento que o ar de adolescente desaparece e fica o olhar concentrado do toureiro.
Doncel, espanhol que sabe tudo de touros mas nunca toureou nenhum, está com Jairo há pouco mais de um ano, mas conhece-lhe melhor do que ninguém os defeitos e virtudes. «É muito bom com o capote», o lençol rosa e amarelo que se usa no início da corrida, «e quase igual com a muleta». «Mas na hora de usar a espada ainda é apenas regular. É isso que lhe falta se quer tornar-se no melhor do mundo.»

A pressa de se tornar o melhor levou Jairo a enfrentar seis touros numa só tarde. Ditam as regras que há seis touros por corrida e que estes são divididos entre três matadores. Só os toureiros experimentados é que arriscam a chamada solitaria.
Até hoje, de acordo com o jornal El Mundo, apenas El Julli passou esta prova mais jovem. O madrileno subiu à arena de Las Ventas no dia 13 de Setembro de 1998, com apenas 15 anos e feriu de morte os seis bovinos que desafiou.

A fiesta de Jairo foi marcada para a plaza de Cáceres, a sua cidade natal, dia 6 de Fevereiro. O site Burladero, especializado em corridas de touros, escreveu que «apesar de voluntarioso, o jovem diestro mostrou carências que provam falta de rodagem a este nível».

Dos seis que apanhou pela frente, só o terceiro touro é que Jairo conseguiu matar à primeira tentativa. Mas isso não tirou entusiasmo ao público, que o ovacionou e levou em ombros da praça, com três orelhas na mão – um prémio por bem tourear.
 O feito teve eco em Espanha e por todo o mundo. A agência Associated Press noticiou: «Jovem matador mata seis touros em praça espanhola.» O artigo, publicado num jornal da Florida, indignou Cyndi Egan.

A americana, religiosa devota, escreveu uma carta a Jairo em que dizia ter ficado com o coração partido. «Todas essas mortes vão fazer de ti um pobre de espírito. Aquilo a que tu chamas arte é uma matança disfarçada», leu a mãe do toureiro, que gosta de Harry Potter mas nunca aprendeu a falar inglês.
Sentado na sala dos seus retratos, com um boi embalsamado na parede, Jairo confessa que está habituado a receber cartas parecidas. E atira lacónico: «Sou sempre o assassino. Mas e eles? Não comem carne?»

Depois do desabafo, o jovem toureiro põe um ar mais sério e continua. «Eu não desfruto de matar o touro mas de o tourear, e ele desfruta de ser toureado. Matá-lo é uma coisa que o regulamento impõe e assim pede a festa. Não se pode explicar. O touro é um sentimento. Quem não sente não pode perceber.»
E continua agora a andar pela sala como se estivesse na arena dizendo as palavras que o pai lhe ensinou. Um matador não é um louco que «se põe à frente do touro». Um matador é um homem que se «esquece do corpo para ficar quieto quando o touro vem direito a ele» e o pára com um pano de cor.

E depois de o parar vira-se e chama-o e anda assim, nesta faena, a ensinar-lhe a dança que o levará à morte. Quando a tragédia se aproxima do fim, o matador e o touro param para se olharem. Até que o animal investe com os cornos, pela última vez, e o homem salta ao seu encontro e enfia-lhe a espada nas costas até ao coração. Está morto. O touro.

O encanto e a arte

Se fosse possível fazer uma lista dos homens que melhor sentiram os touros como os sentem os matadores, Ernest Hemingway seria um bom nome para começar. O escritor americano foi um aficionado das touradas e dedicou alguns livros e contos a explicar o encanto que é ver um touro morrer na arena.

O autor de Por Quem os Sinos Dobram, livro considerado um dos melhores retratos da Espanha nos anos da Guerra Civil, apaixonou-se pelas corridas de touros quando assistiu às célebres Festas de San Fermin, em Pamplona.

O escritor americano admirava a coragem dos matadores e o dramatismo que era o seu confronto com os touros e foi um dos estrangeiros que chamou ao toureio uma arte, no seu livro Death in the Afternoon (Morte à Tarde).

Durante os anos 20 e 30, Hemingway esteve várias vezes em Espanha e tornou-se um grande amigo do matador Juan Belmonte que, com o seu rival Joselito, El Gallo, revolucionaram a faena e fizeram dos anos 1910 a era de ouro dos touros em Espanha.

Belmonte sofria de um problema das pernas que o tornava tão lento que o obrigou a inventar uma nova forma de tourear e que passava por ficar parado e deixar o touro passar-lhe rente ao corpo. Os que deliravam com os seus duelos contra o hábil Joselito profetizavam que não duraria muito e que estava destinado a morrer na praça. Em Dezembro de 1927, um corno atravessou o peito de Belmonte e o matador ficou pregado a uma parede para grande horror e comoção dos espectadores, entre os quais se contava o rei de Espanha, Afonso XIII. Porém, Belmonte sobreviveu a essa ferida e às outras, e calhou a Joselito ser morto por um touro numa corrida de segunda.

Belmonte suicidar-se-ia muitos anos depois, em 1962, no dia em que o proibiram de viver. Depois de o médico lhe ter proibido os prazeres da carne, mandou chamar o seu cavalo favorito, comprou vinho e cigarros e foi para uma casa onde o esperavam duas prostitutas. Depois de satisfazer todos os desejos, suicidou-se com um tiro, tal como Hemingway fizera poucos meses antes. Conta-se que no dia anterior dissera aos seus amigos que se não pudesse viver como um homem, gostaria, ao menos, de morrer como um deles.

Catalunha: A fiesta vai a votos
O parlamento da comunidade autónoma votará dentro de dois meses uma lei que tem por objectivo a proibição das touradas. Um «sim» dos deputados em Barcelona poderia ser o princípio do fim daquela arte controversa em toda a Espanha.
 
Ao contrário de Sevilha e Madrid, Barcelona há muito que deixou de ser uma cidade de grandes touradas. Mas, por estes dias, os aficionados vivem de olhos postos na capital da Catalunha.
O parlamento regional está a discutir uma lei destinada a proibir a morte dos touros nas praças da comunidade e os activistas pelos direitos dos animais acreditam que o «sim» dos catalães poderá ser o princípio do fim das touradas em toda a Espanha.
A contagem decrescente já começou. Os parlamentares terminaram esta semana as audições a críticos e partidários das touradas. A votação final terá lugar entre Maio e Junho, mas o desfecho é incerto.

O projecto chegou à assembleia pela mão do povo. Em Dezembro de 2008, a associação Plataforma Prou 2010 (prou significa «basta» em catalão) lançou uma petição para modificar a lei catalã de protecção dos animais. Num ano foram recolhidas 168 mil assinaturas – quatro vezes mais do que as cinquenta mil necessárias para levar uma iniciativa legislativa popular ao parlamento regional.

A batalha mobilizou toureiros, activistas, intelectuais e celebridades e ultrapassou as fronteiras da própria Espanha. Em defesa da tradição e da arte da tourada saiu o escritor peruano Mário Vargas Llosa.  Pamela Anderson juntou-se aos activistas pelos direitos dos animais, do outro lado da barricada. Numa entrevista ao jornal britânico The Times, a actriz disse que a «mais chocante forma de crueldade é aquela que é feita em nome do divertimento».

A petição da Prou exige o fim das touradas, mas não proíbe as corridas de touros em que os animais são largados nas ruas de uma cidade e espicaçados na perseguição de uns poucos ousados que se metem no caminho, como nas célebres Festas de San Fermin, em Pamplona.

A proposta passou o primeiro teste no final do ano passado. Enquanto cá fora activistas encenavam a sua própria morte, deitados na rua e com bandarilhas espetadas nas costas, no parlamento os deputados aceitaram discutir a proposta, após uma votação renhida.

Na ressaca daquele momento histórico, Leonardo Anselmi, porta-voz da Prou, garantiu que se a proibição for avante na Catalunha, outras comunidades seguirão o exemplo. «Pensamos que este será o princípio do fim deste espectáculo cruel.»
A ideia de proibir as touradas não é original em Espanha. As ilhas Canárias proíbem a morte dos touros desde 1991. Mas no arquipélago atlântico não se sentem os touros como no continente. Ali, a faena é uma arte que liga milhões de espanhóis melhor do que o castelhano e um traço da identidade que impressiona quem vem de fora.

Carmen Mendez, presidente da Associação de Defesa dos Direitos dos Animais, admite que vai levar «muitos anos até livrarmos a Espanha das touradas». Mas denuncia que a morte na praça é hoje «um anacronismo que agoniza».
Em entrevista à NS’, Mendez explicou que os touros foram sempre um espectáculo festivo do agrado de reis absolutistas e ditadores, de Fernando VII a Francisco Franco. «Eles defenderam as touradas porque ajudavam a contribuir para que o povo não pensasse.»

O franquismo foi uma das épocas grandiosas para os toureiros. Mas a democracia parece ter feito aumentar o desinteresse. Se nos anos setenta, 55 por cento dos espanhóis diziam ser interessados em corridas de touros, nos anos noventa esse número desceu para pouco mais de trinta por cento.
Em 2006, de acordo com um estudo de opinião da Investiga, 72,1 por cento dos espanhóis admitia não ter nenhum interesse em touradas. O valor subia para 78,5 por cento quando a pergunta era feita às mulheres e chegava aos 81,7 por cento nos jovens entre 15 e 24 anos.

A queda de popularidade da fiesta reflectiu-se na televisão. Em 2008, a TVE, deixou de transmitir corridas de touros. O presidente da televisão pública espanhola, Luis Fernández, justificou a decisão com os elevados custos de produção e a rejeição dos eventos por parte dos anunciantes.
Sanchez Cáceres, antigo matador, discorda que os touros estejam a perder adeptos como se diz. «Hoje as pessoas têm coragem para se indignarem. Mas sempre houve quem não gostasse. Se as touradas, antigamente, eram tão populares como dizem, então porque é que não se fizeram praças de touros do tamanho dos estádios de futebol?»

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