Turismofobia: um perfeito absurdo

Autocarros turísticos atacados, pneus rasgados, alvos pintados nas paredes, palavras de ordem em cartazes: "Não vos queremos aqui", gritam milhares nas ruas. Os europeus estão doidos. A turismofobia vai ganhando adeptos com a cegueira habitual de quem todos os meses dá o peito a novas causas só para manter vivo o protesto. Não pode haver outra explicação, quando assistimos a tantas vozes defensoras da liberdade, dos direitos e da democracia a querer impedir que pessoas iguais a elas viajem para onde querem, a mostrar verdadeiro incómodo com o resultado da democratização do turismo. Queixam-se do exagero de turistas que chegam - e que nem sequer gastam muito dinheiro. Lamentam a descaracterização dos bairros históricos - os mesmos que apodreciam perante a indiferença de todos os que lá não moravam - como consequência de quem faz deles cenário para turista ver ou às mãos dos estrangeiros que os compram e reabilitam. Pouco faltará para ouvirmos falar com saudosismo dos tempos em que viajar era coisa acessível só a alguns - nunca o dirão assim, mas parece ser o que secretamente anseiam sobretudo aqueles que antes não faziam parte desse grupo de eleitos. Claro que esta vontade de ver o tempo voltar para trás só existe num sentido: o das chegadas. Ai de quem se lembre de nos vedar a artística Barcelona, a histórica Roma (ambas com cerca de oito milhões de visitantes por ano) ou a romântica Veneza (onde chegam cerca de 20 milhões). Mas é isso mesmo que pretendem os que vivem nessas cidades - e não se incomodam nada em radicalizar os protestos, como temos visto.

E nós por cá juntamo-nos à turba gritando na rua contra os sucessivos recordes sem nos darmos ao trabalho de realmente conhecer os números. Lisboa entretém menos de cinco milhões de estrangeiros; o país inteiro talvez chegue a receber neste ano 27 milhões; as receitas associadas à exportação de serviços subiram para 12,7 mil milhões de euros à boleia do turismo, que desempenhou um papel fundamental na economia do país no pós-crise, nomeadamente no aumento de 1,4% do PIB no último ano. Se a causa é questionável lá fora - sobretudo por comparação com os franceses, os mais visitados da Europa, ou mesmo os tailandeses, com cinco cidades no top 20 das mais visitadas do mundo e que mais do que duplicou as entradas nos últimos cinco anos, para um total de 32 milhões -, gritar contra os turistas aqui é só um perfeito absurdo

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