Setor dos media: como desatar as mãos

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A internet, como metáfora da sociedade da abundância tecnológica, da plena mediatização da experiência e da democracia deliberativa, está a ser, ao invés, a criadora de uma rede de novos Frankensteins que ameaçam os criadores, tecem uma rede de regressão política e com ela ameaçam as democracias.

O mito da interação sem ruído caiu por terra e a desintermediação, que chegou a ser considerada o traço definidor da era digital, consolida-se num movimento contrário, numa hiperintermediação de dispositivos de controlo da internet, de moderação automatizada de conteúdo, de tracking e de novos gatekeepers - que teimam em dizimar o que resta do quarto poder, impondo aos media acontecimentos e narrativas sem autor, sem substância, e uma agenda perversa.

A questão da interação jornalista-público

Há praticamente 30 anos, quando a internet dava os seus primeiros passos, havia alguma esperança naquilo que se considerava ser a grande arma das redações: a interatividade. Ora, a interatividade - um dos princípios estruturantes do funcionamento da web, bem identificado enquanto tal nos meados dos anos 90, não terá chegado verdadeiramente ao jornalismo, com algumas raras exceções.

De que interatividade falamos? Não, certamente, das caixas de comentários de notícias e afins, onde o ocioso lumpen-proletariat do digital vagueia pela net a destilar as suas raivas e o seu ódio pestilento. Falamos de comunidades de leitores e jornalistas com as suas ligações assentes em elos fortes, através dos quais as redações constroem a sua rede ativa e criativa de seleção e produção de notícias e de investigação jornalística. O que significa que, no limite, quando a notícia chega ao público, pode já ter passado por diversas etapas - de informação, debate, sugestões e consolidação, ocorridas na rede interativa entre o jornalista e a plêiade de leitores que o “seguem”. Este um passo que em décadas, estranhamente, não foi consolidado e tem amarrado o jornalismo à era analógica.

Com a progressiva integração das tecnologias digitais, interativas, e agora generativas no campo dos media, existe um mundo de possíveis entre o jornalista e o seu público que transporta o modelo clássico dos media em “pirâmide”, analógico, para um modelo matricial. O problema é que os media tradicionais têm mantido ao longo destes últimos 30 anos uma resistência, ou talvez uma dificuldade, nesta mudança, o que constitui uma das razões para a atual crise dos media informativos.

Modelo invertido

A notícia menos boa é que hoje o “novo media” é o homem, é o utilizador. E aqui estamos perante uma inversão radical de todo o processo. Os efeitos dos modelos interativos e participativos têm, portanto, uma outra implicação nos media noticiosos, dado que cada utilizador pode ser ele próprio um agente, ou produtor, ou mesmo disseminador de notícias, usando conteúdo, ferramentas, redes e estratégias, mas que não se compaginam com aquilo que reconhecemos no jornalismo profissional e na informação séria, rigorosa e independente.

Mais grave ainda, a (des)informação assentou arraiais nas plataformas digitais e passou a dominar o processo informativo. Um dos primeiros estudos sobre este problema (Robin Foster, News Plurality in a Digital World, Reuters Institute, 2012) apontava já para cerca de 72% de (des)informação proveniente de dispositivos que reciclam notícias de fontes jornalísticas seguras, sejam os motores de busca, os agregadores de notícias, as redes sociais ou as aplicações. Ao fazê-lo, convertem os conteúdos em textos adulterados por lógicas algorítmicas, comerciais, e quantas vezes em narrativas envenenadas pelo discurso de ódio ou pela polarização cultural e política - é o modelo da economia da atenção, do clickbait, dominado pelo algoritmo “the winner takes it all”.

Porquê desatar as mãos

A superação de resistências, de dificuldades, o encontrar da solução quase “mágica” para o relançamento inequívoco, robusto, do “quarto poder”, como decisivo escrutinador dos poderes político e económico e da coisa pública em ambiente digital, não é fácil. Provavelmente, ou passa pela inovação da indústria no plano das práticas, tecnologias e redes, tendo como alvo prioritário o aprofundamento do modelo (comunicacional, económico) de interação com os públicos, ou perderá o combate para a desinformação e o desregramento completo que a polarização e as fake news têm vindo a conquistar ao espaço dos media noticiosos através do modelo da economia da (des)atenção. Perdida a batalha, soçobramos perante a hiperatenção que dispersa e distrai. E esta não é mais do que uma “censura invisível” que modela o ambiente de toxicidade das redes sociais.

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