Tártara e europeia

Uma muçulmana primeira-ministra da Roménia é surpreendente, mas serve para recordar que, se durante séculos a Europa foi sinónimo de cristandade e por isso em choque com o islão, os muçulmanos fazem parte da história do continente e aqueles que vivem entre nós não são todos imigrantes recentes.

Sevil Shhaideh pertence à minoria tártara, que se instalou na Roménia no século XIII. Mesmo quando o país se libertou do Império Otomano, essa comunidade muçulmana continuou a viver entre os compatriotas, que na sua grande maioria são cristãos ortodoxos. A sua língua é o turco, o que explica que muitas vezes sejam vistos como turcos, etnia que na vizinha Bulgária ronda os 9%.

Ora, os tártaros romenos não são caso único no Leste. Na Polónia e na Lituânia existem os tártaros lipka, que descendem de um grupo chegado no século XIV e que se distinguiram como militares na União Polaco-Lituana, a ponto de terem combatido contra os otomanos no cerco a Viena em 1683, tendo de usar elementos distintivos para não serem confundidos com a cavalaria tártara que lutava do lado turco. Hoje escassos milhares, os tártaros lipka (Lituânia no seu idioma original) mantêm algumas aldeias onde se destaca a mesquita mas falam já polaco, lituano e bielorrusso.

Expulsos da Península Ibérica e da Sicília, os muçulmanos desapareceram pois da Europa Ocidental durante meio milénio, mas não dos Balcãs e do Leste. Na União Europeia são agora numerosos na França e no Reino Unido por via da descolonização e na Alemanha graças à imigração económica. Foram constituindo por toda a Europa comunidades com vários níveis de integração, desde os que aderem convictos aos valores ocidentais até àqueles, no outro extremo, suscetíveis de aderir ao apelo jihadista.

Não há volta, pois, a dar à diversidade europeia. Como o mostra a primeira-ministra romena, esta nem sequer é de hoje. Mas o desafio da integração não é só da Europa. É também para os muçulmanos europeus. E o debate (com e sem refugiados) ainda agora começou.

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