Até apetece defender o Trump

A jornalista Clare Hollingworth morreu nesta terça-feira, aos 105, uma coincidência se relacionarmos o seu desaparecimento com a estranha notícia ocorrida no mesmo dia. Clare teve uma carreira de 80 anos e foi ela quem alertou o mundo para o começo da II Guerra Mundial. Vinda da Polónia, ela entrou na Alemanha pela fronteira da Alta Silésia. Viu mil tanques camuflados entre as árvores, contou 65 sidecars com mensageiros apressados e nas ruas só havia viaturas militares. Mandou a notícia para o seu jornal, o inglês The Daily Telegraph. Podia ter anunciado: "Começou a guerra!!!" Mas não, ela limitou-se a anunciar os números que descrevi. E, de facto, a guerra só começou três dias depois, a 1 de setembro de 1939, quando o primeiro tanque alemão derrubou uma cancela e invadiu a Polónia. Talvez o episódio protagonizado por Clare Hollingworth tenha sido o píncaro de um período de jornalismo de factos. Que agora se encerrou, exatamente no dia da sua morte. Nesta terça-feira, um site de notícias, o BuzzFeed (e a CNN seguiu-o), revelou um explosivo dossiê acerca de Trump, com dados sobre a chantagem que os russos fazem ao presidente eleito americano. Na apresentação, o BuzzFeed avisou que 1) a notícia tinha erros, 2) ela não tinha sido confirmada e 3) muito dela nunca poderia vir a ser confirmada. Se é para dar cabo de Trump, para mim, basta olhar para a cara do palhaço. Se de caminho também se acaba com o jornalismo, lamento.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub