Ciganos - um território movediço

No tempo em que os animais falavam tive uma outra vida, ligada ao municipalismo. Essa vida deu-me a oportunidade de testemunhar como o racismo mais puro e mais duro era um comportamento transversal a todos os partidos, do CDS ao PS (o PCP não se pronunciava e o BE não existia).

Esse campo de batalha era Cascais. O concelho estava - ainda hoje está, mas menos - rigorosamente partido ao meio: um litoral turístico, elitista, muito de direita e saudosista dos tempos em que Portugal era do Minho a Timor; e um interior pobre, proletário, multiétnico, onde se multiplicaram os bairros de génese ilegal. Os do interior trabalhavam para os do litoral e para outros concelhos, e essa população foi crescendo a ponto de a certa altura já existirem bairros de lata no litoral.

Aí, os políticos do concelho começaram a perder a cabeça. Ouvi pessoas do PS dizer que por elas punham os bulldozers a arrasar os bairros de lata, sem aviso prévio, estivessem ou não pessoas nas barracas. Isto sem evidentemente cuidarem de saber que aquela gente toda tinha ido viver para Cascais não por causa dos gelados Santini mas porque a construção civil dava emprego a toda a mão-de-obra barata (negra, portanto) que pudesse agarrar. O racismo era isto: os brancos, upstairs, no litoral; os negros, downstairs, no interior. Na Familia Bellamy (para quem não sabe, uma espécie de Downton Abbey com 30 anos de antecedência), que víamos na RTP, em família e cheios de nostalgia do império, era mais ou menos a mesma coisa (mas só entre brancos).

Eu pensava, sinceramente, que isto com o tempo iria passando. Que o racismo iria perdendo força à medida que se fossem curando os traumas da descolonização. Que era uma questão de substituição de gerações. Mas, pelos vistos, não. Pelas últimas notícias, o trumpismo está para lavar e durar (e não é só nas caixas de comentários da internet).

Dito isto, atiro-me de cabeça para um território completamente movediço: os ciganos. Ontem, um candidato do PSD-CDS a Loures disse umas cretinices. Cretinices porque atribuiu a uma etnia por grosso e atacado comportamentos desonestos como se fosse tudo farinha do mesmo saco. Agora todos sabemos - pessoalmente já o testemunhei - que muitas vezes quem faz menos para ajudar a etnia são membros dessa mesma etnia, comportando-se como se apenas as suas regras tradicionais existissem, sem um país e as respetivas leis em redor. Foco-me num único ponto: será que as associações antirracismo se mobilizam pelo problema da condição sub-humana a que são sujeitas muitas raparigas/mulheres ciganas? Se sim, muito bem. Se não, do que estão à espera?

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