A bebida é o segredo para o sucesso da humanidade?

O álcool tem sido mais valioso para a sobrevivência da nossa espécie do que poderíamos imaginar

Porque é que os seres humanos bebem? Para a pessoa sentada num bar numa noite quente de verão, a resposta parece simples: beber é um prazer e um alívio. Para o funcionário de saúde pública que lê os relatórios mais recentes sobre a ruína que o álcool representa para a sociedade, a resposta poderá parecer frustrante. Porque é que as pessoas bebem, se isso lhes faz tanto mal?

Para mim, e para os outros psicólogos evolucionistas, a resposta emergiu a uma luz diferente e fascinante graças a uma série de novas pesquisas intrigantes. É ao mesmo tempo simples e complexa. Vejamos porquê.

À semelhança de todos os macacos e símios, os seres humanos são intensamente sociais. Temos um desejo premente de tagarelar e uma perceção de que o álcool ajuda a nossa causa. As amizades protegem-nos das ameaças externas e das tensões internas e isto tem sido crucial para o nosso sucesso evolutivo. Os grupos sociais dos primatas, ao contrário da maioria dos outros animais, baseiam-se na ligação entre si para manter a coerência social. E, no caso dos humanos, é aqui que uma garrafa de vinho tinto partilhada desempenha um papel poderoso.

Tal não se deve apenas ao facto de o álcool levar as pessoas a perderem as suas inibições sociais e a tornarem-se superamistosas com os seus parceiros de bebida. Mais do que isso, o próprio álcool desencadeia o mecanismo cerebral que está intimamente envolvido na formação e manutenção de amizades nos macacos, símios e humanos. Este mecanismo é o sistema das endorfinas. As endorfinas (a palavra é uma contração de "morfina endógena") são neurotransmissores que participam intimamente, através dos seus efeitos de tipo opiáceo, na gestão da dor. Este efeito de tipo opiáceo do está-tudo-bem-com-o-mundo parece ser fundamental para o estabelecimento de relações de ligação que permitem aos indivíduos confiar uns nos outros. Visto a esta luz, beber é uma atividade profunda. Permite aos humanos abrir o seu eu mais profundo, oferecendo uma outra perspetiva do velho ditado in vino veritas.

Entre as muitas atividades sociais que desencadeiam nos humanos o sistema das endorfinas (e que vão do riso ao canto e à dança), o consumo de álcool parece ser uma das mais eficazes. Nas clínicas de desintoxicação, um método de tratamento cada vez mais frequente consiste em ministrar ao viciado um bloqueador de endorfinas como a naltrexona, que bloqueia no cérebro os recetores das endorfinas mas é farmacologicamente neutra, pelo que não se apanha uma bebedeira quando se consome álcool. Em vez disso, fica-se como uma forma moderada de sintoma de abstinência.

Os humanos têm uma longa relação com o álcool que remonta às brumas da pré-história. Arqueólogos como Patrick McGovern, do Museu da Universidade da Pensilvânia, encontraram resíduos de fermentação em recipientes de barro na China com mais de oito mil anos. Entre alguns arqueólogos começa a ganhar força a opinião de que a razão por que os humanos começaram a cultivar cereais como o trigo e a cevada, durante o Neolítico, não foi para fazer pão (como toda a gente presumia anteriormente), mas sim para fazer uma papa que podia ser fermentada. Uma razão para este ponto de vista é que cereais primitivos como a espelta, cultivada no Médio Oriente durante o Neolítico, têm uma estrutura diferente do glúten, tornando mais difícil fazer um bom pão. Fazem, no entanto, uma papa muito boa que fermenta muito bem. Se tivéssemos de escolher entre um pão achatado insípido e pastoso e um copo de cerveja, bom, não hesitaríamos muito, pois não?

Se bem que a inovação realmente grande do Neolítico possa ter sido o fabrico da cerveja e não a agricultura, a exploração dos frutos de fermentação natural pode ter uma história muito mais antiga. Os elefantes, tanto na África Austral como na Índia, têm uma propensão para comer frutos fermentados e ficar bastante atordoados com eles. A primatologista Kim Hockings, da Universidade de Exeter, estudou os chimpanzés africanos que habitualmente roubam o vinho de palma que os camponeses locais deixam a fermentar nas árvores. E Robert Dudley, da Universidade da Califórnia Berkeley, defende na sua hipótese do "macaco bêbedo" que nós partilhamos com os símios uma mutação genética única que data de alguns 12 milhões de anos atrás e que nos permite decompor os álcoois dos frutos excessivamente maduros.

Para os humanos, quando não também para os elefantes, as bebidas fermentadas desempenham um papel central nas festas em todo o mundo - e as festas têm tudo que ver com a amizade. E é provavelmente neste aspeto que o álcool desempenha um papel seminal. Precisamos de amigos porque eles nos ajudam quando precisamos de uma mãozinha, ou quando precisamos de alguém que nos escute com um mínimo de empatia quando temos uma história triste para contar. Mas a amizade, afinal, tem outros benefícios ocultos.

Mais amigos, mais saúde

Uma das maiores surpresas da última década, mais ou menos, tem sido a avalanche de publicações que demonstram que a nossa felicidade, saúde e suscetibilidade à doença - até mesmo a velocidade da nossa recuperação de uma cirurgia e o tempo de vida que temos - são todos influenciados pelo número de amigos que temos.

Se quisermos um exemplo especialmente convincente, um estudo da autoria de Julianne Holt-Lunstad comparou os resultados de 148 estudos feitos a pacientes de ataques cardíacos. O objetivo era determinar qual deles era o que melhor previa a probabilidade de sobreviver nos 12 meses que se seguiam ao primeiro ataque cardíaco. Além de a amostragem incluir um número muito elevado de pessoas, assentava num resultado muito pragmático: sobrevivência ou morte? E qual o melhor indicador? O número e a qualidade dos amigos que tínhamos. Um pouco mais atrás vinha o deixar de fumar (aqui, nada de surpreendente). Depois, bastante mais abaixo em termos de impacto, vinham o exercício físico, a obesidade, o consumo de álcool, a qualidade da alimentação e até a qualidade do ar. Parece que podemos comer, beber e desleixarmo-nos tudo o que quisermos, que isso afetará menos as nossas hipóteses do que o facto de termos bons amigos com quem sair.

A solidão é uma ameaça à saúde no mundo ocidental e o Reino Unido tem até um ministro para se ocupar desse problema. Como resolvê-lo é, evidentemente, um enorme desafio, mas encorajar as pessoas a sair de casa e a socializar à volta de umas cervejas ou de uma garrafa de vinho no pub da aldeia pode ser uma boa maneira de começar.

Se bem que o papel do álcool na preservação das redes de amizades que nos proporcionam apoio psicológico e emocional seja evidentemente crucial, as endorfinas estimuladas por aquilo que nós fazemos com os nossos amigos pode ter os seus próprios benefícios escondidos: aparentemente regulam o sistema imunitário ativando as células T do organismo, as quais fazem parte do mecanismo de defesa que nos dá resistência a muitas doenças comuns.

Já perdi a conta a quantas vezes ex-militares do Reino Unido e dos EUA me disseram que nunca se sentiram tão doentes como depois de regressarem à vida civil. Não porque não estivessem em tão boa forma como quando se encontravam nas forças militares - simplesmente, parecia que estavam sempre a adoecer com tosses e constipações e os detritos da vida quotidiana. Quando lhes mencionava a camaradagem da vida no exército, a ocasional caneca de cerveja e todo o exercício físico na parada, percebiam imediatamente onde é que eu queria chegar. Exercício, álcool e amigos - três boas maneiras de estimular as endorfinas.

Obviamente, como tudo o que é biológico, se nos excedermos no álcool entramos na curva descendente antes sequer de darmos por isso. Mas isto é verdadeiro para tudo o que comemos. Sal, proteínas, gorduras e açúcares são bons para nós, mas se os consumirmos em excesso, seremos atirados sem qualquer cerimónia para as doenças da civilização - diabetes, obesidade, cancros, hipertensão, o que se quiser. O mesmo é verdade em relação ao álcool: poucos copos relaxam-nos e tornam-nos mais sociáveis e até parece que nos fazem bem. Mas quando tomamos o proverbial copo a mais acabamos por pagar um preço.

A demência e o álcool

Isto foi corroborado recentemente de uma maneira bastante simpática por um artigo publicado no British Medical Journal, acerca de um estudo feito entre cerca de nove mil funcionários civis de Whitehall cujos hábitos de bebida e saúde tinham sido observados ao longo de várias décadas até à sua aposentação. Aqueles que não consumiram nenhum álcool quando tinham 40 e 50 anos, juntamente com aqueles que tipicamente consumiram mais do que a orientação governamental oficial de 14 unidades por semana, apresentavam um risco de demência significativamente maior na fase mais tardia da sua vida. Os que não tinham bebido absolutamente nada apresentavam um risco 50% mais elevado de sofrerem de demência do que aqueles que beberam moderadamente e o mesmo risco se aplicava aos grandes bebedores (mais de cerca de 40 unidades por semana). Beber mais de 60 unidades por semana (aproximadamente o equivalente a uma garrafa de vinho por dia) duplicava aquele risco. Com moderação é afinal o mantra, como acontece com todas as coisas biológicas.

Estas conclusões do Whitehall podem ser ainda mais interessantes. O estudo não encarou a amizade como um fator, mas impressiona-me o padrão. As pessoas que bebem moderadamente são em geral bebedores sociais, enquanto os grandes bebedores aumentam o seu consumo porque muitas vezes bebem sozinhos em casa - ou bebem para além daquele ponto em que ainda são capazes de manter os tipos de conversa em que as amizades se baseiam. Pode acontecer que estes resultados reflitam realmente o facto de que o beber socialmente cria redes de amizades e esteja a ser enquadrado numa rede socialmente propícia que protege contra a demência tanto como qualquer outra coisa. Os amigos levam-nos a participar em conversas que mantêm o cérebro a funcionar, além de nos proporcionarem benefícios para a saúde relacionados com as endorfinas. Quando nos encontramos para tomar uma cerveja, conversamos, rimo-nos, contamos histórias e, ocasionalmente, até cantamos e dançamos. Está demonstrado que tudo isto estimula o sistema das endorfinas e, como tal, ajuda o processo da criação de laços sociais assim como o processo de cura.

Na Universidade de Oxford, iniciámos recentemente um conjunto de estudos em colaboração com a Camra (Campaign for Real Ale, organização que promove a verdadeira cerveja e cidra britânicas) destinados a analisar os benefícios dos pubs locais de estilo tradicional em comparação com os bares das zonas da moda que têm vindo a dominar os nossos horizontes sociais nos últimos anos. Uma componente deste estudo foi um inquérito ao nível nacional acerca da utilização dos pubs. De uma forma bem marcante, ficou demonstrado que as pessoas que frequentavam o mesmo pub com maior assiduidade estavam mais envolvidas com a comunidade local e confiavam mais nela e, como consequência, tinham mais amigos do que outros bebedores habituais que não se dirigiam com regularidade ao mesmo lugar. Já aqueles que nunca bebiam apresentavam resultados invariavelmente piores em todos estes critérios.

As refeições, a noite e o fogo

Num outro estudo acerca das refeições feitas socialmente, levado a cabo em conjunto com a organização The Big Lunch, chegámos à conclusão de que comer na companhia de outras pessoas também influenciava positivamente estes mesmos resultados, especialmente se isso fosse feito ao final da tarde. Quando perguntámos que outras coisas aconteceram durante a refeição que pudessem ter produzido estes efeitos, as três coisas mais enumeradas foram o riso, as recordações e - sim, acertaram - o consumo de álcool, três coisas que são bons estimulantes do sistema das endorfinas.

O facto de as refeições da noite, neste estudo, parecerem mais importantes do que o almoço é em si mesmo interessante, porque sugere a existência de algo especialmente mágico nos atos de cariz social feitos à noite e que potencia todos estes efeitos. Pensemos apenas na excitação tão diferente de quando vamos a uma sessão da noite no teatro comparada com a matiné. Pode muito bem ser um resquício que remonta a cerca de 400 mil anos, à época em que o homem dominou pela primeira vez o uso do fogo. Este facto permitiu aos nossos primeiros antepassados mudar para a noite todas as atividades que os uniam socialmente, libertando assim grande parte do dia para a procura de alimentos e outras atividades economicamente essenciais. Acrescente-se a esta mistura alguns frutos em fermentação e...

À luz trémula de uma fogueira, não se pode fazer muita coisa que exija uma visão apurada, como seja coser ou fabricar ferramentas, mas pode-se conversar de um lado das chamas para o outro. Isto é bem ilustrado pelos temas de que os bosquímanos San da África do Sul falam quando estão à volta de uma fogueira. A antropóloga Polly Wiesner escutou as suas conversas e chegou à conclusão de que as diurnas giravam geralmente em torno de aborrecidos temas factuais e discussões de acordos comerciais com os vizinhos, mas que as conversas da noite eram invariavelmente acerca de temas sociais ou incluíam histórias contadas e anedotas.

As amizades funcionam porque nos oferecem "um ombro para chorar" nessa mão-cheia de ocasiões em que o nosso mundo se desmorona. O problema é que, se essas amizades não existirem já previamente, mais ninguém está na disposição de as substituir. Tentem perguntar ao primeiro desconhecido que encontrarem na rua se ele se importa de vos dar um abraço. A resposta mais provável hoje em dia seria um telefonema para a polícia. As amizades têm de ser estabelecidas antes de serem necessárias, para poderem ter alguma utilidade para nós. E isso significa investir muito tempo nelas.

Os nossos estudos sugerem que dedicamos cerca de 40% do nosso tempo social disponível (e a mesma proporção do nosso capital emocional) a um núcleo duro de cerca de cinco ombros-para-chorar. E dedicamos outros 20% às dez pessoas seguintes que são socialmente mais importantes para nós. Por outras palavras, cerca de dois terços do nosso esforço social total é dedicado apenas a 15 pessoas. Trata-se de um compromisso muito substancial e equivale em média a cerca de duas horas por dia. Por isso é tanto mais necessário que o que fazemos com essas pessoas seja divertido, pois caso contrário elas não voltarão mais.

Por isso, se quisermos conhecer o segredo de uma vida longa e feliz, o dinheiro não é a resposta correta. Libertemo-nos da comida do takeaway engolida em frente ao televisor e deitemos no lixo a sanduíche comida à pressa sentados à secretária - o importante é reservarmos tempo para sair com as pessoas que conhecemos e conversar com elas enquanto tomamos uma ou duas cervejas, ou até mesmo aquela garrafa de Prosecco se tiver mesmo de ser. Não há nada como uma noite de convívio à volta de uma caneca de cerveja para nos dar saúde, felicidade e uma sensação de bem-estar.

*Robin Dunbar é professor de Psicologia Evolucionista na Universidade de Oxford e membro da Academia Britânica

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