O que se disse sobre o que disse e não disse Marcelo

Da "longa", "extensa", "grande" entrevista que o Presidente da República deu ao Diário de Notícias muito se disse sobre o que ele quis dizer. Faz parte, aos comentadores pede-se que analisem os efeitos do que Marcelo Rebelo de Sousa diz a cada momento. Mais ainda se o Presidente da República se disponibiliza para estar duas horas à conversa com um jornalista e se o jornal entende que não deve reduzir essa conversa a cinco ou seis páginas (o equivalente a pouco mais de meia hora de conversa), deitando fora parte substancial, a começar pelo contexto que o entrevistado decide fazer nas respostas que dá às perguntas que lhe são feitas. É uma questão de respeito, pelo entrevistado e pelos leitores. Bem sei que vivemos no mundo do sound bite e que isso seria suficiente para produzir comentários. A esse respeito, até uma ou duas páginas bastavam.

Terceiro-mundista não é, como sugeriu Miguel Sousa Tavares na SIC, dar tanto espaço a uma entrevista. Terceiro-mundista é não incomodar um Presidente da República com os temas que lhe são desconfortáveis. No Terceiro Mundo não se começa a entrevista confrontando o Presidente com a difícil relação que ele mantém com uma parte do eleitorado de centro-direita que o elegeu e que não se sente representado; nem se lhe pede uma explicação para a pressa com que sentenciou que, em Pedrógão Grande, "o que se fez foi o máximo que se podia fazer"; nem se diz ao Comandante Supremo das Forças Armadas que "em Tancos, em matéria de responsabilidade é igual a nada", questionando-o se "tinha de ser assim?"; nem se põem muitas outras questões que foram feitas ao Presidente da República. Tendo sido eu o entrevistador e sendo eu o diretor do DN, posso e devo ser avaliado pelas perguntas que fiz, sendo certo que sei que ficaram muitas perguntas por fazer, mas aí tínhamos um problema sério: como as perguntas são como as cerejas, 16 páginas de especial não chegavam, eram precisas 32, 48, 64...

Foi um tema interessante de análise para vários comentadores, mas não foi apenas a extensão da entrevista que deu que falar. O significado das palavras do Presidente da República também gerou polémica. Para o "politólogo" Francisco Louçã tudo se resume a "quem vive na esfera da publicidade e se entusiasma com nada" e quem "percebe a dessintonia entre esses dois mundos" e "tem na mão a chave da política". A Louçã, no mundo genial em que vive, faltou-lhe a capacidade para perceber o que ele próprio afirma no final do primeiro parágrafo do texto que escreveu ontem no Público: "Nenhuma [das interpretações] vai assegurar uma interpretação consensual." Por exemplo, Vítor Costa, no Público, pode ter razão quando diz que Marcelo, de tanto falar, está "perdido no seu labirinto", e eu, modestamente o digo, posso ter alguma razão ao afirmar que "o Presidente não vai passar a ser uma força de bloqueio, mas avisa o governo de que não aceita ver o seu fato presidencial salpicado" com os casos de Pedrógão e Tancos, sem que isso signifique que estou a puxar "pelos galões da interpretação mediana [de Marques Mendes]", como diz Louçã, porque o comentador da SIC considerou que Marcelo mostrou em relação ao governo "subtil distanciamento".

Para que o "politólogo" não se perdesse em determinismos, bastava ler a minha crónica até ao fim e ficaria a saber que eu considero que "o que o Presidente verdadeiramente quer é estabilidade". O "entrevistador" não quer, portanto, dar à entrevista mais valor do que ela tem e até consegue ver que, no essencial, está tudo como dantes no quartel-general de Abrantes.

Sim, eu sei que pode ser uma chatice ler uma entrevista tão "grande", tão "extensa", tão "longa". Por isso, decidimos parti-la em nove partes, para que cada um dos interessados pudesse ler, apenas, o que lhe interessava ou, tendo de a ler toda, começasse e avançasse por onde lhe apetecesse. Descontem lá, por favor, esse quid pro quo do número de páginas pelo qual sou o único responsável. Ficam aqui algumas, apenas algumas, das frases que resultam desta entrevista. Avaliem!

1 - "Admito que algum eleitorado de centro-direita esperava a dissolução do Parlamento em abril, ou que periodicamente pensa que esse é o caminho que se impõem, mas [esse eleitorado] tem de compreender que a prioridade nacional é de natureza económica e financeira e essa exige estabilidade política".

2 - "Tem de haver permanentemente uma preocupação de finanças sãs. Não apenas pelo cumprimento de certos imperativos europeus, mas também por uma questão de conquista cívica."

3 - "Seria bom para o país que não houvesse a introdução de fatores críticos do ponto de vista político, mas como imagina não depende do Presidente da República. A palavra final pertence aos partidos. Os partidos que fazem parte da área de governo têm de decidir em cada momento ao longo da legislatura se querem ou não durar até ao fim da legislatura."

E sobre Tancos e Pedrógão, os temas em que Marcelo se quer distanciar claramente da atuação do governo e dos partidos que o apoiam no Parlamento:

4 - "É grave. Não desdramatizo, é grave". E acrescenta: "Se há responsabilidades, tem de haver responsáveis."

Sim, a entrevista do Presidente da República permite que se diga tudo e o seu contrário. Mas a culpa não é dele, é de quem só consegue ver importância naquilo que for inteiramente novidade, verdadeiramente polémico. Não, Marcelo não vai fazer cair o governo. Podem continuar de férias.

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