"Marcelo não é carismático é uma espécie de psiquiatra tratador do cavaquismo"

Os candidatos às próximas eleições legislativas são líderes carismáticos? A ciência política e a semiótica dissipam as dúvidas.

"Usamos e abusamos do conceito de carisma." O politólogo José Adelino Maltez refere o hábito de quando alguém é muito bom dizer-se que tem carisma. "Se olharmos para os atuais políticos, não são bons nem maus, são rotineiros. Há hoje uma predominância de políticos quase todos nascidos nas juventudes partidárias, e as escolas das jotas não são bem escolas de carisma..." E acrescenta: "O conceito de carisma, do perfil carismático de Max Weber (1864-1920), vem da ideia do dedo de Deus que toca na cabeça do líder, portanto não me parece que exista em Portugal nenhum político carismático nem sequer a necessidade disso."

Mas há políticos que passam melhor a mensagem que outros. José Adelino Maltez concorda. "Passar a mensagem é diferente de carisma, isso são os departamentos de marketing político a funcionar. O que esta campanha [legislativas] tem demonstrado é que há profissionalismo técnico na mensagem. Os que têm, conseguem. Mas, reforço, isso é técnica não é carisma."

Segundo o politólogo, a formação dos políticos atuais é, sobretudo, obtida pela experiência. "E isso não é mau", refere. "Começamos a não ter exemplos de políticos vindos de fora da experiência política, aliás, os dois principais disputadores das eleições [António Costa (PS) e Rui Rio (PSD)] são ex-autarcas. É um elemento de currículo."

Mas, afinal o que é um líder político carismático? "É muito simples. E numa resposta técnica pode dizer-se que a representação política não é apenas ir ao notário passar uma procuração ao deputado. Há uma representação em determinados líderes que antecipam escolhas coletivas. O líder carismático é alguém que encarne as esperanças coletivas antecipando-se à futura escolha do povo", explica o politólogo.

Sinais de mudança

Mas, à falta ou inexistência de carisma, a personalidade de cada político vai emitindo sinais ao eleitorado. E a semiótica estuda-os. Sónia Marques, semioticista, ajuda a descodificar alguns.

No caso de António Costa, o primeiro-ministro e candidato do PS, "surge em contextos disfóricos (os jornais e os noticiários) em que o negativo ganha prevalência sobre as boas notícias. As páginas de jornal dão destaque aos acidentes, aos maus indicadores económicos, aos conflitos, às frases agressivas, aos desentendimentos e às guerras. E nessas mesmas páginas surge um primeiro-ministro sorridente, conciliador, que utiliza um ângulo otimista sobre a realidade. O contraste com os meios é vincado, dando-lhe a saliência e o capital de diferença. António Costa tem o carisma de quem possui "vida" e um espírito particular", diz.

Avança com outro exemplo. André Silva "é paradoxal". A especialista reitera que o candidato do PAN defende o pluralismo, quer político quer das causas. "Coloca na paisagem política portuguesa novos agentes, como os animais e a natureza. É holístico. O que, no contexto político português, é muito singular.

É singular ao atacar a doxa, os valores instituídos, com novas bandeiras como a luta contra o especismo. E este é um lugar extraordinariamente difícil. Porque alguém solitário, numa comunidade, é facilmente interpretado como uma ameaça pelos demais. Sobre ele irão continuar a cair as maiores críticas e os mais vincados votos de confiança."

E não é só esta novidade na política portuguesa apontada por Sónia Marques. Para a especialista, a política portuguesa está a mudar e constrói-se, hoje, sobre os valores femininos. "Nos últimos anos, a política do país transitou do eixo masculino até ao eixo feminino. Por isso, os candidatos homens, com um discurso masculino, assente sobre a competição e o vigor, como o Rui Rio e o Jerónimo de Sousa, surgem hoje com os valores de sempre. Convicção, rigor, saber, espírito de combate, autoridade e seriedade. São os valores da política masculina e os valores da velha política. A colaboração, a tolerância, a entreajuda, o cuidado com os outros, a harmonia e a compaixão são os novos ingredientes do carisma político, quer para as candidatas quer para os candidatos", diz.

Os outros, cá e lá

Regressamos ao carisma, mas agora fora da campanha para as legislativas. Será Marcelo Rebelo de Sousa carismático? O politólogo José Adelino Maltez reforça a grande experiência política do atual Presidente da República mas sublinha: "Tem muitos anos de comentador político, veio de líder de partido, de deputado. É outro líder nascido da experimentação democrática. Nem o Marcelo é carismático, é o chamado de presidente dos afetos, uma espécie de psiquiatra tratador do cavaquismo. Quando muito é bom psiquiatra."

E lá fora, Obama, Trump? Há carisma do outro lado do Atlântico? "O universo norte-americano é diferente, são líderes político-religiosos com experiência de teologia política, é um universo cultural que em Portugal não se reproduz. Mas se me perguntar qual o último líder carismático que conheci digo que foi João Paulo II e mais nada. É preciso existir numa época de mudança do mundo, e tem de ser uma pessoa que encarna essa mudança e com energia."

E em Portugal, no passado recente, existiram líderes carismáticos? A resposta é positiva. "Os grandes líderes. Como Mário Soares que se antecipou e percebeu que se queria democracia pluralista e Sá Carneiro que percebeu que o país exigia alternância", lembra.

Voltando às eleições legislativas do próximo dia 6 de outubro, o politólogo fala das dificuldades em ultrapassar os campos políticos defendidos pelos diferentes candidatos: "Numa eleição por partidos, ninguém quer sair do seu campo, por isso são quase todos do bloco central porque aí não há uma distinção total de campos. Não vemos um líder de direita a pegar no eleitorado comunista, ou um comunista a pegar no eleitorado conservador. É mais estável", conclui.

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