Vamos aos pratos da balança de uma greve. De um lado, novo modelo e aumento da produção - mais trabalho -, turnos ao sábado com uma folga fixa ao domingo e outra rotativa durante a semana; do outro lado, um aumento de salário de pelo menos 16%, um bónus de 175 euros, a redução do horário para 38,2 horas/semana e mais um dia de férias..Esta proposta da administração da Autoeuropa - condições que foram alvo de um pré-acordo com a comissão de trabalhadores (CT) - foi recusada em plenário por dois terços dos trabalhadores. A esta altura, temos a CT demissionária e diversos sindicatos da CGTP a "trabalhar" o terreno. Não sei se será por funcionar por turnos, com horários insanos e com folgas muitas vezes desencontradas do resto da família há quase 25 anos, mas tudo isto me leva até àquela velha expressão "chorar de barriga cheia". Será que os tais dois terços dos trabalhadores da Autoeuropa já repararam que, comparando com as condições dos "colaboradores" da esmagadora maioria das empresas portuguesas - sobretudo os contratados nos últimos anos -, eles têm muito pouco com que se lamentar?.Há 22 anos que a Autoeuropa é apontada como um exemplo de produtividade e um modelo nas relações entre administração (patrão) e trabalhadores. Um caso raro que é sistematicamente usado como prova de que os trabalhadores portugueses são perfeitamente capazes de índices de produtividade ao nível do Centro e do Norte da Europa. Mão-de-obra qualificada, flexibilidade e paz social. Têm sido esses os principais trunfos daquela fábrica desde 1995. Numa altura em que os sindicatos tinham uma força com que hoje apenas sonham, a Autoeuropa era uma ilha de razoabilidade e negociação onde as centrais sindicais pouco ou nada riscavam e onde a CT liderava o processo. Ao longo dos anos, com as flutuações da procura e da produção, tudo foi sendo negociado entre administração e CT sem grandes sobressaltos. Houve negociações duras, com ameaças dos dois lados, mas nunca se chegou ao ponto de rutura. Em 22 anos, só duas greves gerais beliscaram a paz social na Autoeuropa. Essa tradição parece ter os dias contados e, perante a manobra de poder dos sindicatos nas últimas semanas, só resta esperar que os mais de 3300 trabalhadores da Autoeuropa não acabem um destes dias carregados de direitos e sem fábrica para trabalhar.