Um herói não é um “D. Sebastião”

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Quando o primeiro filme do Super-Homem foi lançado, a maioria das pessoas perguntava: o que é um herói? A minha resposta era: ‘Alguém que realiza uma ação corajosa sem ter em conta as consequências.’ Mas agora a minha definição é completamente diferente. Penso que um herói é um indivíduo comum, que encontra força para perseverar e resistir, apesar dos obstáculos [aparentemente] intransponíveis.”

As palavras são de Christopher Reeve, reproduzidas no excecional documentário Super/Man: The Christopher Reeve Story, disponível em streaming no Max. A longa-metragem conta a história do ator e da família, da sua transformação na figura de referência de Super-Homem, em 1977, do acidente no hipismo, em 1995, que o deixou tetraplégico, terminando na fundação que tem hoje o seu nome e da mulher, Dana Reeve, e que é líder mundial na investigação para a recuperação destes casos.

Este é um filme informativo, comovente, por vezes divertido e inspirador. Demonstrativo de como, havendo talento, oportunidade, verdadeira liberdade e força de vontade para muito trabalhar, as pessoas podem ultrapassar as maiores dificuldades.

Há um momento notável no documentário, quando Reeve diz que, nas suas saídas públicas, tem ficado “a conhecer muitas garagens e cozinhas”. Por causa da volumosa cadeira de rodas (que inclui o sistema de ventilação), a única forma que tinha de aceder aos edifícios era pelas entradas de serviço… “E toda a gente ainda me cumprimenta como Super-Homem.” Esta narração é acompanhada por um videoamador, com cozinheiros e auxiliares, carregadores e pessoas da limpeza, aplaudindo o ator paralisado do pescoço para baixo, enquanto é empurrado por uma rampa de estacionamento.

Este espírito de adoração a um herói é muito humano. Mas a forma como cada cultura reage perante a ideia destas figuras varia imenso.

Os norte-americanos tendem a vê-las como algo a aspirar, e a imitar. Por isso, são muitos os cidadãos que correm na direção do perigo em incêndios ou terramotos, por exemplo - é a “síndrome do herói”.

Já os portugueses, tendem a esperar que alguém apareça. Há muitas razões para isso, mas podemos reduzir tudo ao conceito do “sebastianismo”. Uma cultura que não sabe lidar com o falhanço, transformou uma das derrotas mais disparatadas da História num mito de salvação; e fez de um rei jovem frágil e incompetente um mítico Super-Homem que virá resolver todos os problemas.

Em simultâneo, retiramos de cada um a responsabilidade de os resolvermos por nós próprios - mas, tenha atenção, sr. almirante Gouveia e Melo, ficamos depois MUITO desiludidos com quem falha (inevitavelmente) na tarefa.

Mas claro que não existem, na vida real, homens ou mulheres providenciais. Os nossos problemas, só nós mesmos os podemos resolver; ou, pelo menos, lutar até à morte a tentar fazê-lo - como fez Christopher Reeve, um super-homem.

Editor do Diário de Notícias

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