Olhos em Marte e coração na Terra: a lição do cosmonauta Kornienko

Russo recordou em Coimbra os seus 516 dias no espaço. E perspetivou o futuro: há que reunir condições para avançar para Marte
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Houve perguntas para todos os gostos, de "como é que os astronautas tomam banho" ao "impacto que a SpaceX pode ter na conquista do espaço". Mikhail Kornienko, cosmonauta russo que passou 516 dias na Estação Espacial Internacional (incluindo 340 seguidos, a segunda maior estadia de um ser humano), respondeu a todas com bonomia e um toque de humor. A sua palestra de ontem, no Departamento de Física da Universidade de Coimbra, foi uma lição de ecologia ("é muito importante preservar o planeta"). com os olhos no futuro ("a colonização de Marte será real e possível").

Kornienko, de 57 anos, fala com o coração na Terra e os olhos em Marte. A conquista do planeta vermelho é possível - e até urgente, à medida que os humanos deixam degradar o globo terrestre. O cosmonauta não faz previsões temporais, mas aponta o caminho. "Tem de ser um projeto internacional; se as lideranças políticas e todos os povos se unirem será muito mais fácil", disse, ao DN, após a palestra Como Ser Astronauta, realizada no âmbito das iniciativas Escola de Astronautas e Coimbra Space Summer School, do Observatório Geofísico e Astronómico da Universidade de Coimbra e do Instituto Pedro Nunes.

"A longo prazo, a colonização de Marte pode ser essencial", sublinha Mikhail Kornienko. E esse projeto, misto de iniciativa pública e privada, carece da união de todos, até de russos e estado-unidenses, inimigos durante décadas na corrida ao espaço (e não só...). Daí que até a aproximação entre os atuais presidentes da Rússia e dos EUA, Vladimir Putin e Donald Trump, possa ser positiva. "É muito mais produtivo ter relações próximas", admitiu Mikhail Kornienko.

A conversa com o DN, intermediada por uma tradutora, foi breve, após o cosmonauta responder aos pedidos de fotografias e demais solicitações das centenas de pessoas (na maioria adolescentes) que lotaram o auditório conimbricense. A barreira linguística - Kornienko só falou em russo - não afetou a popularidade do cosmonauta, que entre março de 2015 e março de 2016 integrou a missão Um ano no espaço, que estudou os efeitos das viagens espaciais no organismo humano - tendo em vista a preparação de viagens maiores, como as futuras missões a Marte (que devem durar entre dois e três anos).

O banho e a SpaceX: as respostas

Essa missão, realizada na companhia do norte-americano Scott Kelly, e a sua anterior estada na Estação Espacial Internacional (uma expedição russa, em 2010), foram as bases das histórias que Kornienko contou em Coimbra. E, como já se disse, o engenheiro russo respondeu a tudo, das questões práticas dos mais novos às dúvidas teóricas dos mais velhos.

"Como é óbvio, não há banheira [na estação espacial]. A higiene é feita com toalhas húmidas... Ao fim de uma semana, já sonho com um duche e a minha piscina", explicou. Quanto à SpaceX, empresa de transporte espacial fundada por Elon Musk, Mikhail Kornienko entende que o multimilionário norte-americano (fundador da PayPal), "é muito talentoso, tem uma visão futurista e ótimas condições ao seu dispor" mas mostra reservas. "Pode ser o futuro da cosmonáutica comercial mas também há demasiada publicidade em torno do assunto", notou.

Ao longo de hora e meia, o astronauta (cosmonauta é o sinónimo de origem russa, como taikonauta é de raiz chinesa) falou do quotidiano no espaço - "existem sempre coisas para fazer lá em cima, a Estação Espacial Internacional é, no fundo, um laboratório, com muita experiência para realizar" - e das sensações, medos e anseios de quem passa longas temporadas longe do planeta Terra. "O maior desafio é a componente psicológica. É difícil estar tanto tempo num espaço confinado. Por mais banal que possa soar, do que sinto mais falta é do planeta em si, das árvores, da natureza. É um sentimento de saudade completamente diferente olhar para a Terra e saber que não se pode estar lá", descreveu.

Talvez por isso, o sonho recorrente de Mikhail, nas suas temporadas na Estação Espacial Internacional, era "de que podia ir de fim de semana a casa". Na última missão teve de esperar mais 48 semanas, contactando com a família apenas por telefone e internet ("pelo menos uma vez por semana, fazia videoconferência, para ver a minha esposa e o meu neto"). No entanto, apesar do desgaste e das sequelas ("tudo sofre alterações no espaço, eu ainda não estou completamente recuperado das articulações"), o cosmonauta russo gostava de repetir a experiência. "Fui duas vezes e estou apto para uma terceira", reforçou.

Por isso, Kornienko tem os olhos em Marte: "A Terra foi o berço da humanidade mas não podemos estar sempre no berço, como bebés. Para explorar Marte precisamos de outro tipo de tecnologias, que estão a ser desenvolvidas. É importante ir para lá, a colonização será real e possível". Contudo, o coração fica sempre na Terra. "Lá em cima apercebo-me de como o ser humano está a destruir a própria casa, de como falta neve no topo do Kilimanjo e há clareiras enormes na floresta da Amazónia. É muito importante preservar o planeta", concluiu. A lição está dada.

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