O moralismo vai derrubar o governo do PS?

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O governo, o ministro das Finanças ou o seu secretário de Estado podem cair por causa das broncas na Caixa Geral de Depósitos? Depende.

O principal problema político do governo PS, neste momento, não é o estado da economia, não são as críticas da oposição, não é a saúde do sistema financeiro, não é o valor das pensões, não é o desemprego, não é a solidez dos apoios parlamentares do Bloco e do PCP, não são os paternalismos do Presidente da República. É o moralismo.

O moralismo, aliás, é também o principal problema de muitos governos ocidentais. As votações que permitiram a eleição de Donald Trump, o referendo favorável ao brexit, a ascensão do Syriza na Grécia, o despotismo do governo húngaro, a força do Movimento Cinco Estrelas em Itália ou a popularidade de Marine Le Pen em França cruzam razões ligadas à crise económica, à imigração, à falta de trabalho, a surtos xenófobos ou racistas, ao medo do terrorismo islâmico.

Acontece, porém, que estes problemas não se registam simultaneamente e da mesma forma em todos estes países. O problema verdadeiramente comum a todos estes países é a exigência crescente de uma espécie de lavagem moral da classe política dominante.

É a vontade de correr com os poderosos do costume, associados a uma espécie de corrupção globalizada e institucionalizada, que está a determinar as tendências eleitorais. Há uma onda moralista que exige dos políticos tradicionais que se afastem ou que se transformem em virgens pudicas. Se não o fizerem, grande parte do eleitorado prefere pôr na cadeira do poder um bandido qualquer, desde que não seja do grupo dos bandidos do costume.

Por cá isso também afeta cada vez mais os partidos que, até há um ano, governaram Portugal e que, por exemplo, nos últimos 25 anos ocuparam com boys 62 cargos de administração na Caixa Geral de Depósitos do total de 102 que, ao longo desse tempo, o banco criou (21 cargos foram ocupados por militantes do PS, 37 do PSD, quatro do CDS-PP e 40 sem filiação partidária).

Depois do caso José Sócrates, o PS deveria ser particularmente cuidadoso com os efeitos desta onda moralista. O apoio do Bloco e do PCP - que ao terem estado décadas fora do "arco da governação" não sofrem, no mesmo grau, da mesma censura moral que os outros partidos - reverteu a erosão do PS, mas episódios como os dos bilhetes de futebol dados pela Galp a governantes, as falsas licenciaturas ou, agora, a negociata para esconder rendimentos pessoais dos gestores do banco público voltam a colocar, aos olhos da cada vez maior multidão moralista, o partido de António Costa sob suspeita ética. Isso, hoje em dia, mata mais politicamente do que a pura incompetência ou do que o pior desastre financeiro.

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