Não há candidato que os convença e alguns nem Marcelo conhecem

Marisa Matias, candidata do BE, com 39 anos, é a mais nova de sempre a concorrer a Belém

Podem escolher o presidente da República pela primeira vez, mas não querem ter voto na matéria nestas eleições, nem sequer querem "saber de política". Esta república ainda é para jovens?

São jovens, a maioria estudantes e têm a oportunidade de votar pela primeira vez para eleger o mais alto representante do Estado. Ainda assim, muitos não valorizam a oportunidade de escolher o próximo presidente da República.

A três semanas do ato eleitoral, os debates entre os candidatos já começaram, mas as presidenciais ainda mexem pouco com o país, sobretudo entre os mais jovens são raros os casos de entusiasmo com as eleições. Bem mais frequentes são os casos de desinteresse ou ignorância sobre o tema.

Há pouco quem tenha ouvido falar sobre os dez candidatos e mesmo Marcelo Rebelo de Sousa, uma das figuras mais mediáticas do país, tem dificuldades em ser reconhecido por este eleitorado.

Marcelo, esse desconhecido

Pedro Varandas, 18 anos, estudante da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, não conhece nenhum dos dez candidatos.

"Se Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, lhe aparecer pela frente não o reconhece?", perguntamos-lhe. "Reconheço, sim. Mas nem sabia que ele estava a concorrer às eleições. Não vejo televisão há muito tempo. Leio mais os livros do curso. Sobretudo nesta altura em que estamos em época de exames. Estudamos no mínimo dez horas por dia, desde que acordamos até deitar. Mas também não é por causa dos estudos que tenho menos interesse na política...", justifica este vila-realense, que até votou nas legislativas mas para as presidenciais não irá fazer cerca de 200 quilómetros a ir e vir de Vila Real ao Porto para votar.

A colega de curso Ana Rita Serra, 20 anos, açoriana de Ponta Delgada, também assume que não vota nem tão-pouco se interessa por isso. Tira por momentos os olhos dos calhamaços e interrompe o estudo no Café Académico para disparar: "Nunca votei nem tenho paciência... Nem sequer sei distinguir os partidos nem percebo nada disso. Se fosse votar até acho que estaria a prejudicar, já que o meu voto seria inconsciente."

Sobre os candidatos diz que não conhece nenhum. "Já ouvi falar desse", refere-se a Marcelo. "Só vejo Anatomia à frente." E sobre política acrescenta: "Se as pessoas não têm consciência política nem têm nada que dizer sobre se o país está mal ou bem... eu não voto. Mas também não me queixo. Morar nos Açores e estudar no Porto dificulta. Tinha de ir à junta de freguesia mudar a morada e pedir um comprovativo... Talvez mais tarde venha a interessar-me por isso."

O desinteresse por política é vincado por Pedro Varandas. Em outubro, ele votou pela primeira vez, sem "grande convicção no PSD [na coligação Portugal à Frente]". Agora, quando perguntado sobre se gostaria de ver alguma personalidade no Palácio de Belém, ele responde que nenhuma personalidade o mobilizaria para votar. "É-me indiferente. Os meus pais não gostam de falar sobre política nem me respondem quando pergunto em que partido votaram. Querem que decida por mim. E eu até votaria se estivesse em Vila Real no dia das eleições [24 janeiro]. Na altura, escolheria um candidato."

No grupo de alunos do curso de Medicina que estudam no café mais ninguém quer falar sobre política. Noutro estabelecimento próximo, uma jovem empregada que também está em idade de votar pela primeira vez numas presidenciais também revela que vai engrossar o lote de abstencionistas. E recusa qualquer comentário: "É sobre política? Não tenho nada para dizer. Nem percebo nada disso..."

Não são casos escolhidos a dedo, mas sim exemplos do desinteresse generalizado que a reportagem do DN encontrou ao questionar quem pode votar pela primeira vez no Presidente da República.

Dez candidatos, nenhuma opção

Este desapego em relação à política está também patente nas respostas de João Filipe Pereira, 22 anos, estudante de Biologia que votou pela primeira vez também nas últimas legislativas de outubro e que não irá exercer o seu direito nas presidenciais porque nessa altura estará a fazer Erasmus.

Assume que o seu voto seria por uma questão de popularidade, já que não conhece a esmagadora maioria dos candidatos.

"Votaria no Marcelo, talvez, porque costumo vê-lo como comentador na televisão. Não estou mesmo a par... Não tenho grande opinião sobre política", diz o jovem, que apesar da escolha afasta-se da colega com um esgar quando ela se diz "de direita". Ambos reconhecem que não falam sobre política com os seus grupos de amigos.

Ainda assim, Catarina Barreiros, estudante da Faculdade de Letras de 21 anos, que acompanha João Filipe Pereira, diz-se de direita e do PSD, "por uma questão familiar", mas até hoje só votou nas últimas legislativas.

Apesar do número recorde de dez candidatos que vão concorrer às presidenciais, ela não vai votar por não se rever em nenhum. "Talvez vá lá e vote em branco (...) Gostava que o Santana Lopes tivesse concorrido... Votaria nele se se tivesse candidatado."

O facto de haver pela primeira vez duas mulheres candidatas à Presidência da República também não é apelativo ao voto de Catarina. Pelo contrário, o facto de Maria de Belém e sobretudo Marisa Matias estarem na corrida é um fator que Rita Batista, estudante de Psicologia, valoriza.

"Não é comum haver duas candidatas. Isso pode influenciar o meu voto. Ainda assim, não decidi em quem vou votar", conta esta estudante de 22 anos.

Ao contrário de Catarina, que se diz de direita, Rita confessa-se mais próxima da esquerda, também por influência familiar, e é dos raros casos de jovens que tendo a oportunidade de pela primeira vez votar numas eleições presidenciais asseguram que vão exercer o seu dever cívico e votar no próximo dia 24.

"Votei nas autárquicas em 2013 e nas legislativas de 2015 e seguramente vou voltar a fazê-lo agora nas presidenciais. Ainda assim, não conheço bem a maioria dos candidatos. O Marcelo é o que mais amigos meus conhecem, mas até às eleições vou seguramente ouvir mais a mensagem de todos os outros. Geralmente, até voto mais pelo partido do que pelas pessoas, mas reconheço que estas eleições são diferentes", declara Rita, um raro exemplo de algum interesse nas eleições presidenciais entre quem foi aleatoriamente inquirido.

Ao longo dos últimos meses, houve centenas de jovens a envolverem-se nas respetivas candidaturas, que têm promovido ações em universidades e dedicadas a este tipo de eleitorado.

A presença de jovens é bem visível na candidatura de Sampaio da Nóvoa, ex-reitor da Universidade de Lisboa, através das iniciativas eleitorais ou da gestão das redes sociais.

Ainda assim, o objetivo desta reportagem do DN era sobretudo "medir o pulso" de forma aleatória a quem pode pela primeira vez votar nas presidenciais. E a ideia que fica é de que esta República não é para jovens eleitores.

O resultado é, no mínimo, desanimador para a democracia. Aqui estará seguramente uma das explicações para uma possível taxa de abstenção elevada nas eleições de dia 24.

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