A diferença entre ser e parecer

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No verão deste ano, conversando com os meus filhos, sócios fervorosos do Benfica como o pai, dizia-lhes que tinha pena que o treinador continuasse pois, na minha perspectiva, não seria o treinador certo para nos dar as vitórias que ambicionamos.

Tenho de dizer que a minha opinião não foi aceite, foi mesmo muito contestada, pois os resultados do ano anterior tinham sido positivos.

Já esta conclusão é para mim um erro.

Com a campanha realizada no ano anterior o resultado positivo teria de passar, pelo menos, por um desempenho na Champions de maior sucesso - e nunca ter terminado o campeonato com o credo na boca.

Ser treinador é principalmente ser um gestor.

Como qualquer gestor tem de ter uma estratégia, um plano e um programa que lhe permitam estabelecer o rumo, desenhar o caminho e preparar a equipa para o percorrer.

Mas é também essencial ter uma visão dos acontecimentos e ter a capacidade de reacção que lhe permitam actuar e modificar, seja o programa, seja o plano, de forma a atingir os objectivos da sua estratégia.

E implica também ter a coragem de tomar as decisões e compreender o momento em que essas decisões devem ser tomadas.

No fundo, ser um empreendedor.

Ser capaz de fazer tudo isto não é fácil. Como bem diz o Papa, ser empreendedor é ter uma vocação nobre, exactamente pela dificuldade de que se reveste.

Ora, na época de 22/23, a estratégia de Roger Schmidt estava bem estruturada, o seu plano e programa também se apresentavam bem trabalhados, de tal forma que, desde o início, a performance do Benfica foi efetivamente de grande nível. Com uma nova abordagem à forma de estar no campo e com uma atitude ganhadora que foi sendo reforçada vitória após vitória, era bonito ver a equipa a jogar e parecia mesmo que tínhamos encontrado uma solução de um Benfica como antigamente.

Onde chegava ganhava.

Quando, na sequência da primeira paragem do campeonato, os resultados começaram a não aparecer, preocupou-me a pouca capacidade de solucionar os problemas que o confrontavam.

A insistência em manter as fórmulas em que apostara, sem alterar em função das evidências, a demora em substituir jogadores para mudar a atitude perante o jogo, quando os resultados não apareciam, mostravam um treinador que tinha uma componente teórica forte, que conhecia bem o futebol, mas a quem faltava a capacidade empreendedora de enfrentar as dificuldades com determinação, com uma sensibilidade de antecipar as dificuldades e com a capacidade de levar a sua equipa a se reinventar face à nova realidade.

Foi assim que, após uma segunda paragem do campeonato, perdemos a caminhada europeia face a uma equipa que naquele momento estava perfeitamente à altura do Benfica; e foi assim que chegámos ao final do campeonato, depois de termos tido uma enorme vantagem pontual relativamente ao segundo classificado, a temer que uma pequena falha arruinasse os resultados do ano.

O início da época de 23/24 tem sido ainda mais marcada pelas dificuldades desta dualidade teórico-prática.

Tendo tido a oportunidade de recrutar os jogadores com que pretendia jogar este campeonato e tendo decidido sobre a preparação do mesmo, Roger Schmidt não tem conseguido os resultados que pretende a nível europeu e, a nível nacional, apesar de ainda se manter num lugar próximo do seu objectivo, tem dado a ideia de que está sempre a ganhar sem verdadeiramente convencer.

E o pior é que até os seus próprios jogadores começam a duvidar da capacidade de êxito e vêmo-los passeando pelo estádio, quando seria necessário estar a atuar com uma energia e uma capacidade que não encontramos.

Pode ser que esteja enganado e Deus queira que sim, mas aquilo que me parece ser Roger Schmidt não é o que o Benfica precisava para treinador.


bruno.bobone.dn@gmail.com

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