Estado de desgraça

A tragédia de Pedrógão Grande e o assalto aos paióis em Tancos são dois casos completamente diferentes, apenas com uma semelhança: o falhanço do Estado. E não, não é preciso esperar pela investigação da Polícia Judiciária ou pelas conclusões da comissão independente - que nunca mais ata nem desata - para chegar a esta conclusão. O Estado falhou e só tem duas coisas a fazer: assumir as suas responsabilidades e fazer tudo para não voltar a falhar.

Há uma velha e triste tradição em Portugal, sempre que se chega à conclusão de que o Estado falhou. Primeiro, lamenta-se: é ver os BMW do governo voar até ao "local do crime" com secretários de Estado, ministros e primeiros-ministros de ar consternado, a inteirarem-se da situação. Quando chegam aos microfones, nunca sabem nada, lamentam tudo e prometem mais ainda.

A segunda fase é da relativização: também não foi assim tão grave. Já houve situações piores e há coisas que o Estado não pode evitar. Um fenómeno meteorológico, por exemplo. Quem o pode travar? Mas morreram 64 pessoas! Pois sim, mas o que podíamos nós fazer para evitar isso? Um assalto a material militar nas instalações do próprio exército? Acontece em todo o lado. São mercenários que ganham a vida a roubar material de guerra.

Quando a sociedade começa a inquietar-se com a falta de respostas, promete-se averiguar tudo até às últimas consequências. E, nisso, todos estão de acordo. Investigue-se! Criem-se as comissões que forem precisas, mas o país precisa de saber se e onde falhou o Estado.

Pelo caminho, pede-se responsabilidades políticas e, em tempos, a estratégia era muito simples deste ponto de vista: demitia-se o ministro e ficava-se à espera que fosse suficiente para serenar os ânimos. Às vezes resultava, outras nem por isso. E foi quando se começou a perceber que a demissão de um ministro, por si só, não resolvia os problemas, que se começou a aplicar a velha estratégia do "empurra com a barriga".

É isso que António Costa está a fazer. O tempo, neste caso, pode mesmo ser o melhor conselheiro e, quer no caso de Pedrógão, quer no caso de Tancos, investigar, estudar, apurar e perguntar são tudo verbos que ajudam a ganhar tempo. Demitir os ministros não apaga nada e torna ainda mais evidente a inabilidade política desses ministros.

Algumas das pastas mais relevantes do governo têm ministros politicamente inábeis ou sem peso político. Na educação, na justiça, na administração interna e na defesa estas fragilidades tornam-se ainda mais evidentes sempre que há um problema. Por melhores técnicos que sejam, gerir funções do Estado tão importantes como estas implica capacidade política e autoridade. Aquilo a que assistimos nas últimas semanas, quer no caso de Pedrógão quer no de Tancos, foi a dois ministros completamente desorientados, a cumprir ordens do primeiro-ministro, do Presidente da República e dos assessores de imprensa, sem a menor noção do que fazer.

No caso de Tancos, humilham-se os subalternos enquanto o general Chefe do Estado-Maior do Exército se diz humilhado com o que aconteceu. Humilhado, mas firme e hirto no seu posto. Tal como o ministro. No caso de Pedrógão Grande, continua o jogo do passa-culpas, tocam-se uns requiens com a presença do Presidente da República, mas continua-se sem dar resposta à pergunta mais importante: aquelas 64 pessoas tinham que morrer? Tinham, senhora ministra?

Talvez um dia encontremos resposta a esta pergunta. Talvez um dia consigamos compreender como o exército não consegue guardar armamento de guerra. Talvez. Até lá, uma conclusão parece evidente: independentemente dos culpados, responsáveis políticos ou outros, o Estado falhou. E isso devia ser motivo mais que suficiente para os guardiões do Estado assumirem a sua quota parte de responsabilidade.

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