Cinco lições de Trump

Na primeira viagem internacional de Trump, os seus assessores foram pressurosos em transmitir a mensagem de que o presidente está a aprender depressa. O lugar do mundo em que o fenómeno Trump causa maior espanto e angústia coincide, sem dúvida, com a pequena área de Washington onde se concentram a Casa Branca, o Capitólio e o Supremo Tribunal. Contudo, no resto do mundo não há tempo para ficar à espera que Trump seja reeducado ou destituído. Em vez de sermos os seus tutores ineficazes, talvez o melhor exercício a fazer seja o inverso: elencar as lições que o fenómeno Trump nos pode ensinar. Na sua caricatural desmesura, ele dá-nos a ver aquilo que já Jean Monnet lamentava nas suas Memórias; um dos problemas dos atores políticos de primeira grandeza (Monnet pensava no general De Gaulle) reside no excessivo tempo que investem na promoção, mais ou menos narcísica, das suas pessoas, por comparação com o reduzido empenho no estudo e compreensão das ameaças que caberia à política neutralizar. A segunda lição consiste no assustador contraste entre a velocidade de transformação do mundo real e a sonolenta repetição de clichés por parte do discurso político. A linguagem do mundo da vida é digital. A política, inversamente, continua a ser toscamente analógica. Nos mercados, nos laboratórios, nas tecnologias, o mérito e o engenho, a capacidade de ver longe e globalmente são recompensados. Na política, pelo contrário, é possível dizer disparates e absurdos sem a imediata punição duma gargalhada geral. O nacionalismo demencial, em completa contramão com o mundo factual, que se espalhou por quase toda a parte, chegando ao governo na Hungria, na Polónia, em Manila ou em Washington (lembram-se do tolo muro contra o México?) surpreende pelo perigoso escândalo de vermos a indigência intelectual e a miséria moral a serem premiadas nas urnas. A terceira lição de Trump reside na inquietante confirmação de que a história tende a repetir-se, não nos detalhes, mas no seu software fundamental. A tempestade financeira de 2008 repetiu o crash de 1929. Em ambos os casos, a desregulação do setor financeiro conduziu a uma dolorosa rutura no modelo de globalização, e até ao conflito mundial no caso de 1929. O nacionalismo febril que se instalou em Roma, Berlim ou Tóquio antes de 1939 não teria sido possível sem os sofrimentos infligidos às populações por um capitalismo em roda-livre. Se a ignorância flagrante de Trump em relação ao mundo exterior a Nova Iorque ou Atlantic City assusta, a verdade é que a sua ascensão foi preparada pelos diligentes esforços de todos aqueles, como Reagan, Blair, Schröder e Clinton, que tudo fizeram para sabotar o dispositivo regulatório montado por F.D. Roosevelt para defender a sociedade das piores facetas do capitalismo financeiro. A quarta lição de Trump mostra-nos que a esfera política, de onde deveria surgir a salvação para os perigos do mundo, tornou-se, pelo contrário, fonte de mais desordem e entropia. Mais do que nunca, para disciplinar a força do capitalismo e do mercado mundial precisaríamos de instituições globais de regulação e cooperação compulsória entre Estados, e não de egoísmos estratégicos que só poderão conduzir a catástrofes. Mas a maior lição de Trump foi aquela bem resumida pela chanceler Merkel: no grande inverno do mundo, a Europa só terá o futuro que souber conquistar com as próprias mãos. Se isso ajudar a UE a sair da sua patológica menoridade, então talvez a história europeia acabe por registar Trump como uma imperdível oportunidade.

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