Não vai faltar tamboril em 2016. Pode é não ser português

Portugal vai poder pescar mais lagostim e carapau em 2016, mas menos pescada, tamboril e sardas
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Em 2016, os pescadores portugueses só vão poder pescar 426 toneladas de tamboril, menos 14% do que foi permitido neste ano. Mas isso não quer dizer que o famoso arroz de tamboril possa vir a estar em risco. Não haverá falta deste peixe no país, dizem os armadores, mas nem todo será pescado na nossa costa. Esta é uma ideia que não agrada aos chefes de cozinha portugueses contactados pelo DN, que admitem ter de arranjar outra alternativa para substituir o tamboril nas suas cartas.

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No total, os pescadores nacionais estão autorizados a pescar 63 524 toneladas no próximo ano, mais 11,4% do que em 2015, ano em que foram autorizadas 57 016 toneladas de capturas. Quem sofre mais cortes é a pescada, cuja quota de 4129 toneladas é reduzida em 25%, ainda assim uma percentagem bem inferior à que tinha sido proposta por Bruxelas (61%). "Não é de todo o que o setor queria, mas, atendendo à proposta, o balanço é positivo", diz ao DN Pedro Jorge, presidente da Associação dos Armadores das Pescas Industriais (ADAPI).

Embora a diminuição pedida pela Comissão Europeia para o tamboril fosse de 19%, o governo português conseguiu reduzir essa quebra para os 14%. No entanto, é uma redução que terá impacto, visto que "é um peixe muito valorizado, muito importante para a nossa pesca." Não haverá menos tamboril à venda, "mas lamentavelmente não será pescado por portugueses".

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Apesar de não ter atualmente nenhum prato de tamboril nas suas cartas, o chef Rui Paula considera que a diminuição das quotas é uma má notícia, embora "seja necessária para a sobrevivência das espécies". "Adoro o nosso peixe. Tem uma qualidade, textura e sabor próprios que o tornam diferente", destaca. Na sua opinião, a alternativa "será escolher outro peixe português e da nossa costa para substituir o tamboril".

Já a chef Justa Nobre diz que "o mar dá-nos tantas alternativas que não haverá problema, se estivermos algum tempo sem comer tamboril". É um peixe que faz parte das suas ementas, "mas pode deixar de fazer". Não exclui a hipótese de ter de recorrer ao importado. "No entanto, se for muito caro ou não for de boa qualidade, deixará temporariamente de ser uma opção", explica. Quanto à pescada, "poderá surgir menos vezes na carta". Tem de haver equilíbrio, frisa. "E no mar também."

A quota das sardas também foi reduzida em 15%, tendo passado para as 6791 toneladas. Em sentido contrário, a quota do lagostim subiu 26%, situando-se nas 241 toneladas. "Dá uma janela de esperança. É um recurso caríssimo, muito exportado e vendido em grande quantidade para o mercado espanhol. É um aumento confortável e muito importante", revela o presidente a ADAPI. Relativamente à raia, foram propostos cortes de 10%, mas a quota vai manter-se igual. "É uma vitória. Conseguiu-se que não houvesse redução e ainda passou a ser permitido desembarcar até 40 kg por maré da raia curva, que estava proibida", indica Pedro Jorge.

Relativamente ao bacalhau da Noruega, a quota manter-se-á no mesmo nível em que esteve neste ano, já que a quebra de 14% imposta nas capturas será compensada com a quantidade de verdinho que Portugal vai entregar aos noruegueses como "moeda de troca".

Ministra do Mar satisfeita

Segundo Paulo Jorge, a proposta feita pela União Europeia era bastante "negativa" e teria consequências graves para o setor. "Minimizaram-se os estragos", atira, enaltecendo a atitude da ministra do Mar, Ana Paula Vitorino, que na sexta--feira se reuniu com os responsáveis do setor para debater o assunto. Após 40 horas de negociações, a nova ministra mostrou-se satisfeita com os resultados. Em declarações à TSF, destacou que "a nossa quota é muito superior àquilo que foram as capturas realizadas em Portugal".

Setor artesanal indignado

Para os pescadores da pesca artesanal, o acordo foi, segundo José Luís Silva, "uma completa derrota", que deixou o setor "indignado". "Não conseguimos aumentar as quotas que desejávamos e só aumentámos as capturas nas espécies em que já temos bastante peixe", explica o presidente da Associação de Armadores de Pesca do Norte.

A diminuição da quota de tamboril, adianta José Luís, tem "consequências drásticas para a rentabilidade do setor". De acordo com o representante, são feitos, atualmente, dois meses de defesa à espécie. "Resolvemos dar prioridade para se reproduzirem", reforça. O problema estende-se à pescada. Relativamente ao carapau - cuja quota aumentou 15% - e ao lagostim, por exemplo, "tem valor para a pesca industrial, mas não tem para a artesanal. Só conseguimos espécies que não têm valor para a pesca".

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