À descoberta das Galerias Romanas escondidas pela água

As visitas guiadas a um dos monumentos mais emblemáticos da cidade são retomadas esta sexta-feira. É um dos dois períodos do ano em que o nível da água baixa e fica à vista uma herança que remonta ao século I d.C..
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A reabertura das visitas guiadas às Galerias Romanas de Lisboa é sempre um marco importante na cidade, até porque tal só é possível duas vezes por ano, em abril e em setembro, altura em que o nível da água baixa e permite a entrada de pessoas nas catacumbas da Baixa Pombalina. Entre esta sexta-feira e domingo, 2115 pessoas divididas em grupos de 20 a 25, vão poder descer a pequena escadaria, no meio da estrada, na rua da Prata.

Os bilhetes já estão esgotados, mas em setembro há outra grande oportunidade de conhecer este pedaço de história de Lisboa. No resto do ano, estas galerias estão inundadas em cerca de um metro devido aos lençóis de água que estão subsolo da cidade. Nas paredes é possível observar as marcas do nível de água, que só não sobe mais devido à pressão exercida pela água e pelo ar.

Para retirar toda a água das galerias são utilizadas bombas de remoção, sendo depois necessário proceder-se à limpeza do monumento e restabelecer o sistema de eletricidade. No total, este processo leva cinco dias e envolve várias autoridades como a Polícia Municipal, os Bombeiros, os serviços elétricos da Câmara Municipal de Lisboa e a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.

A duas aberturas anuais coincidem com datas que fazem sentido em termos patrimoniais, o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, assinalado a 18 de abril, e as Jornadas Europeias do Património, em setembro.

Estas galerias foram construídas no século I depois de Cristo, no período do imperador romano Augusto, numa altura em que estava a ser construída a cidade de Felicitas Iulia Olisipo, o nome então dado a Lisboa. Esta estrutura corresponde a um criptopórtico, um sistema de galerias que criou, numa zona com um declive, uma plataforma horizontal de suporte à construção de edifícios de grande porte. Pensa-se que esta estrutura poderia servir para suportar um edifício de grande dimensão - público ou de apoio ao porto - e possivelmente poderia até incluir um complexo de termas.

"O que é absolutamente extraordinário é que a função deste sistema de galerias subterrâneas continua a ser a mesma: de garantir a construção de edificado seguro, plano, direito e completamente estável. Ou seja, é um complexo sistema de alicerces para os edifícios em cima", explica Joana Sousa Monteiro, diretora do Museu de Lisboa, entidade que gere estas galerias. Lídia Fernandes, coordenadora do Teatro Romano, lembra que, antes de ser criada esta estrutura, a zona da atual Baixa era um vale muito acentuado com um grande desnível em termos geológicos. A Galeria Romana tem uma profundidade entre 1,20 a 2,00 metros e foi feita em cimento romano, que permitiu criar um alicerce maciço que lhe confere bastante estabilidade.

Apesar de ser do tempo romano, esta estrutura foi descoberta no subsolo da cidade, em 1771, durante a construção da Lisboa pombalina após o Terremoto de 1755. O que se conhece atualmente das Galerias Romanas é cerca de um terço daquilo que se sabe que existia. No entanto, não há a certeza da dimensão real da estrutura. "Sobretudo desde meados do século XIX, com a construção de edifícios, e no século XX, com os sistemas de esgotos e de canalização modernos, foram construídas paredes e alicerces que cortaram algumas das galerias", diz Joana Sousa Monteiro.
As Galerias Romanas apenas podem ser abertas duas vezes por ano também devido ao nível de humidade relativa que a água confere à estrutura. Não há estudos que provem que pode tirar a água em determinada quantidade e, por exemplo, criar um sistema de passadiços metálicos inoxidáveis para que o público possa visitar este monumento durante todo o ano.

Além disto, a falha geológica que atravessa a Galeria das Nascentes vai variando consoante o nível da água. "Se tirarmos a água durante mais dias, o fissurómetro [aparelho que monitoriza fissuras] que foi instalado há cerca de 20 anos deteta que a falha abre ligeiramente quando o monumento não tem água e volta a fechar quando tem água", explica a diretora do Museu de Lisboa.

Em 1996 foi feita uma intervenção arqueológica que permitiu recolher dados que ainda estão a fornecer informações sobre toda a galeria. O pavimento atual não é o pavimento romano original, que está cerca de trinta centímetros abaixo e apenas é visível junto à Galeria das Nascentes.

Nas abóbadas podem ver-se dois poços, feitos quando os edifícios pombalinos foram construídos, que eram utilizados pelas pessoas para aproveitar a água que estava no interior da galeria para consumo. "Quando a água canalizada passou a ser prática comum, estas bocas de poço deixaram de estar em utilização e foram tapadas. Este monumento foi sempre sendo reutilizado ao longo dos séculos mantendo sempre a sua função fundamental de alicerce", concluiu Lídia Fernandes.

sara.a.santos@dn.pt

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