Recursos de 2017 esgotados. Agora é a crédito no planeta

Os recursos disponíveis na Terra para este ano, dentro do que a natureza pode repor, acabam-se hoje

Hoje, 2 de agosto, a humanidade esgota os recursos do planeta disponíveis para este ano e começa a consumir a crédito. Pode parecer só mais uma data, mas desde que estas contas começaram a ser feitas, em 1970, este é o ano em que se atinge mais cedo o esgotamento dos recursos, para além do que a natureza pode repor, diz a organização internacional Global Footprint Network, que faz as estimativas.

É, portanto, um novo recorde, mas não será o último, se a tendência de antecipação da data, que se tem mantido contínua e persistente desde há quase cinco décadas, não sofrer nenhuma alteração de fundo. Este ano, por exemplo, a data cai seis dias mais cedo em relação ao ano passado, em que o último dia do ano para o planeta chegou a 8 de agosto, ou ainda 11 dias mais cedo do que em 2015, em que essa marca foi atingida a 13 de agosto - e assim sucessivamente. Só nos últimos 10 anos houve uma antecipação em 54 dias desta marca de insustentabilidade para a Terra.

Portugal, cuja atual pegada ecológica corresponde aos recursos de 2,3 planetas - se a humanidade consumisse ao ritmo atual dos portugueses, os recursos esgotar-se-iam a 10 de junho -, é um dos países que não ficam bem neste retrato.

Embora seja o nono país com a pegada mais baixa dos 28 da União Europeia, e esteja muito abaixo de "campeões" como a Austrália, que consome atualmente 5,2 Terras, os Estados Unidos (5), a Rússia (3,4), a Alemanha (3,2), a França (3) e até a Espanha (2,4), Portugal é um contribuinte líquido para a situação de insustentabilidade dos recursos da Terra. E alimentação e a mobilidade, respetivamente com 32% e 18% de peso na pegada ecológica do país, são duas das atividades que por cá mais contribuem para isso, segundo a organização ambientalista Zero.

Mudar políticas e atitudes

Devorar todos os anos mais do que a Terra tem para dar, e cada ano um pouco mais, não é, no entanto, uma situação inelutável. Pelo contrário. Alterar esta tendência insustentável é, não só urgente mas também possível, diz a Global Footprint Network, que faz sugestões para reduzir a exploração e o consumo globais dos recursos.

Por cá, a associação Zero aposta nomeadamente em mudanças na alimentação e na mobilidade, tanto nas políticas públicas como nos comportamentos dos cidadãos, de forma a diminuir a pegada ecológica do país.

"Nas políticas públicas, era importante, por exemplo, fazer um trabalho nas ementas escolares, tanto em termos de formação dos responsáveis como na introdução de uma maior diversidade gastronómica, com mais leguminosas, que são fonte de proteína, e que podem funcionar como um bom substituto da proteína animal", diz Susana Fonseca, da direção da Zero. "Não se trata de substituir completamente a carne pelas leguminosas, mas de equilibrar mais a dieta", sublinha. "Em Portugal consumimos proteína animal a mais, e vegetais e leguminosas a menos, e alterar isso tem ganhos para a saúde e é mais sustentável", explica.

Na mobilidade, as políticas públicas "devem passar por mais apoio aos transportes públicos, e investimento em infraestruturas nas cidades para a mobilidade suave, com pistas para bicicletas e caminhos seguros para peões".

Quanto aos cidadãos, a mudança de comportamentos (comer menos carne, andar mais a pé ou de bicicleta, ou partilhar boleias) "não tem de ser feita toda de uma vez", diz Susana Fonseca. "O ideal é ir estabelecendo metas e depois cumpri-las."

Alimentação

Desperdício. Um terço de toda a produção anual de alimentos (cerca de 1300 milhões de toneladas) é desperdiçada. Contas da Global Footprint Network mostram que se diminuísse para metade esse desperdício, o dia do esgotamento dos recursos no planeta poderia ser atrasado em 11 dias

Transportes

Cidades. O transporte individual (o automóvel) é responsável por 14% da pegada de carbono da humanidade. Reduzi-la passa por medidas que incentivem outros tipos de mobilidade, nomeadamente o uso de transportes coletivos e da bicicleta. A redução em 50% do transporte de automóvel no mundo atrasaria o fim dos recursos do planeta em 11 dias

Igualdade de género

População. O empoderamento da mulheres e das raparigas a nível global contribui para estabilizar a população. Com menos uma criança por família o dia do fim dos recursos seria adiado por um mês.

Energia

Carbono. A diminuição em 50% da pegada carbónica da humanidade teria um ganho de mais 89 dias para a Terra

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