Vai haver explicações e responsabilização?

Publicado a
Atualizado a

Como é possível que cinco reclusos considerados bastante perigosos consigam saltar um muro com mais de sete metros utilizando uma escada que receberam do exterior e fugir em dois carros que os aguardavam junto ao Estabelecimento Prisional de Vale de Judeus?

A pergunta foi ouvida ontem durante todo o dia sempre que alguém, incluindo os especialistas que sempre surgem quando há acontecimentos fora do normal, se referia à fuga de Fernando Ribeiro Ferreira, Rodolf José Lohrmann, Mark Cameron Roscaleer, Shergili Farjiani e Fábio Fernandes Santos Loureiro.

Os nomes pouco dizem, mas no grupo está um líder de um gangue, vários condenados por tráfico de droga, rapto, roubo, associação criminosa, por homicídio. E um outro que antes de ter sido detido em Portugal pela PJ (em 2016 quando se preparava para assaltar uma carrinha de valores) era um dos dez criminosos mais procurados na América Latina.

Estavam todos na prisão de Vale de Judeus, um dos estabelecimentos em Portugal com nível de segurança elevado. Ou seja, é um local onde estão alguns dos presos mais perigosos do País - por exemplo, dos fugitivos de ontem dois cumpriam penas de 25 anos de prisão.

É verdade que esta não é uma situação normal nas prisões em Portugal, mas também não deixa de ser alarmante que possam fugir cinco criminosos considerados bastante perigosos de um estabelecimento que deveria ter vigilância de topo e, pelos vistos, não tem.

Agora seguem as investigações internas para apurar responsabilidades e as operações de busca envolvendo todas as forças de segurança.

Mas, a humilhação das prisões nacionais está feita e até foi sendo aumentada durante a tarde quando um dos sindicatos decidiu publicar nas redes sociais imagens da fuga dos reclusos e das operações efetuadas para os ajudar. Há fotos de um homem com o rosto escondido a levantar uma escada junto ao muro. A tal que foi atirada para o outro lado e usada pelo quinteto para fugir em direção aos carros que os esperavam.

Durante a tarde ouviram-se muitas justificações para o acontecido, como a falta de meios humanos - a prisão terá 20 guardas para 500 reclusos -, a falta de torres de vigilância que foram substituídas por câmaras (as tais de onde foram retiradas as imagens entretanto divulgadas) e até o facto de um dos guardas ter ido tratar de questões burocráticas quando se deu a fuga e por isso ninguém se ter apercebido.

Não sei qual a verdade - espero que o Ministério da Justiça apresse o inquérito e o divulgue -, mas há uma certeza: o sistema prisional português não fica nada bem na fotografia.

Aliás, a segurança nacional não fica bem... outra vez.

É que, para os mais esquecidos, ainda não foi há muito tempo que um delinquente - entretanto detido e já em prisão preventiva - aproveitou uns andaimes colocados junto ao edifício da Secretaria-geral do Ministério da Administração Interna para ali entrar e furtar vários computadores. Aqui parece que houve problemas com as câmaras de videovigilância.

Tudo isto acontece num país onde o responsável máximo pela Polícia Judiciária está a aguardar uma decisão sobre se é reconduzido ou substituído quando o seu mandato terminou no início do verão e o embaixador Paulo Vizeu Pinheiro que ocupava o cargo de secretário-geral do Sistema de Segurança Interna esperou um mês após o seu mandato terminar para ser substituído sem que tal tivesse acontecido. O que faz com que, neste momento, a principal estrutura de coordenação policial do País esteja a ser liderada provisoriamente pelo ex-chefe de gabinete de Vizeu Pinheiro.

É preciso mais alertas? 

Artigos Relacionados

No stories found.
Diário de Notícias
www.dn.pt