A cultura da lamúria face à falta de ideias

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E m plena aceleração da crise económica quase tudo aponta para dificuldades acrescidas. Em todos os países, com governos de todas as cores políticas, o que se procura é reduzir os danos. Dito de outra forma, quem tem responsabilidades políticas tenta combater o desânimo, apoiar os mais aflitos no plano social, apontar caminhos que criem investimento, emprego, rendimento. Ninguém pode prometer o que sabe que não pode dar. Ninguém pode garantir que a crise nos pode passar ao largo. Mas a diferença essencial de país para país é a atitude dos protagonistas políticos e económicos dos vários quadrantes na tomada de decisões concretas, sucessivas e cumulativas. Vemos exemplos por essa Europa fora de quem procura abrir espaços de debate sobre as virtualidades de posições alternativas, de quem baixa bandeiras de confronto partidário, apoiando medidas difíceis, mas necessárias.

Em Portugal continua a prevalecer a lamúria. Pior ainda, a antecipação da lamúria perante um destino negro inexorável. Todo o debate à volta do cenário macroeconómico do OE 2009, já desactualizado pela espiral da crise, não levou a quase nada porque não serviu para mostrar quais as consequências práticas desse desajuste. Nem para apontar medidas que, já hoje, por via desse desvio devessem ser tomadas sem demora. Nada disso! Perante as incertezas de dimensão inédita que impendem sobre a acção governamental em 2009, o que parece contar no debate é se o orçamento prevê bem o futuro, se as contas estão bem feitas, ou se é um orçamento "mentiroso". À lamúria segue-se sempre mais lamúria, sejam quais forem os indicadores que vão sendo publicados. Os portugueses têm gosto em deprimir-se ainda mais pela palavra e cuidam cada vez menos de sair da depressão pela acção.

Ao afirmar em Cuba que "a Rússia está de volta à América Latina", o Presidente Dmitri Medvedev confirmou por palavras aquilo que é já visível nos factos. Afinal, a frota russa está nas Caraíbas a fazer exercícios com a Marinha venezuelana. E no país de Hugo Chávez, anterior escala da visita de Medvedev, até foi assinado um acordo de cooperação nuclear civil. Depois, em Havana, um abraço ao novo comandante, Raúl Castro, que substituiu o irmão Fidel à frente de uma Revolução que a 1 de Janeiro celebra meio século e que durante décadas teve Moscovo como aliado. De fora, ficou a Nicarágua, onde o Presidente Daniel Ortega, nostálgico dos tempos de aliança entre sandinistas e soviéticos, fez questão de ser o segundo, depois de Medvedev, a reconhecer a independência da Ossétia do Sul.

As Caraíbas costumam ser um lago americano, com os Estados Unidos desde Theodore Roosevelt, há mais de cem anos, a exercerem uma tutela forte, que mesmo na Guerra Fria conseguiram impor, apesar de Cuba. Mas a Rússia procura recuperar-se dos traumáticos primeiros anos do pós-comunismo e mostrar que ainda é uma grande potência. Nada melhor que navegar às portas da América para provar que o mundo vai ser multipolar.

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