Nicolás Maduro tem dois grandes problemas: não possui o carisma de Hugo Chávez e o petróleo já não vale cem dólares por barril. Mas se não se pode culpá-lo por estas duas falhas, que o minimizam nas comparações com o falecido patrono, já é inegável que é escolha sua ter menos respeito pelo formalismo do voto do que Chávez. Este, líder venezuelano desde 1999 até morrer de cancro em 2013, fez sempre questão de respeitar a vontade da maioria e a verdade é que, embora ganhando por regra, aceitou a derrota no referendo constitucional de 2007. Maduro, pelo contrário, apesar de ter vencido as presidenciais de 2013, nunca digeriu o triunfo da oposição nas legislativas de 2015 (um sinal de mudança) e organizou as constituintes de domingo com regras que lhe garantiam o sucesso mesmo que não tivesse havido boicote pelos antichavistas..Chávez conseguiu aproveitar bem a alta do preço do petróleo para redistribuir riqueza aos venezuelanos e assim fazer chegar à classe média muita gente pobre. Foi feito um enorme esforço na habitação social e muitos indicadores de desenvolvimento melhoraram, como mostram as estatísticas da ONU. Mas, nos últimos anos, não só a renda petrolífera baixou como a instabilidade permanente prejudicou toda a economia, a ponto de os supermercados não terem produtos básicos. A culpa neste caso tem de ser repartida entre o poder e a oposição, porque nenhum campo se esforçou por reduzir a tensão mesmo quando morrem pessoas por falta de medicamentos. Chavistas e antichavistas parecem, aliás, querer levar o confronto adiante, apesar dos riscos de maior violência ainda do que aquela que fez uma centena de mortos nos últimos meses..As pressões internacionais e algumas sanções mostram o crescente isolamento de Maduro e como aos olhos do mundo as conquistas sociais de Chávez já não compensam os comportamentos autoritários de quem governa em Caracas. Mas uma solução válida para a Venezuela, que tem de ser urgente, precisa de ser feita por dentro, com gente com vontade de dialogar. As ameaças de Maduro não indicam que seja homem para construir essas pontes mínimas, mas do outro lado também não se vislumbra ninguém que pense em que garantias dar aos chavistas se estes negociarem, autorizarem eleições livres e no fim perderem, como é provável.