Que sirva para acordarmos

Quando se tem a crueldade gravada na memória, é difícil não ser parcial, não ter a certeza de que um homem, um segundo, uma frase podiam ter evitado um fim horrível. Mas tirando esses, a quem não é humanamente razoável pedir racionalidade, não é aceitável que se ponha em causa o trabalho de quem arrisca tudo para proteger quem nem sequer conhece. GNR, Proteção Civil, bombeiros - muitos deles voluntários, esgotados e pouco preparados, já que o seu trabalho é outro e ali apenas estão por pertencerem àquela fileira de pessoas que se sentem impelidas a fazer sempre mais. Despejar responsabilidades para cima destes é não ter um pingo de humanidade, de reconhecimento, de gratidão. Nem o choque nem a incompreensão por dramas demasiadas vezes repetidos - e em todas elas, sem exceção, esquecidos quando a temperatura esfria - podem justificar que se tenha menos do que admiração por quem, sobretudo nestes dias, se esquece de si para dar tudo aos outros. De resto, procurar culpados enquanto tudo arde tem o resultado de qualquer caça às bruxas: é injusto e ineficaz. Melhor seria que não nos esquecêssemos todos tão rapidamente - como em 2013, quando o fogo fez nove vítimas mortais; como em 2003, quando um quarto do Pinhal de Leiria desapareceu e 18 pessoas morreram; como em 1985 e 1986, quando mais de 20 foram apanhados pelas chamas. A indignação empolada e logo depois a esfumar-se, o debate sobre o que correu mal preso ao que se passou, em vez de servir de prevenção ao que pode vir, a espantosa admiração quando os mesmos erros têm precisamente as mesmas consequências sempre que os elementos se alinham com a má sorte. Se assim não fosse, talvez já não aceitássemos que 80% do orçamento para proteção civil e incêndios seja gasto no combate aos fogos e apenas 20% na prevenção. Talvez nos indignássemos com as condições em que trabalham os que nos protegem. Talvez até nos sentíssemos todos um bocadinho responsáveis e quiséssemos ajudar a tornar estes infernos muito mais difíceis de se tornarem realidade. Que tudo isto sirva pelo menos para nos manter acordados.

Do mesmo autor

Mais em Opinião

Conteúdo Patrocinado

Mais popular

  • no dn.pt
  • Opinião
Pub
Pub