Confiar na natureza

A primeira vez que ouvi a palavra paneleiro tinha uns seis ou sete anos. Brincava com os meus primos e um deles, da minha idade, queria ser o cozinheiro. As irmãs mais velhas riram-se: "Queres brincar com as panelas, és paneleiro." Achei cómico e ri-me também. Quando partilhei a piada com os meus pais, proibiram-me de a repetir, sem explicar. Foi a minha irmã, com mais sete anos, que ma traduziu. Sucedeu há mais de quatro décadas; gostava que hoje fosse impossível um miúdo ou uma miúda ser insultado ou sentir que a sua identidade sexual se define em função dos brinquedos que prefere.

Mas não. Quando nesta semana o DN revelou que a McDonald"s Portugal admitia discriminação de género nos brinquedos oferecidos nas refeições para crianças, prometendo deixar de a fazer, ou seja, dar às crianças liberdade de escolher sem lhes impor o espartilho do "brinquedo de menina" e "de menino" (como é política da empresa nos EUA desde 2014), houve quem se escandalizasse, não com a discriminação mas com a decisão da empresa - e a lembrança de a questionar.

A objeção mais popular é aliás de que não há discriminação alguma. Porque, alegam, "há mesmo brinquedos de menina e menino". E como fundamentam a asserção? Com argumentos tão sofisticados como "sempre houve"; "toda a gente sabe" e - ajunta o meu amigo João Miguel Tavares, ontem no Público: "Também há roupas de homem e de mulher e casas de banho separadas." E lamenta: "O mundo ocidental está a ser tomado por uma fúria normativa que começa a meter medo." Portanto, brinquedos para ele e brinquedos para ela não é normativo; a liberdade é que é, e assusta horrores, como se lê no Facebook do deputado Miguel Morgado, apontado como ideólogo de Passos: deixar as crianças escolher, como defende a secretária de Estado da Igualdade, citada no DN, faz parte de "uma agenda ideológica que visa o fim da família".

Ena pá. Portanto, malgrado vociferar-se que o tema é "ridículo", há quem ache que se deixamos os miúdos escolher bonecas ou carrinhos sem assinalar a que sexo "pertencem" é o armagedão (às tantas a Arábia Saudita proibir as mulheres de ter carta faz sentido). Mas oiçamos o João Miguel: "Há uma predisposição genética que empurra as miúdas para a ligação às bonecas e é estúpido negá-lo." Sim, que estupidez. Alguma vez os miúdos gostam de "bonecas"? Action Man, Super-Homem, Homem-Aranha e peluches sortidos não são "bonecas"; são "bonecos" - completamente diferente. Diz JMT que observou a tal "predisposição" nos filhos e há estudos a "provar" que também as macacas preferem "bonecas" (e os macacos carrinhos, sério?).

OK. Admitamos então que o meu primo tinha um problema genético (tal como eu, que gostava de carrinhos embora também, hélas, de bonecas. E bonecos). Mas, a ser assim, se a natureza enfiou um catálogo de brinquedos, rosa para elas e azul para eles, no genoma, qual o problema da liberdade de escolha? Têm medo de quê?

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular