"Na poesia não há receitas de como fazer o poema"

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Antonio Cicero

Poeta e ensaísta

No Encontro de Escritores de Expressão Ibérica da Póvoa de Varzim, onde participou pela primeira vez, defendeu que a poesia não é um segredo dos deuses, porque faz parte das fraquezas humanas. Antonio Cicero, poeta, ensaísta e autor de canções, além da obra de ensaio Finalidade sem Fim, tem dois livros de poesia publicados em Portugal: Guardar e A Cidade e os Livros. As vanguardas, diz, já não existem, mas deixaram marca. Votou Lula da Silva, "no último momento".

Nasceu no Rio de Janeiro. Tem 61 anos

Escreveu letras de canções para, entre outros, Adriana Calcanhoto, Caetano Veloso, Marina Lima e João Bosco

Acaba de lançar em Portugal Finalidades sem Fim, livro de ensaios

Por que razão deu o título de Finalidades sem Fim ao livro de ensaios?

Eu retirei esse título do filósofo Kant. Ele diz que a beleza é uma finalidade sem fim. Não temos conceito que permita conhecer totalmente o belo.

Como a poesia?

Quando tomamos um poema, não é possível determinar o que é que ele significa. Um poema tem tantos significados quantos leitores ou até momentos de leitura. Nós buscamos entendê-lo, e falamos de muitas maneiras sobre um poema, mas nada do que nós dizemos está à altura do que é aquele objecto.

No Correntes d'Escritas, na Póvoa de Varzim, o Antonio Cicero participou no debate que tinha como tema "A poesia é um segredo dos deuses". Você não concordou com essa tese.

A poesia não é dos deuses: é um fenómeno humano, faz parte da fraqueza humana. Os poetas falam da finitude, da saudade, da esperança. Os deuses não sabem nada disso. E também não é um segredo. Segredo é uma coisa que a gente esconde, não conta ao outro, mas em princípio poderia contar. Eu posso ter uma receita de bolo, isso é um segredo meu, um segredo porque não conto a ninguém, mas poderia, em princípio, contar: se eu não pudesse ou não soubesse contar não seria um segredo. Na poesia não há receitas de como se deve fazer um poema: não é algo que um deus ou um ser humano tenham escondido. Em cada poema se redescobre de novo com é que se faz.

Que poetas de Portugal lê hoje o Brasil?

Desde sempre se lê os clássicos, de Camões a Pessoa. Mais recentemente, tem havido edições de livros de Eugénio de Andrade, de Sophia de Mello Breyner Andresen, e de autores mais novos como Adília Lopes. Adília Lopes é muito lida.

A editora Quasi, que publica os seus livros e de outros poetas brasileiros, vai publicar em Maio a obra completa de Manoel de Barros. No livro Finalidade sem Fim não escreveu nada sobre este poeta.

Eu gosto do Manoel de Barros, mas o livro não fala de todos os poetas de que eu gosto. Concentrei-me em alguns que fizeram parte da minha formação. O Manoel de Barros, embora bem mais velho do que eu, só ficou conhecido há pouco, não o conhecia na época da minha formação.

A suas referências são Drummond e João Cabral de Melo Neto...

Eu nem sei dizer bem porquê. Drummond, eu acho mais do que o Cabral ainda, é como se fosse a inauguração de uma poesia realmente grandiosa no Brasil. Penso nele como o maior poeta de todos os tempos. Era como se você perguntasse a um português do século XVI ou XVII o que acha de Camões. Drummond incorporou a vanguarda, a objectividade da poesia. Ao mesmo tempo, os seus poemas reflectem a alma brasileira.

"Poesia e paisagens urbana", primeiro ensaio do livro, trata das vanguardas brasileiras.

Sim. O título é um bocado enganoso, no fundo eu não falo de paisagens, falo da vanguarda. Da questão das vanguardas. Hoje, há duas tendências gerais: uma considera que as vanguardas tiveram um efeito negativo, que foram superadas. Não concordo com isso. As vanguardas tiveram um sentido importante de abrir portas.

Na poesia, quem encabeçou esse movimento?

Na poesia as vanguardas foram representadas principalmente pelos construtivistas, por certos poetas concretistas: Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos. Eles acreditavam que o verso já estava superado, que não se podia mais fazer poesia usando versos, que o soneto era uma coisa obsoleta. Na realidade, continua-se a escrever sonetos, eu mesmo escrevo sonetos, e o verso está mais vivo do que nunca.

Nesse ponto, estavam errados.

Sim, nesse ponto erraram. Mas ao mostrar a possibilidade de se fazer poesia de outras maneiras - visuais, dissecando as palavras, etc. - eles abriram caminhos. Ficou o que abriu portas; o que fechou, se superou. Essa é a minha interpretação do fenómeno das vanguardas.

As vanguardas continuam vivas?

Pensar que a vanguarda continua a existir é a outra tendência que considero errada. Existe poesia experimental, que é outra coisa, mas a vanguarda, no sentido de alguém que está à frente, que indica caminhos, não existe - o caminho foi abrir portas, e isso já foi feito.

Votou Lula da Silva?

Não ia votar nele, no último momento acabei votando. Mas fiz críticas a ele, na época. Houve escândalos, problemas muitos sérios de corrupção, um pouco ignorados por Lula. Achei aquilo errado. Mas há um facto muito positivo no anterior Governo Lula: diminuiu a diferença entre os ricos e as pessoas mais miseráveis, e isso tem de se levar em conta num país como o Brasil, onde as discrepâncias são brutais.

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