O pão que as portuguesas amassam fascinou uma francesa

Mouette Barboff passou 10 anos a descobrir as artesãs que ainda fazem o pão de trigo, de mistura, de centeio, e a broa de milho

A primeira paixão portuguesa, para a francesa Mouette Barboff, foi a Lagoa de Santo André, onde passou férias de verão. A segunda, que dura até hoje, foi o pão caseiro, uma "raridade no resto da Europa", e que ainda é amassado e abençoado por mulheres portuguesas que o fazem para a família. A etnóloga e antropóloga social passou dez anos em Portugal a investigar este alimento feito em quatro comunidades diferentes (o pão de trigo, o de mistura, o de centeio e a broa de milho). Dessa experiência, resultou uma tese de doutoramento e quatro livros. A quarta obra, intitulada "Pão das Mulheres", é apresentada no Dia Internacional da Mulher, 8 de março.

O título levou a DN a perguntar à autora: "O pão não pode ser dos homens?". Bem disposta, Mouette Barboff respondeu: "Também pode. Mas este livro é sobre o pão caseiro e esse é sempre das mulheres."

Mouette aprecia particularmente o pão alentejano, de trigo, tão presente na gastronomia - "nas açordas, migas e ensopados" - mas também "a broa de milho, a ideal para acompanhar a sardinha assada como me diziam as senhoras no Minho".

Há uma explicação para uma cidadã do país da baguette se ter fascinado com esta tradição perpetuada pelas mulheres portuguesas. "Descobri o pão caseiro em Portugal nos anos 80 do século passado. Era coisa que não existia em França há muito tempo. Fiquei encantada e decidi fazer disso o tema da minha tese de doutoramento".

Percebeu rapidamente que, em Portugal, o pão está sempre presente à mesa. "Não é concebível uma refeição sem pão. Isto é muito importante, as pessoas comem ainda muito pão. O consumo em França baixou muito: comíamos quase um quilo por dia, agora comemos 120 gramas, no máximo".

"O pão não faz engordar"

No seu trabalho a antropóloga desconstrói o mito: "O pão não faz engordar. O que faz engordar é tudo o que se come com o pão."

Mouette Barboff passou dez anos em trabalho de campo em quatro comunidades: a cooperativa Estrela Vermelha (já não existe), no Alentejo, criada pelos trabalhadores agrícolas a seguir à Reforma Agrária, onde foi ver como se fazia o pão de trigo; Sabugueiro, na Serra da Estrela, uma comunidade agropastoril onde as mulheres ainda fazem o pão de centeio; Castro Laboreiro e Soajo, no Alto Minho, para o pão de mistura e a broa de milho, respetivamente.

"Amassar o pão tem uma importância grande e algumas mulheres são supersticiosas e têm medo do mau olhado durante o processo", contou a investigadora. "Eu vivia com as pessoas nas aldeias. Fiz tantas viagens... entrei nas cozinhas para acompanhar o processo, para ver tudo, do início ao fim, e fazer fotografias".

Descobriu e surpreendeu-se com vários pormenores. "Não se amassa da mesma maneira o pão de trigo, centeio, o pão de mistura e a broa de milho, por exemplo. Também as palavras mudam: há um vocabulário próprio para cada pão. Por exemplo, no de trigo fala-se no alguidar, no panal, que é o pano que vai cobrir a massa. Depois há ainda as orações ditas pelas mulheres e que mudam em cada uma das regiões, e o processo de cozedura que também varia".

A cruz sobre o pão varia

Até a cruz de Cristo que se faz sobre a massa muda, de região para região. "No Alentejo faz-se a cruz e as cinco chagas do Cristo sobre a massa; em Castro Laboreiro fazem a cruz com a mão dobrada, por cima da massa; no Soajo fazem uma cruz com a ponta do dedo da mão direita".

Mouete Barboff concluiu que, no Norte, as mulheres completam todo o ciclo do pão. "Cultivam o milho e o centeio, é o ciclo completo, dos cereais ao pão. No Alentejo já não se faz isso porque o cultivo foi industrializado há muito tempo".

O livro que escreveu é uma homenagem a estas mulheres: "Nas comunidades que investiguei não valorizam, ou quase nada, o trabalho delas. No Norte, as mulheres vivem sozinhas com as crianças e os pais porque os maridos e os filhos adultos emigram. Têm que cuidar de tudo, das terras, das crianças, dos idosos, e de dar a comer a toda a gente."

No livro, tece algumas considerações sobre Portugal ter deixado de ser autossustentável em trigo: "Em 1986, Portugal tornou-se membro da Comunidade Económica Europeia e teve de conformar-se à Política Agrícola Comum (PAC). O país apenas produz trinta por cento das suas necessidades em trigo, o resto é importado: trigo mole da França e da Alemanha para o fabrico do pão, trigo duro da Espanha e da Inglaterra destinado ao fabrico de massas e biscoitos".

Pão das Mulheres

Mouette Barboff

Âncora Editora

PVP: 28 euros

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