Os contínuos ataques terroristas dos últimos meses, seja dos jihadistas seja dos separatistas curdos, têm feito forte mossa na indústria turística turca ao afugentar muitos milhares de visitantes, mas mesmo assim a lista de mortos do atentado de fim de ano mostra como Istambul se mantém fiel ao ideal de cidade cosmopolita: afinal, na discoteca Reina, junto ao Bósforo, morreram sauditas e israelitas, indianos e tunisinos, num total de 23 estrangeiros de mais de uma dezena de nacionalidades entre os 39 mortos confirmados..Não houve reivindicação imediata, mas as suspeitas recaem sobre o Estado Islâmico, que tem lançado apelos aos lobos solitários para matarem em nome do islão, chamando o governo turco de "laico e apóstata". Os separatistas curdos, que também têm atacado a grande metrópole turca, costumam ter como alvo polícias ou militares e não locais frequentados por civis como discotecas..Ora, é o cosmopolitismo de Istambul e o laicismo da Turquia (mesmo que o presidente Recep Erdogan se reivindique islamoconservador e contrarie algum do legado de Ataturk) que gera o ódio dos jihadistas, que se viraram contra o país quando este começou a intervir diretamente na guerra civil síria, tanto contra o Estado Islâmico como contra também os grupos curdos, inimigos entre si, diga-se. A recente aliança entre turcos e russos para encontrar uma solução para a Síria ainda terá acicatado mais a fúria aos jihadistas, que à medida que vão perdendo terreno vão procurando retaliar através de atentados que desestabilizem todos os países que os combatem..Não será fácil para a Turquia ganhar esta batalha (até porque Erdogan envolveu o país em várias frentes em simultâneo, basta pensar também na luta contra a confraria de Gülen) mas a vitória no fim tem de ser sua. Istambul, a antiga Bizâncio e Constantinopla, merece que não a abandonemos. Quando pensarmos como a vida se celebra no Bataclan, em Paris, pensemos também na Reina. A margem ocidental do Bósforo faz parte da Europa,mas mesmo que não fizesse.