"Até 2011 não há expectativa de ganhar títulos" (Entrevista a Manuel Vilarinho, candidato a presidente da Assembleia Geral do Benfica)

Publicado a
Atualizado a

Manuel Vilarinho, que em 2000 derrotou surpreendentemente João Vale e Azevedo nas eleições mais concorridas de sempre, irá agora presidir à Mesa da Assembleia Geral. O presidente do novo Estádio da Luz diz que não conseguiu negar o apelo de ajuda do seu amigo Luís Filipe Vieira. Tudo com o espírito de missão, justifica. Para já só pensa no equilíbrio das finanças. Os títulos são objectivos para depois.

Porque decidiu aceitar a Assembleia Geral três anos depois de se ter afastado da presidência do clube?

Antes de mais porque fui convidado pelo meu amigo Luís Filipe Vieira. Entendo que servir o Benfica não compadece de vaidades, tanto se me dá que o cargo de presidente da AG seja menos importante do que o de presidente da direcção ou vice- -versa. Depois houve o facto de Tinoco Faria estar desgastado e querer sair. Como acho que ele faz falta disse-lhe que o substituía no cargo desde que ele ficasse como vice-presidente. Esta equipa deve perdurar até 2010/2011, até sanear as contas.

Sendo Vieira um "amigo", tenciona dar-lhe um cheque em branco ou vai ser um presidente da AG vigilante?

Não dou cheques em branco a ninguém. Além disso sei que Luís Filipe vai continuar a desempenhar um excelente trabalho e não terei grandes preocupações de fiscalização porque não será necessário.

Na altura em que saiu do Benfica ficou a ideia de que foi empurrado...

Empurrado? Não. Estava completamente esgotado. Tinha de sair, senão iria ter um mau desempenho. Felizmente tinha uma pessoa que gostava de ser presidente do clube e em quem confiava plenamente. O fruto da minha decisão está à vista.

É benéfico existir uma só lista?

Se calhar o Benfica chegou aonde chegou porque houve muita gente que se candidatou e não o deveria ter feito. Alguns até ganharam e, por incompetência, andaram anos a destruir um património e uma marca. Por exemplo, entre o professor Tadeu e o senhor Azevedo escolheram este último e deu no que deu.

As oposições não são saudáveis?

As oposições têm minado o clube. Uma das coisas de que me orgulho é de ter acabado com os ditos opositores. Eles agora não aparecem. Como não são burros chegaram à conclusão de que para terem opinião e se candidatarem têm de ter dinheiro.

É tudo uma questão de dinheiro?

Há aí muito boa gente que se pudesse candidatava-se logo, mas...

O que se perspectiva agora como o seu maior desafio?

Não tenho nenhum desafio. Vou concorrer com estes dirigentes para melhorar o Benfica e atingir em 2010/2011 o saneamento económico-financeiro. Apesar de gostar muito de ganhar, neste momento os resultados desportivos são secundários. Sem dinheiro e uma situação sã e estável não podemos aspirar a resultados desportivos duradouros. O dinheiro é que comanda a vida, não é a saúde. Se estiver doente mas não tiver dinheiro não se cura. O Benfica precisa de dinheiro para se curar.

Está a dizer que ainda não é altura para o Benfica sonhar com títulos?

Até 2011 não alimento qualquer expectativa a nível de títulos. Até pode acontecer, mas serão fenóme- nos que contrariam a realidade em termos de teoria e razão. A realidade é ir crescendo paulatinamente até voltar a ser o Benfica dominador.

O início de época da equipa está dentro das suas expectativas?

Não alimento expectativas altas. Falou-se muito de Rui Costa quando foi contratado, muita gente começou logo a sonhar. Fiquei contente, é um grande benfiquista e dá mais qualidade ao plantel, mas tem 34 anos... E não quero com isto dizer que se não se tivesse lesionado o Benfica estaria hoje na liderança.

Qual dos "grandes" está mais forte?

A qualidade dos plantéis está ao mesmo nível. Mas no futebol ter um bom plantel não significa ter uma boa equipa. Por exemplo, a equipa do Trapattoni e do Camacho, como grupo, era melhor do que a do Koeman e a actual, que tem melhores jogadores.

O problema é do treinador?

Não atribuo este aspecto negativo ao treinador, acontece.

Agradou-lhe a contratação de Fernando Santos?

Em princípio está bem escolhido, e se não foi o tempo o dirá.

A saída de Mourinho continua a ser a decisão de que mais se arrepende?

A decisão foi dele. Tinha acabado de ganhar ao Sporting e encostou- -me a faca ao peito: "Ou me renova o contrato por mais um ano ou vou embora." De facto, acabei por ter alguma responsabilidade porque lhe disse para ir embora, hoje teria renovado por dois anos. Foi um erro. Não di- go isso por ser agora um grande treinador, mas porque me dava descanso naquele sector. Na altura ele já era técnico e gestor do futebol e eu gostava da forma como trabalhava, talvez ele não soubesse...

Mas o Toni aparece consigo...

Quando falei no Toni o treinador era Heynckes, só que entretanto foi despedido e veio o Mourinho. A partir daí nunca mais falei no Toni.

No seu mandato sempre apelou ao benfiquismo puro. A profissionalização deve ter em conta a cor clubista?

Essa mentalidade é totalmente errada. No plano de gestão não pode haver paixão. Os jogadores também são todos do Benfica desde pequeninos? Se calhar só são dois.

Então a presença de José Veiga, assumido portista, não o incomodou?

Nada. Entrou no tempo do Luís Filipe, mas estava arquitectado desde o meu tempo. É um homem do futebol, está ali para obter resultados. Aliás, prefiro, em cargos de responsabilidade no futebol, trabalhar com pessoas que não sejam do Benfica. Nos últimos 20 anos o clube foi feito por muita gente do Benfica e cada vez que havia problemas entravam com acções judiciais.

Concorda que o Benfica esteja de fora da direcção da Liga?

Isso não tem importância, o que interessa é que funcione. Aliás, eu não punha os clubes como dirigentes da Liga, profissionalizava. Como é possível num jogo em que são todos adversários exigir que sejam isentos quando estão a dirigir?

Hermínio Loureiro é o dirigente ideal para liderar a Liga?

Como governante revelou ser uma pessoa de bom senso, mas no mundo do desporto muitas vezes perde-se o senso. Espero que seja isento e trabalhe no sentido de regenerar o futebol.

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt