Livro das férias

1Não é meu hábito recomendar listas de livros para férias, pois não tenho apetência para condicionar gostos, sobretudo nessa época. Mas tenho a convicção sem hesitações de que é essencial ler livros. Como me dizia em pequenino a minha mãe, "quem quer saber, andar e ler" livros. Porque é que considero tão importante ler livros? Porque um bom livro tem uma estrutura fundamental: uma introdução que anuncia as questões a tratar, o tratamento dessas questões, argumentando, e uma conclusão. E é preciso dialogar com ele, ir, voltar, ler outra vez, concordar, discordar, sempre com razões... E, como dizia Platão no que aos seus diálogos se refere, inicia-se com reticências, porque nunca se começa no zero, no nada, já que há sempre pressupostos, e termina-se com reticências, já que nada está definitivamente acabado, será preciso retomar o diálogo: "Ha- vemos de continuar..."

Hoje não se lê? Lê e muito. Mas não livros. O que se lê e escreve tem a ver sobretudo com comentários, comentários de comentários, tudo muito fragmentado e no quadro do "achismo" (quase toda a gente acha que... sobre tudo, mesmo desconhecendo completamente a matéria; quase todos se pronunciam sobre tudo, mesmo sem a mínima ideia da complexidade das questões). Com as novas tecnologias, a ignorância pode triunfar, pois, como advertiu Umberto Eco, as redes sociais dão voz a uma "legião de imbecis".

2Um dos meus livros para uns breves dias de férias foi, de Celso Alcaína, Roma Veduta. Monseñor Se Desnuda. Está-se a ver, subentendido, o velho dito: "Roma veduta, fede perduta" (quem vai e vê Roma perde a fé).

Após a ordenação sacerdotal e grande currículo académico, com doutoramentos em Teologia e Estudos Bíblicos, Alcaína passou oito anos (1967-1975) a trabalhar na Congregação para a Doutrina da Fé. O papa era então Paulo VI. O livro, com os seus contactos, o que viu e ouviu, são as suas impressões críticas desses anos. Ficam aí apenas algumas pinceladas da minha leitura.

2. 1. Não posso deixar de sublinhar o que se refere aos processos de teólogos como Bernhard Häring, Marc Oraison, Charles Curran, Xavier Léon Dufour, E. Schillebeeckx, Hans Küng, Leonardo Boff, Casiano Floristán... Por exemplo, Häring, que enfrentou a velha moral, sempre aberto a conceder os sacramentos aos divorciados recasados e que nunca aceitou o princípio da condenação dos métodos anticonceptivos, defendendo a "paternidade responsável", disse depois ele próprio a Alcaína que "preferia encontrar-se frente a um tribunal de Hitler a encontrar-se outra vez no Palácio do Santo Ofício". Já convalescente de uma doença grave, foi visitado por um funcionário do Vaticano: "Convidou-me a apresentar-me de novo perante o Santo Ofício para um encontro amistoso. O que se me pedia era uma declaração servil de que no futuro me absteria de qualquer tipo de crítica aos documentos da Congregação, o que recusei terminantemente. Extenuado e indignado, respondi que, graças a Deus, nunca tinha caído na tentação de confundir a Igreja com a Congregação para a Fé; caso contrário, não teria podido permanecer nem um instante nela; e convidei-os a que pensassem seriamente nas sombras que a Inquisição tinha acumulado naquele palácio, ao que o arcebispo J. Hamer respondeu que ele não sentia nenhuma vergonha desse passado."

O autor manifesta a sua perplexidade ao descrever a incompetência teológica de quem condenava esses gigantes do pensamento teológico. Causou-lhe, evidentemente, forte impacto saber que o cardeal Ottaviani tinha encarado "a possibilidade e a oportunidade de declarar herético o papa Roncali (João XXIII) durante o seu pontificado".

2. 2. Sobre a Irmã Lúcia, a viver numa comunidade religiosa: "Julgava-se uma eleita e as suas relações com a Madre Superiora eram conflituosas. O que a Virgem lhe "dizia" era inconsistente e trivial." Sobre o "Terceiro Segredo de Fátima": "Eu não tive nas mãos nem pude ler o documento. Mas, tanto quanto me referiu o então arquivista Mons. Certö, o texto dado a conhecer em 2000 por João Paulo II, e comentado pelo cardeal Ratzinger, foi expurgado. O mais importante e polémico desse Terceiro Segredo era a guerra interna da hierarquia católica: "cardeais contra cardeais, bispos contra bispos". Isso, segundo Certö, era o que demorava a publicação do texto, mais do que outros presságios de guerras e o assassínio do "bispo vestido de branco"."

2. 3. Sobre o celibato dos padres, é impressionante a história do esforço do papa Paulo VI para acabar com a sua obrigatoriedade e torná-lo opcional. Porque Paulo VI, ao contrário de João Paulo II, não tinha pejo em abolir o celibato obrigatório. "Mais: desejava a abolição. Como outros pensadores católicos de vanguarda, considerava a instituição do celibato obrigatório um estorvo para a evangelização e para a autenticidade do clero. Também um travão aos direitos humanos." Em Setembro de 1971, poucos dias antes do início do Sínodo dos Bispos, convocado para tratar do "sacerdócio ministerial", o papa, a partir da célebre janela do Palácio Apostólico, na sua alocução dominical, referiu-se ao tema do celibato: "O Sínodo que está para começar debaterá o celibato do clero. Pela minha parte, estou disposto a que homens cristãos casados possam aceder ao sacerdócio, desde que o Sínodo assim o queira." Os bispos não concordaram.

Paulo VI, que tanto se empenhou em propor o seu estudo e debate, tinha poder para abolir a lei do celibato obrigatório. "Tentou. Esforçou-se. Consultou. Fez trabalhar a Cúria. Mas cedeu. A sua mente era lúcida. Os seus propósitos, louváveis. Mas a sua vontade era débil. Na hora de executar, duvidava. Uma dúvida de sábio. Excedia-se em consultas. E desconfiava da sua própria sabedoria. João XXIII tinha-o caracterizado como "hamlético"."

Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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