"Se somos racistas volta para a tua terra"

Pode o país que dá nacionalidade a descendentes de judeus expulsos há 500 anos e institui quotas para mulheres negar a necessidade de políticas específicas para afrodescendentes?

"Portugal é europeu e branco, quer gostem quer não gostem, e não há mal nenhum nisso tal como não há em os países africanos serem dos negros. Cada um fique na sua terra ou numa cultura semelhante e acabam-se logo os problemas e esta treta do racismo que só serve para alimentar um sistema de vitimização." (Adolfo Dias)

"O preto é o maior racista, gosta de se sentir vítima de tudo." (António Loureiro)

"Portugal devia tratar os africanos da mesma forma que estes tratam os portugueses. Acreditem, viveriam muito menos pretos no nosso país, e já não se levantavam estes "problemas" rácicos inventados pelos pretos." (Alberto Pablo)

"Rumaram ao país por sua vontade ou vontade dos pais, fazem parte de um grupo em explosão demográfica (...) e agora lutam por quotas na forma de leis que discriminam o grupo étnico base, grupo esse que está em declínio demográfico. Isto é genocídio (...) Estes assassinos até os livros de história querem mudar (...)" (Henrique Vila)

"Parece-me que já chega desta palhaçada de se aproveitarem dos brancos, tentando-os [sic] se sentir culpados por algo que [sic] não têm culpa, se querem obter mais cargos, estudem ou obtenham-no por mérito, não com estes jogos sujos." (Rúben Gouveia)

"Sendo certo que haja situações desagradáveis, injustas... Se estão mal, por que não se vão embora?" (Miguel Martel Lima)

"Se há Racismos há uma coisa a fazer voltarem. Porque quem não se sente não é filho de boa gente...." (Lídia Pinto Soares Sampilo)

"Portugal é tão calminho, que para agitar isto teremos de inventar Racismos e Xenofobias." (Francisco Vicente)

Podemos, claro, ler estes comentários à reportagem "É preciso descolonizar Portugal", publicada no DN a 13 de Junho, sobre a experiência dos afrodescendentes no país e a sua denúncia do racismo institucional, e sorrir com a contradição que encerram: os comentadores falam dos negros portugueses como estrangeiros, corpos estranhos no país, enquanto negam a existência de racismo e acusam as vítimas de se vitimizarem. Subjacente a este basismo raivoso está, porém, uma ideia muito séria: a de que estas pessoas receiam perder o privilégio que é sentirem-se "brancas" num "país de brancos". Temem a hipótese de medidas de discriminação positiva, "reparadoras" de uma injustiça que se recusam a reconhecer enquanto a vocalizam e defendem.

Ora essa atitude está longe de se resumir aos maluquinhos das caixas de comentários. É ver por exemplo o debate que tem decorrido nos jornais na sequência das declarações do PR no antigo entreposto de escravos de Gorée, no Senegal: surgiram vozes a refutar a ideia de uma dívida histórica do país para com os descendentes dos povos que escravizou e traficou e alertando para que esse reconhecimento pode conduzir a compensações (em dinheiro) às antigas colónias.

Naturalmente, o que está em causa não é fazer "reparações" aos países de onde vieram os escravos mas reconhecer que uma realidade de subjugação e negação de direitos que persistiu até à segunda metade do século passado - o Estatuto do Indígena, lei que recusava cidadania aos negros, foi revogado em 1961 - não se esvai por magia. E que é preciso agir para lhe combater os efeitos e a persistência. Como, aliás, se faz em relação a outros grupos.

Pode um país no qual em 2015 se legislou no sentido de conferir nacionalidade aos que provem ser descendentes dos judeus expulsos no século XVI (há 500 anos) alegar que a escravatura (abolida formalmente em 1869) e o trabalho forçado, prolongamento da escravatura que persistiu até às décadas 1960/70, "foram há muito tempo" e portanto não há nada para reconhecer e reparar? Pode o país que instituiu quotas de género nas listas eleitorais em 2006 e acaba de o fazer na administração das empresas cotadas, fundamentando essa posição na discriminação histórica e ainda existente, malgrado a igualdade certificada na lei, das mulheres, alegar que com negros e ciganos não se justifica discriminação positiva e que as coisas "vão lá" por si?

Deve ser óbvio que não, e que não devia ser preciso a ONU, por via do seu Comité para a Eliminação da Discriminação Racial, censurar Portugal, em dezembro de 2016, pela não existência de políticas direcionadas para combater a discriminação dos afrodescendentes, frisando que estes "se mantêm invisíveis nos setores mais importantes da sociedade." Que é uma vergonha nacional haver apenas um deputado negro no Parlamento e uma pivô negra nas TV; que só em 2015, com 39 anos de democracia, fosse nomeada uma ministra negra; não existir um único presidente de câmara negro e se passem meses a ver TV e a ler jornais sem ouvir ou ler um comentador negro. Que no terceiro ano da década dos afrodescendentes (2015/24), decretada pela ONU para que países com um passado colonialista, como o nosso, enfrentem a sua história, não haja uma única iniciativa do Estado nesse sentido. Que um país que enche o peito com a "gesta dos descobrimentos" faça de conta que "os mundos que deu ao mundo" ficaram à porta ou os mande "de volta à terra deles".

Não: os negros portugueses são portugueses negros; são portugueses. Não vão para lado nenhum. É o racismo que temos de escorraçar, e é tempo de partidos, governo e PR acordarem para este combate.

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