A corrida Le Mans Classic reúne, a cada dois anos, carros dos modelos que participaram nas 24 Horas de Le Mans entre 1923 e 1979. Se o automóvel tiver mesmo participado numa dessas provas, tanto melhor: ganha vantagem nos apertados critérios de selecção das máquinas que serão autorizadas a competir nos seis escalões, abarcando as várias décadas da corrida. A iniciativa reuniu nesta quinta edição 469 carros, mas foram sete mil os exemplares que participaram na exposição de modelos antigos..Os pilotos, quase um milhar, oriundos dos cinco continentes, competem nas seis grelhas de não mais de sessenta carros cada uma que percorrem o circuito de 13,5 quilómetros ao longo de 24 horas, havendo dez carros de reserva. Todos os anos, metade dos candidatos são reprovados pela organização e o clube dos pilotos Le Mans Classic é um restrito clube de cavalheiros de que fazem parte nomes míticos das corridas de automóveis como Henri Pescarolo e René Arnoux (vencedor de sete grandes prémios de Fórmula 1). O piloto português Pedro Mello Breyner participou na edição deste ano e conta as suas impressões na primeira pessoa..Primeiro diaVoltei a Le Mans, em Julho, para participar na quinta edição de Le Mans Classic. Este evento realiza-se de dois em dois anos e, a par das 24 Heures du Mans, utiliza o circuito grande com 13,5 quilómetros de extensão, boa parte deles em estrada nacional. Foi exactamente por aí que comecei o meu dia de quinta-feira. Percorri a pista toda a pé. O calor era tanto que eu e o meu primo bebemos cerca de três litros de água. Este passeio é útil porque se conhece o traçado ao pormenor e há sempre uma história para recordar ao longo das famosas e distintas zonas deste maravilhoso circuito..No final, tínhamos os pés desfeitos, mas estabelecemos um novo recorde, uma volta em 150 minutos! Rumámos de seguida a Le Mans, para uma refeição em La Taverne, uma das mais famosas brasseries, onde sempre se encontram alguns dos pilotos famosos que vão participar nesta prova..Nesta edição participaram quarenta pilotos que já inscreveram o seu nome nas famosas 24 Heures du Mans, entre os quais Pedro Lamy, Miguel Pais do Amaral, Henry Pescarolo, David Piper, René Arnoux, Jan Lammers, Vern, Jean Pierre Jaussaud, Jean-Claude Andruet, Marc Duez, Jean Ragnotti, Henry Greder, Eric Helary, Alain Serpagi, Hulgen Holtz, Thomas Erdos e, é claro, os irmãos Mello Breyner..À tarde, as obrigatórias verificações administrativas e aos equipamentos: fato, capacete, sistema hans, etc. Os comissários passam tudo à lupa. Desta vez, para além do BMW M1 (plateau 6) que ia conduzir com o meu primo Fernando Espírito Santo, ia também conduzir o Porsche 908 (plateau 5) e o AC Cobra (plateau 4) com Miguel Pais do Amaral e com o meu irmão Manuel Mello Breyner..Já com as equipas instaladas no paddock, era altura para verificação dos cintos, posição do banco e, obviamente, sermos apresentados aos elementos do team. A equipa que prepara o BMW M1 é suíça e preparou um jantar para todos num restaurante acerca de 15 quilómetros do circuito. No nosso team estava também a correr num M1 o príncipe Leopold da Baviera, um dos pilotos que competiram na série Procar organizada pela BMW nos anos 1980 e que era uma prova de suporte às corridas de Fórmula 1..Segundo diaNa sexta-feira, o circo já está todo montado e é indescritível ver toda aquela «cidade» a funcionar. São 470 carros de competição divididos por seis grupos (plateaux), contando cada um com cerca de oitenta carros, todos de época. Ao todo, desde as quatro da tarde de sábado até às quatro da tarde de domingo, realizam-se 18 corridas, com a duração de 43 minutos cada.A comitiva portuguesa era composta por Pedro Lamy, Carlos Barbosa, Miguel Barbosa (Jaguar Type E 1962), Manuel Ferrão e o seu filho Diogo (Ford GT 40 1965), Manuel Monteiro e os seus dois filhos (Chevron B16 1971), Carlos Barbot (Lola), Miguel Amaral, Manuel de Mello Breyner, Pedro de Melo Breyner (AC Cobra 1964) e Fernando Espírito Santo (BMW M1)..A azafama é enorme, pois os treinos estão quase a começar. Os pilotos e os acompanhantes ficam parqueados na zona do camping, relativamente longe das boxes. Neste evento, as boxes não são ocupadas, de forma a permitir que quando um plateau entra em pista as mesmas possam ser utilizadas pelas equipas que vão disputar os treinos ou corridas. Assim, de hora a hora as boxes são ocupadas pelas diferentes equipas dos diferentes plateaux, o que provoca um movimento louco de pilotos, carros, mecânicos e carrinhos com pneus e algumas peças suplentes. .Temos ainda a circular as pessoas que vão ver a prova e que podem andar por ali, é claro, desde que comprem um bilhete de trinta euros válido por um dia. Para nos deslocarmos da zona do camping até às boxes existe um serviço de transporte feito por particulares nos seus veículos militares de estimação: Jeeps Willys e camionetas Dodge dos anos 1940. Um verdadeiro espectáculo. Esta gente está de quinta a domingo a fazer este serviço non stop. Caso para dizer: «Chapeau!».Além dos carros de corridas, estão em Le Mans oito mil carros a representar 94 clubes – Abarth, Alfa Romeo, Aston Martin, Bentley, Ferrari, Maserati, Mercedes, Porsche, entre outros. Muitos destes clubes são ingleses e os seus membros aguardam a chegada deste evento para tirarem o carro da garagem, atravessar o canal da Mancha e ao fim de meia dúzia de horas estarem a passar talvez o melhor fim-de-semana do ano. Vêm para mostrar os seus bólides, apanhar um pouco de sol (desta vez até foi muito) e sobretudo para beber muita cerveja. Nós sempre que íamos para casa passávamos em Arnage, célebre vila que dá nome a uma das mais famosas curvas do circuito, e onde desde sexta-feira de manhã o movimento na rua principal é enorme, com aqueles bólides ali estacionados em frente às esplanadas enquanto os seus proprietários, todos eles ingleses, se enchem de cerveja..Já decorriam os treinos quando pelas cinco da tarde, e pela primeira vez em Le Mans Classic, se realizou um leilão. Os lotes iam desde selos a cartazes de Le Mans desde o ano 1959 (ano em que nasci), volantes, cronómetros, estatuetas, manuais de instruções e uns quadros de Michael Turner, um deles com Jackie Stewart no Matra, em 1968, à chuva, quando ganhou em Zandvoort uma verdadeira peça de arte..A estrela e capa de catálogo era o McLaren F1 que participou na prova em 1995, decorado pelo famoso escultor César Baldaccini, membro do movimento pop art. Uma escolha difícil mesmo para quem tivesse carteira para licitar uma daquelas preciosidades, que iam desde um Lamborghini P400 Miura SV, com apenas 5600 quilómetros, até um AC Cobra, um Ferrari 275 GTB, um Alpine A 110 de rali que foi guiado por Darniche, até um Porsche 935. Sugiro uma visita ao site www.artcurial.com, vale a pena ver estas verdadeiras maravilhas. No briefing dos pilotos anunciaram que quem comprasse o McLaren F1 tinha garantida a presença em Le Mans Classic em 2012..Os treinos cronometrados começaram por volta do meio-dia e iam durar até à uma da manhã. Tínhamos de guiar de dia e de noite. Isso para mim não era problema. A minha primeira passagem em pista aconteceu com o AC Cobra e tudo se desenrolou dentro da normalidade. Miguel Pais do Amaral fez um óptimo tempo e eu fiquei a cerca de um segundo, o que nos abre boas perspectivas para a prova, uma vez que os nossos andamentos iriam ser muito semelhantes..De seguida foi a vez de o Porsche 908 entrar em pista. Miguel Pais do Amaral começou o treino, depois foi a vez de Manuel e eu terminei a sessão. Foi uma boa experiência, embora todos tenhamos sentido problemas com o manuseamento da alavanca da caixa de velocidades..Já com o cair da noite, Fernando Espírito Santo foi o primeiro a sair com o BMW M1, para se estrear nesta catedral do desporto automóvel. Depois de um dia muito longo, regressámos a casa por volta das duas da manhã, um pouco cansados. Mas sabíamos que poderíamos dormir pelo menos umas oito horas..Terceiro diaSábado chegámos ao circuito pelo meio dia e, antes da prova principal, fez-se uma corrida para os mais novos, a Little Big Mans, que não é mais do que carros de corrida pequenos conduzidos por miúdos dos 6 aos 13 anos, que fazem uma volta ao circuito Bugatti (versão curta do circuito). Estavam em pista oitenta carros e foi espantoso ver a garra daqueles miúdos e miúdas a conduzirem os pequenos bólides. Esperemos que em 2012 já participem naquela corrida pilotos portuguesesPelas quatro da tarde, para manter a tradição, começa a Le Mans Classic..Por volta das seis, Miguel Pais do Amaral sai com o AC Cobra do plateau 4. Miguel era o sexto entre cerca de oitenta concorrentes quando surgiu um problema com os travões que o obrigou a abandonar. De seguida sai com o Porsche 908 no plateau 5, em dupla com o meu irmão Manuel. Logo nas voltas iniciais o Porsche evidencia problemas de caixa de velocidades e Pais do Amaral é obrigado a desistir. No plateau 6 quem saiu com o BMW M1 foi Fernando Espírito Santo, que fez um turno isento de problemas, tendo recuperado do 18.° lugar, à partida, até ao 12.°, altura em que me passou o volante e eu mantive essa posição até ao final da corrida..Por volta das duas da manhã, já com o problema dos travões do AC Cobra resolvido, Manuel arrancou para a segunda manga do plateau 4 em 68.° lugar da grelha da partida e fez uma belíssima primeira parte da corrida, tendo recuperado nada menos que 58 posições em quatro voltas até me entregar o Cobra em 10.° e eu trouxe-o até ao 4.° lugar da geral, tendo também estabelecido a 2.ª melhor volta da corrida, o que nos permitiu colocar o Cobra na primeira fila da grelha para a última manga a disputar no domingo, pelas oito da manhã..A posição na partida é definida não pela ordem de chegada mas sim pelos tempos por volta realizados na corrida anterior. Os irremediáveis problemas de caixa de velocidades no Porsche 908 que ditaram o abandono na primeira manga não se resolveram, o que obrigou a que o carro ficasse imobilizado durante todo o fim-de-semana..Os problemas continuaram: para a segunda manga com o BMW M1, Fernando Espírito Santo partiu em 12.° lugar e conseguiu manter essa posição durante o seu turno de condução. Mas na última volta da corrida, comigo ao volante, partiu-se um tirante que liga a alavanca das velocidades à caixa, o que nos atirou para a 31.ª posição no final..Quarto diaNo domingo de manhã, na terceira e derradeira manga do plateau 4, Miguel Pais do Amaral, que arrancou da primeira fila da grelha, passou no final da primeira volta em 6.° da geral e 1.° dos AC Cobra, tendo sido apenas ultrapassado pelos potentíssimos Ford GT 40. Um problema no selector da caixa de velocidades obrigou-o a ir às boxes e, consequentemente, a perder uma série de posições. Os mecânicos conseguiram resolver o problema e foi Manuel quem arrancou para a segunda parte desta derradeira corrida do plateau 4, que veio a terminar a meio da tabela..A última manga do plateau 6 foi bastante divertida e Fernando Espírito Santo evidenciou um excelente à-vontade na pista de La Sarthe, ao estabelecer tempos por volta muito interessantes, até me ter passado o volante e eu levei o M1 até ao final o que se traduziu num 12.° da geral e primeiro dos M1. Acabámos em beleza este fim-de-semana de corridas neste mítico e maravilhoso traçado que, por certo, não iremos nunca esquecer. Ou seja, já estamos a pensar na corrida de 2012..Duo ‘português’ nas 24 Horas de Le Mans.A bandeira verde e vermelha à entrada da box assinalava a presença de Pedro Lamy. Mas o piloto não era o único a falar português. Nos bastidores, Mário Aguiar, francês de nascença, partilhava a crença de ver as cores nacionais subirem ao pódio..TEXTO: PEDRO MIGUEL NEVES, fotografia NUNO ALEXANDRE/AIFA.Mário de Abrantes Aguiar era fotógrafo de casamentos e baptizados mas foi a trabalhar na equipa técnica da Peugeot Sport, nas 24 Horas de Le Mans, que a NS’ o encontrou. Aos 37 anos, o filho de emigrantes portugueses esteve pela segunda vez na maior corrida do mundo. «Isto é a recompensa do nosso trabalho. O ano passado até chorei. Quando o meu pai trabalhava nas obras, vinha para casa a saber que o muro estava direito e ficava feliz. Aqui é igual», conta Mário Aguiar..Este ano as lágrimas voltaram a cair, não pela alegria da vitória, mas pelo abandono prematuro do carro de Pedro Lamy, ao qual deu assistência. Em pleno cenário de competição, a responsabilidade de Mário Aguiar é preparar os diferentes tipos de pneus com a pressão correcta. «Tenho a meu cargo toda a logística. Os pneus têm de estar sempre prontos para quando os mecânicos necessitam deles», explica. A semana em Le Mans (este ano a corrida disputou-se entre 12 e 13 de Junho), na mítica prova de resistência, é uma excepção ao trabalho mais monótono que faz durante o ano: responsável por um armazém de peças em Vélizy, arredores de Paris..Mário Aguiar é o mais novo de três irmãos e o único que nasceu em solo francês, seis anos depois de o pai, natural de Mangualde, ter emigrado para França, em 1967. Os carros não eram uma paixão de criança, mas quando a Renault lhe abriu as portas, em 1998, não mais quis deixar o mundo automóvel. Antes tinha feito um curso profissional de mecânica, mas como não gostou da primeira experiência de trabalho dedicou-se à fotografia durante três anos. Acabou por preferir um lugar num armazém de peças do que passar os dias a retratar noivas e bebés em cerimónias repetitivas. Trabalha há dez anos na Peugeot, no centro de Vélizy, que emprega cerca de 6300 pessoas..Mário aprendeu a falar português em casa, e as viagens anuais ao nosso país, em Agosto, ajudam a relembrar a sua segunda língua. Mas com os filhos, de 8 e 11 anos, nascidos e criados em França, é diferente. «Aqui falamos francês e depois é difícil ensinar-lhes português. Eles falam umas palavras com a avó, mas têm de arranjar uma namorada portuguesa para aprenderem», diz. Os pais reformaram-se há nove anos e decidiram regressar à casa da família, no distrito de Viseu, onde cuidam da horta e de alguns animais..Apesar de nunca ter vivido em Portugal, Mário Aguiar conhece bem alguns costumes lusitanos. A apanha da batata, em família, é a actividade de que guarda melhores recordações das suas visitas de Verão. «Vivo numa cidade, mas aprendi o que é morar numa aldeia, com os seus valores e cultura. O que gosto mais em Portugal é das oliveiras e de comer batatas com azeite, são as duas coisas que me dão calor ao coração», recorda. Na banda sonora da vida sente falta dos ranchos folclóricos, que costumava ouvir quando era miúdo: «Antigamente, nas festas de aldeia, havia bandas inteiras a tocar e as pessoas dançavam. Hoje em dia é quase tudo electrónico e acho que se perdeu algum do espírito dessas tradições.».Perto do coraçãoVélizy, comuna francesa localizada entre Paris e Versalhes, é o elemento central na vida de Mário Aguiar. Foi lá que nasceu e é lá que trabalha, num local onde nunca sentiu problemas de integração. Lembra os colegas portugueses que teve no emprego, «uma família dentro da família». «Já fomos sete. É diferente [trabalhar com portugueses], há outra ligação que se cria entre nós, porque temos outras raízes. O bom dia é sempre em português, “olá, como vais?”, as asneiras também», confessa entre risos..Faz questão de regressar a Portugal todos os anos e, tal como quando era criança, os filhos também adoram passar algum tempo na aldeia. Gosta de «ir à Nazaré» ver o mar, algo que não pode desfrutar em Paris. Mas por enquanto os seus planos vão mantê-lo em França..«A crise é geral e temos medo de perder o emprego. Mas espero continuar por cá», responde. E quando chegar a altura da reforma, o seu coração continuará dividido entre a terra onde sempre viveu e o país que aprendeu a amar? «Já pensei no que vou fazer. Os meus pais têm lá [em Portugal] uma casa e terras, e não quero deixar isso para outras pessoas. Estou longe, ainda são 1500 quilómetros, não dá para ir sempre de avião. Quem sabe? Tenho sempre o regresso na ideia, é pena perder as plantas que o meu pai plantou e viu crescer», garante o responsável de armazém, que ainda sonha viver na terra que os pais deixaram para trás, há mais de quarenta anos. Não é português no BI, mas é cá que sente estar perto das suas raízes..Tendas e FerrarisAnualmente cerca de 250 mil pessoas deslocam-se a Le Mans para assistir à mítica corrida das 24 Horas, que se realiza desde 1923. Os hotéis esgotam e os terrenos em redor do circuito enchem-se de tendas, muitas delas com Porsches e Ferraris estacionados ao lado: independentemente da condição económica, os fãs querem sentir de perto o espírito de Le Mans. Centenas de carros actuais ou clássicos, decorados de todas as maneiras e feitios, dão um colorido especial à festa que, para muitos, dura a semana inteira.